Capítulo 2 - Inefável

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​Na manhã seguinte, Sam acordou sobressaltada com o barulho, percebeu que Theo não estava ao seu lado e imediatamente olhou para o palco, de onde vinha o som.

​Viu ao longe Theo tocando animadamente o velho piano branco, sentada numa das cadeiras tomadas pela sujeira do local. Saiu correndo na direção dela, subindo os degraus do palco aos tropeços.

​- Pare com o barulho! – Sam bradou, colocando a mão espalmada sobre sua mão esquerda enfaixada, assustando Theo.

​- Ai! - Theo recolheu as mãos das teclas, esfregando a mão esquerda, próxima ao peito.

​- O que você pensa que está fazendo?

​- Praticando um pouco, faz tanto tempo que não encosto num piano. ​

​- Você não pode fazer isso, está louca? Vai atrair andarilhos ou policiais!

​- E você é procurada pela polícia?

​- Não importa, você nos colocou numa situação de risco, entende isso? – Sam permanecia atrás dela.

​- O sol já nasceu, vamos partir daqui a pouco, não vejo o risco.

​Passado o calor da situação, Sam acalmava-se e pensava com mais sensatez. Ficou ao lado de Theo, que estava ainda sentada na cadeira.

​- Machuquei sua mão? – Disse ao pousar a mão em seu ombro.

​- Não. Desculpe o susto. – Theo falou quase num murmúrio.

​Sam olhou ao redor, viu todo aquele grandioso salão vazio, os panos pomposos e avermelhados e puídos ao redor do palco, por duas semanas vagava solitariamente por aquele continente, dormindo em lugares semelhantes, e nunca havia parado para prestar atenção nestes detalhes. Voltou a olhar para Theo e percebeu que havia exagerado na reação.

​- O que você estava tocando? Me é familiar.

​- Morning Mood, é um trecho de uma ópera de Edvard Grieg. Ou algo assim, faz tanto tempo que aprendi isso... - Theo ainda segurava sua mão ferida.

​- É bonita. – Voltou a colocar a mão em seu ombro. – Se importa de tocar mais um pouco?

​- Sam, você está me testando?

​- Não, estou falando sério. Essa hora do dia ninguém vai aparecer aqui por causa do som de um piano. Mas se não quiser tocar ou sua mão estiver doendo, tudo bem, vamos recolher as coisas e partir.

​Theo voltou a colocar as mãos sobre o teclado, hesitou por um instante, e voltou a tocar a mesma música.

​- Minha mãe tocava piano, quando éramos crianças. – Sam disse, enquanto observava Theo tocando, ao seu lado. – Por um momento todo o peso da sua jornada pareceu leve, leve como a consciência de uma criança. Theo apenas sorriu.

​Aquele momento onírico foi interrompido pelo bip que vinha do carro.

​- Sentinelas. Precisamos ir. – Sam disse, já indo na direção do carro, mas voltou e conduziu Theo pelo braço.

​- Que?

​- Sentinelas, os robôs policiais, você sabe o que são, não sabe? Aqueles ciclopes de três metros de altura.

​- Sim, eu sei, mas como você sabe que tem sentinelas por perto?

​- O carro tem radar para isso. – Sam olhou na tela no painel do carro. – Estão se distanciando, mas de qualquer forma não é seguro continuarmos neste lugar.

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