DOIS

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Vermelho.

Essa é a cor que me vem à mente toda vez que olho para a namorada do meu irmão. Sei que é meu irmão que tem cabelo cor de fogo, e não há nada nela nesse tom, para me lembrar dessa cor. Na verdade, Vênus tem o cabelo de um castanho quase escuro, assim como seus olhos são quase escuros. Eu encaro seu maxilar pontiagudo, seus olhos profundos e o queixo proeminente que só mostra o quanto de personalidade aquela garota tem – e sinto aquilo que senti na primeira vez que fomos apresentadas: tá aí uma garota que eu queria ser.

É até engraçado que ela tenha tantos quase espalhados em sua aparência física, quando Vênus é tão inteira, verdadeira e intensa. É por isso que penso em vermelho quando a encaro, e não quando olho meu irmão. Vênus é um fenômeno da natureza não explicado. E eu a adoro.

— Venci – ela fala, girando a cabeça para trás.

Arqueio a sobrancelha confusa, mas, antes que questiono, ela escancara a porta para me deixar passar, volta para a sala e se joga no sofá.

— Vênus e Pedro – diz Lua, sentada no chão da sala – apostaram quanto tempo você demoraria para vir aqui, depois da matéria no jornal.

— Ele achava que você só apareceria no começo da noite, mas ainda são cinco da tarde. Logo, venci – Vênus dá de ombros – Eu sou mesmo maravilhosa.

— Pedro está fazendo suas panquecas – diz Caio, com o braço sobre os ombros de Luana. Os dois acabaram de assumir o relacionamento, depois de fingirem vinte anos que não se amavam, então estão naquele estágio que precisam se tocar o tempo todo. É constrangedor. Mas somos bons amigos e fingimos que não vemos.

— Ah, droga, Daf – Pedro resmunga e vejo sua cabeça aparecer de relance pela porta da cozinha – Era para você chegar depois que as panquecas estivessem prontas.

Panquecas do Pedro são, tipo, a melhor comida do mundo. Não porque ele seja um grande chef de cozinha – na verdade, ele é bem meia-boca – mas porque são feitas com carinho e ele sempre prepara quando sabe que estou chateada e quer me animar. Não se trata de comida, no fim das contas. É sobre amor que a gente está falando.

— Tente me avisar da próxima vez – brinco, e me jogo no puf novo que com certeza não foi Pedro quem escolheu – Vocês assumiram que estão morando juntos, é isso?

Caio e Lua dão uma risadinha. De onde estou não dá para ver Pedro, mas conhecendo meu irmão como conheço, ele deve estar tão vermelho quanto o cabelo. Vênus revira os olhos.

— O que eu queria mesmo era morar na república perto da faculdade.

— Não vejo sentido em você morar numa república perto da faculdade, se você é da cidade – fala Pedro.

— Eu moro muito longe do campus! – Vênus protesta – Seria tão mais fácil. É tão difícil acordar de manhã e lembrar que preciso atravessar toda a cidade para estudar...

Vênus odeia estudar. O que é um dado muito irônico, considerando que não conheço ninguém no mundo que ame estudar mais que meu irmão. Mas os dois são esse tipo de casal improvável, opostos em tudo. Se Pedro é aquela chuva fina e ritmada de verão, Vênus é uma tempestade que não avisa nem aos melhores radares do universo. Meu irmão tem seus momentos de explosão, é claro, mas Vênus é uma reação química nunca controlada, e é engraçado vê-los juntos porque, para ser bem sincera, apesar de todas as discrepâncias, eles são aquele tipo de casal que parecem ter feitos um para o outro. Aquele tipo de relacionamento que a gente torce para viver, algum dia, quem sabe.

— Quem escuta acha que a gente mora numa metrópole, e que não se gasta nem meia hora a pé, da casa dela até o campus – fala Caio.

— Você não conta. Você é praticamente um maratonista. Olha o tamanho dessa sua perna. Eu ainda não dei o primeiro passo, e você já atravessou a cidade inteira.

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