UM

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Amarelo.

É a primeira coisa que vejo quando meu pai sacode o jornal da cidade na minha cara. Todo o resto é percebido pela minha atenção periférica: minha mãe com os olhos assustados, meu irmão resmungando "francamente" aleatórios, minha irmã com cara de escárnio, a manchete dançando em frente aos meus olhos.

Amarelo. É o que meu cabelo é. É isso que o cabelo de todos os Vale eram. Exceto meu irmão mais velho que, por mutação genética, tinha o cabelo amora-vermelha. Amora vermelha também podia ser usada para descrever a personalidade de Pedro – apesar do quê de azedinho, ele era tão doce que quase chegava a doer.

Ele é o único da família que não está na sala, e sinto meu peito doer ao perceber a sorte que o filho mais velho tem por escapar dessa teia de aranha venenosa que os Vale são. Sinto admiração, inveja e desespero, tudo ao mesmo tempo, porque sei que a fuga de Pedro é a última coisa que conquistarei – se é que algum dia, menina que sou, conquistarei. Eu, Dafne. A filha caçula. A que escondia o pior segredo que uma família tradicional pode suportar. A que estava sendo exibida no jornal.

Eu não devia me incomodar com a exposição, na verdade – pelo menos é o que minhas amigas dizem, todas elas adorariam ter a minha vida, meu cabelo dourado, meus olhos verdes, minha altura, meu corpo, minha conta bancária. Nenhuma delas parece querer meu talento com o vôlei. Mas todas queriam ser uma Vale, pertencente à família que pode ser considerada dona da cidade.

Nem preciso dizer que isso fazia meu estômago revirar.

A garota do jornal, no entanto, a garota que eu também sou, com sua pose de rainha, a expressão de líder, o sorriso de superioridade, não demonstra que tudo isso me causa enjoo. Na verdade, dava até para entender porque minhas amigas queriam ser eu. O que ninguém parecia entender era que eu não queria ser dona da cidade – eu queria ser dona de mim.

— Como você pode? – resmunga minha mãe.

— Francamente! – fala meu outro irmão mais velho.

— Um absurdo! – concorda minha irmã.

— Só quero que você me explique que merda de manchete é essa! – meu pai esbraveja.

Não há nada demais na capa do jornal, apesar do drama digno de uma peça de teatro. Era só uma garota de dezessete anos, lotada de adrenalina pós-jogo, feliz com o resultado do time, dando uma resposta desafiadora ao repórter local que havia feito a pergunta errada. Mas eu devia ter desconfiado – qualquer coisa que esteja além da linha rígida do que é ser um Vale causa um alvoroço danado que não fazia sentido algum.

Foi o primeiro jogo do time de Ponte Belo na Liga principal de Vôlei – isso mesmo, a Liga Nacional. Era o meu primeiro jogo no time principal, também. Embora eu tivesse ganhado duas vezes como melhor jogadora juvenil, só naquele ano eu havia subido para o time principal. Eu era a jogadora mais jovem. E eu havia sido a maior pontuadora da partida. Inclusive, havia feito o último ponto – um ace perfeito que caiu entre a líbero e a ponteira do time adversário. Eu queria curtir a minha glória do momento. Eu queria me sentir realmente boa em alguma coisa, por mim, como eu sou. Mas tudo o que o repórter fez foi perguntar:

— Como você se sente já sendo eleita a Musa das Quadras? E como você, uma Vale, se sente desbravando um território que nenhum outro Vale chegou?

Pelo amor de todos os deuses! Eu não sei como eu não soquei a cara daquele imbecil.

Meu pai sacudiu mais uma vez o jornal, amassando-o com o movimento. Dei um suspiro, porque isso era basicamente o que eu podia fazer no momento. A chamada da manchete, sensacionalista além da conta, havia distorcido toda a minha resposta diplomática sobre o assunto. Ela resumira meu manifesto a uma frase quase tosca, o que me fazia crer que o jornalismo devia estar com os dias contados. Em letras garrafais, o querido e idiota repórter escrevera: DAFNE, A MUSA DAS QUADRAS DE VOLEI, DIZ QUE NÃO É UMA VALE.

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