Capítulo 1 - Conhecimento

51 2 5


Sentado em um velho tronco, o Cavaleiro se deliciava com as fracas brasas da pequena fogueira quase morta.

O fogo refletia os anéis de sua cota de malha não escondidas pelos trapos marrons que trajava, expondo uma cor vermelho alaranjado. O seu elmo possuía a mesma tonalidade, tinha traços quadrados e era fechado como um túmulo, as únicas duas aberturas eram para os olhos, esses que permaneciam ocultos mesmo com a luz a frente, talvez estivessem mortos.

Era noite, e continuaria a ser. As estrelas preenchiam o céu e as cigarras cantarolavam pela floresta. A fogueira perdeu a essência e se dissipou. A luz azul da lua se apossou do ambiente, era forte, mas nunca seria tanto quanto as chamas do saudoso sol. Ele se levantou e ajeitou a espada embainhada que antes descansava no solo para o seu cinto preto de couro, e seguiu a pé pela trilha de terra seca.

Horas se passaram, tinha certeza, só não sabia dizer quanto ao certo, à noite infindável não o deixava compreender a passagem de tempo. A lua continuou a sorrir para o Cavaleiro e logo ele chegou à cidade de Lai. Atravessou um portão arqueado de concreto e de imediato sentiu a atmosfera se alterar. Antes o limpo e refrescante vento da floresta cortava o seu elmo, agora o asqueroso cheiro de podridão da cidade de urina e cachorro molhado tomou conta. Cercado por casas de tijolos cinza, andou pelos arredores enquanto escutava o murmurar de algumas pessoas sujas deitadas no chão, estavam magras. Alguns lares emanavam a luz de seu interior, outras estavam totalmente escuros, não havia um padrão. Seus passos eram lentos e pesados, percebeu que à medida que avançava, a terra seca umedecia-se, sujando de lama as suas botas. Um vento forte passou e espantou um corvo situado em um varal suspenso entre janelas mais ao alto de uma construção. O grito daquele pássaro ecoou.

Finalmente chegara ao local. Bateu duas vezes a aldrava de metal enferrujado contra a porta e aguardou.

- Pode entrar! - gritou alguém de dentro com uma voz áspera.

O Cavaleiro empurrou a porta e ela rangeu. Atravessou e se viu em um quarto não muito grande. As quatro paredes estavam cobertas por estantes lotadas de livros, assim como o restante do espaço. Livros, teias de aranha e muito pó.

- Você não é um cobrador de impostos, é? - disse um velho de tapa olho atrás de um balcão, enquanto segurava um livro da grossura de sua cabeça. - Não se pode mais espalhar o conhecimento sem ser taxado agora? Pelo amor dos deuses...

Não houve resposta, o Cavaleiro tirou de seu cinto um papel encardido pelo tempo, o desenrolou e o mostrou ao senhor.

- A figura do sol - disse o velho -, já faz mais de trinta anos desde que alguém veio aqui por esse motivo. Isso é ótimo... ótimo que você não seja um cobrador - falou, rindo e tossindo. - Só um momento, vou pedir pro... - assobiou, e de súbito, sons de passos rápidos em madeira surgiram. O Cavaleiro averiguou e viu um lêmure saltando entre o topo das estantes, até chegar ao balcão e olhar para o bibliotecário. - Crick, pega aquele livro velho da estante três.

O animalzinho desceu e correu pela biblioteca.

- Quer um copo de água? - perguntou o senhor.

O Cavaleiro meneou a cabeça.

- Bem, eu quero - disse o homem, despejando em um copo a água de uma antiga jarra de ferro. - Então você quer tentar recuperar o sol... não vai ser fácil, considerando que até hoje ninguém nunca conseguiu - de repente, escutaram barulhos de alguns livros caindo do outro lado da sala. - Mas sabe, até que a gente começa a se acostumar, quero dizer, depois de... quarenta, quarenta e dois anos? Enfim, a lua até virou a nossa amiga e se aproximou, tentando imitar o sol com o seu brilho azul. Isso de alguma maneira pelo menos não deixou as plantações murcharem por completo, se não todos nós já teríamos morrido de fome, certo? Embora a navegação tenha se tornado um pouquinho mais difícil. No futuro talvez chamem esses nossos anos escuros de "a era das trevas", mas não acha que seria egoísta? Deveriam chamar de "a era da lua", seria uma bonita homenagem.

O Cavaleiro não respondeu.

- É claro que pra isso acontecer você ou outro alguém vai ter que reviver o sol - deu uma golada do copo com os olhos apontados para o Cavaleiro. - Nunca vi uma cota igual a sua, não me parece de cobre, muito alaranjada, interessante.

O lêmure então voltou a passos desengonçados abraçando um grande livro de capa vermelha. O entregou ao bibliotecário e no balcão o velho o abriu, levantando um pouco de poeira, o folheou até parar em uma página em específico.

- Do início, certo? É quase como uma tradição pra mim - disse ele, iniciando a leitura em seguida:

O Verme acordou, do sol se alimentou e três filhos gerou, as crias da luz. Neste dia, o mundo caiu em negritude. Mas a lua, a doce lua não nos abandonou.

As crias se voltaram contra o pai e o trancafiaram no abismo - às vezes eu me pergunto se é correto um filho fazer isso com o próprio pai... enfim.

Para o sol ressurgir, o verme há de sucumbir. As crias são a chave e precisam dormir.

De um herói necessitamos para com a desgraça do mundo acabar e na pele um dia sentir os raios de sol nos tocar.

- Escrito por Hedd, o Bibliotecário da cidade de Lai.

- Gostou? Eu sou Hedd - falou com um sorriso. A idade o deixara com poucos dentes.

O Cavaleiro assentiu uma vez com a cabeça.

- Obrigado - respondeu Hedd. - Bem, a única cria conhecida até hoje é Caerwyn, a fortaleza. Ele já triunfou contra centenas de guerreiros e é temido por sua força bruta e grande estatura física. Alguns já o chamaram até de gigante, mas eu acho que deve ser exagero, eu acho... Ele é bem receptivo, espera os desafiantes em sua casa, em algum lugar no deserto de gelo ao noroeste, depois da grande cidade de Coffáu. Dizem que quando derrotado, Caerwyn dará a pista para a próxima cria da luz - fechou o livro. - Isso é tudo, você ainda vai prosseguir?

O Cavaleiro retornou o papel em seu cinto e depois inclinou a cabeça, um gesto de agradecimento.

- Bem, agora tudo que posso lhe dizer é boa sorte, você vai precisar. Foi bom falar com você meu jovem...

Sem mais tempo para perder, o Cavaleiro se retirou.

Na biblioteca, Hedd notou pegadas de lama no chão de seu estabelecimento.

- Preciso colocar um tapete na entrada... - sussurrou enquanto coçava o queixo. - Crick, me traz um pano!

O lêmure resmungou.

O Cavaleiro Sem VozLeia esta história GRATUITAMENTE!