Capítulo 32 - Doriam

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Outra vez estou na Floresta sem alma, caminho em direção a caverna daquele ser que habita este lugar seco, vejo aqui e acolá olhos na escuridão e uivos vindo de lugares distantes. O cheiro é de podridão, uma mistura de folhas mortas e lama fétida. Impossível andar sem chamar a atenção pois a ramos secos por todo o chão e "crec, crec", de meus sapatos partindo os galhos me seguem.

Hum, presumi que voltaria... ninguém desconfia de sua presença nesta floresta?

Ainda não vi a criatura que possui esta voz.

-Não sou tolo. –Falo para o nada, continuo andando, até parar na entrada da caverna. Fica na encosta de um morro que desce para as profundezas de um córrego, escuto o som da agua corrente lá dentro. Estou furioso em ter voltado, onde foi parar minha força de vontade? Mas saber que Ivy está com outro me deixa em agonia. –Não consigo me concentrar... eu preciso dela, Terna é uma boa esposa, é carinhosa e bela, mas...

Não me importune com suas lamúrias. Se deseja algo, pegue! Afinal as divindades não deram a vocês, Soberanos, este mundo. Contudo sabemos que o mundo é regido apenas pelos fortes... assim como seu irmão.

-O que você sabe sobre este mundo? –Pergunto irritado. E escuto sua risada vindo do fundo da caverna, ela ecoa muitas vezes antes de cessar.

Sou este mundo, ele me pertence... sou o único capaz de lhe ajudar, o único que o fara. Ninguém mais, além de mim, poderia continuar ocultando o que sua esposa é, como acha que seu supremo pai não percebe a presença de Depravação? Acha que teria deixado um sentimento como este, ser soberana em seu reino... não, claro que não, mas ele não a vê a beleza que vemos neste sentimento, pois é imoral, sim, mas é libertador... não é?

-Sim... –Falo. O sentimento corre por minhas veias como veneno, mas não consigo me livrar dele. Contudo suas ideias são extremas, não vou obrigar Ivy a ficar comigo, ela já me amou, poderia ama de novo, nem penso que Terna vai ser corrompida pelas trevas, e jamais pensaria em trazer Ivy para cá contra sua vontade. –Depravação é...

Sei como é tal sentimento, corrupto, parece feio, mas somos maiores, as regras normais não se aplicam em nós.

Meus pensamentos parecem esvaziar, não consigo compreender o por que não pegar o que deveria ser meu por direito. O reino de Ravi, e Ivy, minha Ivy. Todo o resto de esvai, é anulado como se pensamentos coerentes não fizessem mais parte de mim.

-Não entendo, apenas aqui consigo raciocinar. –Digo sentando em uma rocha. Passo os dedos por meus cabelos raspados, esfrego meus olhos. –Desde o casamento é como se algo tivesse retirado meus pensamentos racionais... eu...

Então levanto. E aponto um dedo para a caverna.

-Você, é claro, estou me deixando influenciar por uma criatura maligna e... –Acuso, mas sou tomado por uma dor aguda em meu peito e cabeça. Me ajoelho tentando controlar a dor. Essa criatura é maligna, devo avisar o supremo, devo avisar Fairy e Ravi.

O som de passos leves. Olho para frente e vejo breu, suas botas são breu, sua roupa é escura como sombras, sua pele é translucida como de uma fantasma, seu rosto é cruel, ele usa um capuz e capa negra, a cor de seus olhos são vazios e assustadores, ele abre um sorriso e o que vejo são pontas afiadas. Jamais vi alguém tão sombrio como ele, mas sei o que ele é. E quando ele se abaixa e toca meu rosto, levantando-me pelo queixo sussurra.

Não, eu não tive todo este trabalho para corrompe-lo, para agora você ter uma crise de consciência. –Seus dedos gelados agarram meu pescoço. Ele me traz para perto de si, virando meu rosto de forma que sua boca fique em meu ouvido. –Você é meu instrumento, e quando souberem o que você fará com aquelas crias de divindades, virão atrás de você, mas será tarde... não se preocupe, você nem vai se importar quando eu terminar, bom, quem sabe um dia... Você vai continuar com nosso plano, meu plano. Terna em breve sucumbira, afinal seu cerne é das trevas e ela irá ajudá-lo. Ira mandar seu irmão para longe, vai convencer Ivy a vir para cá, assim a terá quando quiser, e seu mundo, Gardia, deixará de ter esperança, a luz e as trevas serão guiadas por alguém no meu comando, os semi soberanos vão escolher as trevas, e todo gardiano vai ser o pior que pode ser.

-Não! Não vou permitir. –Falo entre dentes.

Você? Você não é nada! Nada além de uma cria deste mundo... e eu sou a Divindade que acabará com os sentimentos de Gardia. De um, por um.

Tento me desprender, mas meus poderes não funcionam nesta floresta. Minha mente começa a se enfraquecer, de canto de olho o vejo se afastar com a boca repleta de dentes pontiagudos abertos em um grande O. Vejo algo deixar meu corpo, um fio cor de Vinho esfumaçado. E minha mente se esvai, esqueço por que estou aqui, esqueço por que ele está segurando meu pescoço. Mas algo continua dentro de mim, raiva, ciúme, depravação, e um resto de algo que ele não consegue retirar, determinação.

Acordo em um chão seco sem entender o porquê. Uma agonia dolorosa me consome por dentro. Meu punho se fecha, olho para os lados. É claro, vim pedir o auxílio da criatura que mora na caverna. Já sei o que fazer, não preciso mais dele, por hora.

Voltarei para meu reino e começarei a colocar meu plano em pratica. Preciso me comunicar com as trevas de outro lugar para atrair Ravi para longe de Ivy, e assim reconquista-la, se ela não ceder a trarei para cá, lhe farei um bom lar e a visitarei, ela será só minha, e Terna não terá o que falar, afinal seu cerne mal, e logo sucumbirá as trevas, assim como eu.

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