Entendeu tudo certo, esse rapaz. Não falta amor no mundo – falta interpretação de discurso alheio. Pelo menos, parece faltar muito isso no curso de jornalismo.

Haviam tantas coisas erradas naquela manchete que eu queria matar alguém. Para começar, eu não era musa porra nenhuma. Me respeita, que eu não passava seis horas diárias me matando de treinar para só ser lembrada por ser bonita. Tá, eu era bonita. Tá, eu tô no padrão de beleza. Tá, e daí? Não estava numa passarela. Não queria ser modelo. Não fazia nada que realmente precisava elogiar minha beleza – eu era a melhor atacante de vôlei juvenil por dois anos consecutivos, eu merecia muito mais do que ser lembrada por ser bonita.

Bonita o cacete.

Eu era uma atleta.

Mas não era com isso que minha família estava preocupada e perdia seus preciosos minutos para exibir a felicidade de propaganda de Margarina. Na verdade, ser considerada musa de alguma coisa deixava meus pais muito felizes – os Vale tinham aquela ideia totalmente ridícula do século 18 que uma mulher só servia para ser bela, recatada e do lar. O sucesso feminino dessa família consistia em casar com um cara rico e continuar mantendo o legado da família – que, diferente do legado dos Winchesters que era muito mais divertido, era só posar para fotos e gerar filhos loiros de olhos verdes.

O que fez gerar todo esse escarcéu era eu ter dito que não era uma Vale. O que, é claro, eu não havia dito. Mas é aquele ditado: cada um escuta o que quer. Pena que quem estava pagando pelo repórter não limpar o ouvido direito era eu, que não tinha nada a ver com o assunto.

— Você não é uma Vale!? – meu pai repete, amassando o jornal mais ainda, deixando meu rosto parecendo um demônio que Dean Winchester adoraria exorcizar – Como você ousa?!

— Eu sempre disse que ela ser muito próxima do Pedro iria destruí-la – fala Patrícia – mas ninguém me escuta nessa casa.

Ainda bem.

— Francamente! – bufa meu irmão, que não conhecia muitos advérbios de modo. Nem muito mais do que isso na língua portuguesa, para ser sincera.

— Daf, queriiida – graceja minha mãe, com sua voz tão artificial que a faria ser uma ótima madrasta de filme da Disney. O que eu posso dizer? Ela gostava do papel do drama – Você não pode sair dizendo que não é uma Vale quando você é uma, entende?

— Eu não disse que não era uma Vale. Até porque é óbvio que sou uma Vale. Eu só não quero que as pessoas acham que eu sou boa nas coisas porque sou uma Vale.

Não parecia bastante óbvio?

— A única coisa que você é boa mesmo, sua idiota, é em causar transtornos desnecessários para essa família – fala Patrícia.

Pelo amor de Deus – era só uma droga de manchete no jornal. Será que ninguém me daria parabéns pelo meu excelente jogo? Será que meus pais não podiam me abraçar e dizer que estavam orgulhosos de mim? Será que era pedir demais uma família menos fotografia-capa-de-revista para uma família que realmente nos enxergasse? Será que perder um filho, com ele decidindo romper todos os laços, não era o bastante para esses idiotas?

Será que ninguém poderia me admirar por aquilo que eu era? Por trás da droga do sobrenome? Nem minha própria família?

— Francamente! – fala meu irmão pela quadragésima vez.

— Francamente mesmo! – pulo do sofá – Isso não faz o menor sentido! Eu não disse isso! Mas se a palavra que está no jornal vale mais do que a minha, então não posso fazer nada.

— Aonde você pensa que vai, mocinha!? – berra meu pai.

— Pedro! Eu vou no Pedro – e bato a porta antes que eles berrem mais alto ainda.

A grande área verde dentro do condomínio fechado impede que as pessoas saibam a loucura que tudo, dentro dos Vale, era. Do lado de fora, perto dos muros e observando toda a fachada vitoriana, dava até para acreditar que éramos uma boa família para ser imitada – aquela mesmo, a tradicional família brasileira que muita gente enche o peito para falar que tem.

Como toda família tradicional, o tempero estava meio estragado – e o conceito de família não tinha como entrar num muro de proteção tão grande criado em volta.

Mas tudo bem – eu já estava quase livre. Eu só precisava fingir que também fazia parte da família tradicional por mais uns meses. Até os dezoito anos. Até eu começar a ganhar o suficiente para não depender mais dos meus pais, com aquilo que eu mais amo fazer.

Até eu poder ser quem realmente sou – aquela que não foi retratada na foto.

Até eu poder ser quem realmente sou – aquela que não foi retratada na foto

OLAR, MADRUGADORAS BOLADONAS DESSA IMENSIDÃO WATTPADIANA

não me aguentei (quando eu me aguento né) e vim postar logo o capítulo um dessa história que me diverte (e me desgraça) tanto. Espero que vocês gostem desse tom adolescente rebelde sem causa tanto quanto eu, amém. Inclusive, estava morrendo de saudade de escrever em primeira pessoa. OBRIGADA DAFNE VALE.

Se você chegou por aqui porque já acompanha as outras histórias, não se intimide, você sabe onde fica o café, então sinta-se em casa. Caso você é um serumaninho que não sabe bem como veio parar nesse lugar, não tenha medo - eu não mordo, embora talvez possa te angustiar um pouco, com minhas palavras tanto quanto ácidas. Mas juro que é por amor. Amor as palavras, quero dizer. E aos sentimentos verdadeiros e pessoas reais, também. Então, sinta-se a vontade para surtar, xingar e odiar, desde que com respeito, educação e alguns votos e comentários - por que não né tsctsc

Felicis pra quem se lembrar das estrelas e das opiniões.

& beijos cafeinados valenianos <3

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