Pala-dar

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O barulho da rua fez Akemi voltar a si. Olhou novamente para a pilha de contas em cima da mesa. Começou a folhear as dívidas. Já eram trinta mil reais. Akemi não conseguia entender como era possível aquilo estar acontecendo: Tivera um passado acadêmico brilhante, fora uma gerente promissora naquela empresa. Dedicou sua vida à engenharia. E agora, era só mais uma engordando as estatísticas de desempregados e endividados. Em cada porta que batia, a resposta era sempre não. Cada treinamento que fazia, falhava. Nunca atingia o suficiente para o mercado, mesmo tendo dedicado mais da metade de sua vida para ser bem mais do que o suficiente. Tantas batalhas, nenhuma conquista. Tudo o que tinha na vida era o sabor amargo da derrota. Em um impulso, correu para a janela. Olhou para os dez andares abaixo e sentiu o sabor da morte tomar conta de sua alma. Não queria morrer, mas era muito convidativo deixar os problemas aqui em cima e pular para a liberdade. "E, afinal, por que estou na cobertura, se sou mais uma, como tantos desesperados lá embaixo?". O pensamento lhe encorajara a completar seu ato. Subiu na cadeira. Segurou na armação da janela e colocou um pé no limite de sua vida. Quando tomou impulso para continuar, ouviu o barulho da campainha. Desceu da cadeira e correu até a porta depressa, grata pela presença repentina que impediu sua morte.

- Adivinha quem é o novo gerente da Access?! – Foi assim que Roberto a cumprimentou. Akemi percebeu logo que o amigo só viera se exibir. Ele parecia imune aos seus olhos inchados e só falava de si mesmo. Há pouco, Akemi escapara da morte, mas já sentia vontade de morrer novamente. Ter que aturar as vitórias alheias enquanto enfrentava sua decadência era o pior sabor que a vida lhe dera. Roberto percebeu que sua empolgação não era correspondida e disse:

- Akemi, você tem que lutar...

- Está dizendo que é culpa minha?

- Você não tem culpa de ter sido demitida, mas tem culpa por chegar a esse ponto. Você tem que dar o melhor de si e correr atrás do que quer.

Roberto continuou o discurso, mas Akemi não conseguiu ouvir mais nenhuma palavra. Como poderia ser a culpada, se havia se dedicado tanto? Entrou na faculdade aos dezesseis, terminou a pós-graduação aos vinte e quatro. Com todos os cursos, todas as qualificações que possuía, como poderia fazer ainda mais? E se falhasse novamente depois que fizesse? Tomou coragem e interrompeu o amigo:

-Eu não aguento mais isso. Vou me desfazer de tudo. Quero sair daqui. E irei, seja pela porta, ou pela janela. Já estou morta mesmo, estou decadente, tanto faz cair pela janela, ou descer pelo elevador.

Roberto sugeriu empréstimos para que conseguisse pagar as dívidas sem diminuir seu padrão de vida. Sugeriu que investisse em novos cursos, que fizesse entrevistas em empresas, sugeriu até mesmo que apostasse na loteria. Ao final da conversa, Akemi estava mais calma.

No dia seguinte, Akemi acordou disposta a seguir os conselhos do amigo. Apesar dos efeitos colaterais da tristeza, conseguia sentir o leve sabor da esperança novamente. Seu primeiro destino foi o banco, onde recebeu o primeiro "não" ao solicitar um empréstimo. Sem o dinheiro, não poderia investir em um novo curso. E todas as empresas que visitou "não estavam contratando no momento". Antes do fim do dia, as pequenas esperanças que tivera se esgotaram. Ironicamente, a sua falta de sorte fazia com que a sua única esperança fosse a sorte: Apostar na loteria.

Rumou à casa lotérica mais próxima, mas não havia lugar para estacionar. Continuou a vagar pelos quarteirões em busca de uma vaga, sem sucesso. Quando se deu conta, o trânsito caótico lhe carregara para muitos quilômetros além de seu destino. Mas não estava perdida. Sem querer, chegou ao bairro onde crescera. Que delícia era rever e reviver tudo aquilo! Sentir novamente a doçura da vida através dos olhos, da memória e do coração. As paredes antigas daquelas casas tinham tanto dela, muito mais do que ela mesma possuía. De repente, sentiu-se viva, de uma forma que não sentia há anos. Decidiu prolongar essa sensação: Partiu em direção ao mercadinho do vovô. Ele era um homem sábio, com certeza poderia ajudá-la.

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