O peso de um erro

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Acordei de ressaca e ainda chapado de maconha da noite de ontem. As lembranças são apenas flashes de alguns momentos. Só sei que alguma piranha sentiu o poder do meu pau. Ri sozinho, coçando a cabeça e tentando levantar da cama. O corpo parecia estar mais pesado que o normal.

Olhando para a minha mão, ainda suja de areia da praia, e por um segundo, nada disso fez sentido para mim. Parece que venho me afundando, ano após ano. De brigas para bebedeiras, depois maconha. Onde vou parar?

Como eu me tornei esse cara que só bebe, se droga e fode com estranhas? Meus pais sempre me deram o que foi possível, mas acho que faltou atenção, carinho, sei lá. Eu cresci me sentindo mais um objeto de decoração da casa do que um filho.

Sou o caçula de três homens. Acho que toda a dedicação de pais acabou no segundo filho, sobrando apenas cansaço e reclamação para mim. Os outros dois já estão formados, têm empregos ótimos, ganham muito dinheiro. O que eu tenho? Nada! Mas também nada aparece, o que eu posso fazer? Até lá, vou vivendo o que posso.

Ouço o barulho de pedra batendo no vidro da janela e já imagino quem veio atrapalhar o meu sono. Toni que tem esse costume. Fingi que não escutei, fechei os olhos e voltei a dormir. Então, o som de outra pedrada na janela. – Que saco!

Levanto e vou ver o que ele quer. Abro a janela e ele está lá em baixo, parece ter vindo do luau agora. A maior cara de bêbado e cheio de areia. Ele acena perguntando se pode subir. Para ele não fazer mais barulho e acordar os meus pais eu deixo.

Eu conheci Antônio, apelidado por Toni, na quarta série. Desde lá, andamos juntos e com a galera para todos os lados, indo a todas as faras e comendo mulher sem pensar no amanhã.

- Parabéns cara! Felicidades! Tudo de... – Ele estava quase gritando.

- Cara cala a boca. – Tapei sua boca. – Você está pior que eu.

- Eu só queria...

- Me parabenizar, eu sei.

- É que eu tenho...

- Vá tomar um banho, depois tomo o meu e então conversamos. Beleza?

- Tudo bem.

Eu pensei que Toni tinha ido para casa primeiro, mas pelo visto, ele saiu de lá agora. Odeio aniversário, pois fico pensando besteiras. Parece que baixa uma nuvem da reflexão, é horrível! Eu preciso é sair com a turma para esquecer essas besteiras.

Depois que Toni terminou o banho, fui tomar o meu. Despertei e senti muita fome. Preciso colocar algo no estômago. Quando saí do banheiro, ainda enrolado na toalha vi Toni sério, me encarando.

- O que foi? Não me diga que você vai vomitar?!

- Não, não é isso. – A voz dele era de choro.

- O que aconteceu?

- Eu tenho uma coisa para contar para você. Somos amigos há anos e sei que você ficará do meu lado.

- Você engravidou uma piranha?

- Não.

- Está usando drogas pesadas? Se for isso, paro de vender maconha para você hoje mesmo. – Dei um passo, ansioso.

- Também não é.

- Fala logo!

- Eu sou gay.

Por um momento parecia que eu havia me deslocado do meu corpo. Como se anos de amizade tivessem sido uma farsa. Como se as pessoas sempre estivessem mentindo e fingindo ser o que não são.

Ira de IposOnde as histórias ganham vida. Descobre agora