A Notícia

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A paisagem muda diante de meus olhos. É estranho. Concluo que tudo não passa de um mero sonho, e que irei acordar em breve, rindo por eu ter tido medo de algo criado por minha mente.

Volto a olhar para minha mão. Acho que apenas a enxergo por estar procurando por ela, de tão transparente que ela está. Respiro fundo, e olho para o lado. Por algum motivo, suspirar parece ser uma ação tão esquisita de se fazer; tão desnecessária. É quase como se eu não precisasse me dar ao esforço de inalar ou soltar o ar; é bizarro. Estou num cômodo que nunca havia visto antes, e por isso estou confuso. Há um berço em minha frente. Eu estou em um quarto de bebê? Ótimo! O que me falta acontecer agora é começar a chover uísque!

Seja lá onde eu esteja, preciso entender exatamente o que está acontecendo. Saio do quarto, passando pela porta sem sequer precisar abri-la. Passar por coisas materiais faz cócegas.

A casa em que estou é bem arrumada. Vejo um piano ao longe. Imagino que haja alguém que esteja aprendendo o instrumento, já que ele parece ser quase que novo. Flutuar pela sala é uma tarefa nova para mim. Sinto-me mais leve do que eu deveria. Sabe aquela expressão 'não consigo sentir minhas pernas'? É exatamente como estou me sentindo, só que é ainda mais complexo do que apenas isso, eu sei.

Vejo um vulto passar pela casa. É uma mulher.

Ela é jovem, e seu cabelo é comprido. Ela está com uma carta em mãos, e seus olhos estão vermelhos. Encará-la com precisão é difícil quando ela está correndo, mas acho que já a vi em algum lugar. Encolho os ombros e vou até onde ela está. Ela abre uma porta e entra. Ela a fecha na minha cara! Custava deixar aberta?

Ela não te enxerga, John; deixa disso!

Entro no local.

Há um homem, sentado numa cadeira, de costas para a porta, escrevendo alguma coisa em um pedaço de papel. A pena que usa desliza delicadamente pela folha, mesmo que ele faça movimentos rápidos enquanto escreve. Ele possui um cabelo negro e, pelas roupas, deve ser alguém importante para o Governo.

E então, eu os reconheço...

"Alexander... há uma carta para você da Carolina do Sul." a mulher é Elizabeth Schuyler. Arregalo meus olhos.

Alexander molha a pena com mais tinta. "É de John Laurens; eu a leio depois."

Mas eu não te escrevi nada nesses últimos dias, penso, tentando entender.

"Não, não é." diz Eliza, com a voz fraca. "É do pai dele."

Só então, Hamilton para de escrever, como se tivesse paralisado. "Do pai?" Ele engole a seco antes de falar novamente. "Poderia lê-la?"

Eliza passa a mão nos olhos antes de começar. "Na terça-feira, dia 27, o Tenente-Coronel John Laurens foi morto numa troca de tiros contra tropas britânicas na Carolina do Sul. Ditas tropas não haviam recebido a notícia de Yorktown que a guerra havia terminado. Ele está enterrado aqui até que sua família possa buscar seus restos mortais.

"Como deve saber, o Tenente-Coronel Laurens estava empenhado em recrutar três mil homens para o primeiro batalhão militar inteiramente negro. Os membros sobreviventes desse batalhão foram entregues novamente aos seus mestres."

Ela abaixa a carta. Estou paralisado, sem saber, ao certo, como reagir. Ela acabou de ler a carta que notifica meu falecimento? Mas eu estou aqui, como posso estar morto? O que está acontecendo?

Noto que Alexander está calado. Levanto minha cabeça e o encaro. Consigo perceber que seu corpo treme, mas ele não pronuncia uma palavra sequer, ou produz algum ruído. Isso é estranho, já que ver Alexander Hamilton sem ter palavras nunca é nem nunca será um bom sinal.

"Alexander..." Eliza aproxima-se dele "Você está bem?" ela coloca a mão em seu ombro.

Ele retesa os músculos, mas não responde. Ele levanta a cabeça devagar e, sem olhar para a esposa, diz:

"Eu tenho muito trabalho a fazer."

Eliza abaixa a cabeça novamente, e deixa o cômodo, olhando sempre para trás, vendo como estava Alexander. Aproximo-me de Hamilton. Seus olhos estão molhados, apesar de se esforçar em barrar as lágrimas, e impedir que escorram. Ele parece tão abalado, tão ferido...

E eu não posso fazer nada para consolá-lo. Tento abraçá-lo, mas meus braços passam por seu corpo. Noto que ele levanta a cabeça quando isso acontece, como se tivesse me sentido. Seus olhos procuram alguém na sala, sem encontrar ninguém, e eles voltam a tornarem-se turvos. "John..." ele diz, olhando para o pedaço de papel em sua frente. Leio meu nome escrito e concluo que ele estava justamente escrevendo uma carta para mim naquele momento. Isso me faz ficar péssimo. "Meu pobre John..." ele começa a chorar compulsivamente, e a soluçar, tremendo.

Eu apenas queria poder dizer 'eu estou aqui'...

N/A: Essa fanfic tá me destruindo interiormente ._.

Espero que tenham chorad--gostado :)

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