O Expediente

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Desde que inventaram a caixa idiotizante – e isso já faz muito tempo – as pessoas começaram a se viciar em espetáculos. A presepada diária precisa ser garantida, e com o excesso do incrível, este se tornou corriqueiro. Por isso que os heróis criados pela mídia estão sempre sob os holofotes, e logo são trocados por outros sem que ninguém perceba. O Importante é ter sempre um palhaço no centro do picadeiro. O Público apenas aplaude e sorri. Todo mundo sabe que as capas esvoaçantes e as máscaras exageradamente coloridas podem cansar nossa paciência. Mas quando anunciam a chegada de mais um bufão, saracoteando de um lado para o outro, aparece logo um monte de gente querendo ajudar na construção do seu novo fã clube.

É como dizem no showbusiness: "Com grandes poderes, vêm grandes públicos."

Tem um monte de gente se avolumando lá embaixo, e com certeza, eles não são o meu público. Estão aqui por causa de um cara que resolveu não só acabar com a sua própria vida pulando do décimo terceiro andar, como também parar com todo o trânsito da principal, mobilizar o corpo de bombeiros, destacar uma viatura da polícia e talvez incentivar mais uma meia dúzia de desesperados a se jogarem dos telhados da vida. Esse cara também não é o pomposo de peitoral estufado por quem a patuleia esperançosa, anseia ver voando sobre nossas cabeças, distribuindo autógrafos e selfies, para só depois ajudar alguém. Palhaços voadores que atrapalham, como sempre, o nosso trabalho, em troca de atenção e autopromoção. Talvez esse infeliz a beira da morte também esteja nessa, de "vou pular", pela atenção, só que de um modo mórbido e pateticamente diferente. Ele deve ter perdido a audiência dos amigos, o patrocínio do emprego, e a tietagem da família.

– VEJAM, TEM OUTRO SALTADOR LÁ EM CIMA! Bradou um imbecil no meio dos desocupados.

Sério mesmo que não entenderam ainda que eu estou aqui a trabalho?

Há quase vinte anos faço esse tipo de coisa. Não pelo dinheiro Se eu dissesse isso, com certeza, eu seria mais louco do que esse coitado a um passo do vazio Mas faço porque gosto de ajudar as pessoas. Bem, pelo menos esse é o discurso que eu costumo dar quando estou de bom humor. Mas hoje... Ah! Hoje eu não estou a fim de ser o garoto-propaganda da brigada. Minha mulher acordou disposta a descarregar em mim as suas frustrações, meu filho foi reprovado na escola de novo, e o meu time foi rebaixado. Por enquanto, a única coisa que eu posso esperar de bom, é descer com esse cara, rápido o bastante para pegar o boteco do Juca ainda aberto, e comer aquele mocotó no capricho! É gorduroso, aumentou de preço, mas tem sido a minha recompensa ao término de todo serviço.

Enquanto eu desejava me banquetear com aquilo que encurta a vida, o nosso amigo ainda estava decidindo se acabaria de uma vez com a sua, ao mergulhar no asfalto.

– Bom dia, meu querido! – disse eu, buscando não assustar o pobre.

– NÃO SE APROXIME, SENÃO EU SALTO! – berrou, mas não parecia muito assustado. Estranho.

– Você não precisa fazer isso – falei enquanto passava a minha outra perna por cima da platibanda.

Agora eu estava junto com ele. Na fachada. No último peitoril do prédio mais alto do quarteirão. Só precisava ganhar a confiança dele. Distraí-lo enquanto me aproximava, e enquanto o colchão inflável lá em baixo era enchido.

– Meu nome é Sargento Nivaldo. Qual é o seu nome?

– Não posso dizer.

– Porq...? – Ele nem me deixou terminar a pergunta.

– PODE PARAR QUE EU SEI O QUE ESTÁ QUERENDO FAZER!

Jura!?

– Meu camarada – tentei ser amistoso – se você continuar andando pra lá, você sairá da direção do colchão inflável. Acabará caindo daqui.

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