Quatro

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"Estou sendo derrubado
Estou sendo pressionado
Eu tenho apanhado todos os dias
Minha vida está acabando
Mas as coisas estão mudando
Eu não vou sentar e chorar novamente."

The Dirty Jobs – The Who

Baltimore, Dez dias antes...


A morte nos revela o quão insignificantes somos, pequenos seres arrogantes. No espaço imprevisível e intangível de tempo a morte ri de nossa estupidez, esperando pacientemente para saborear nossa alma.

E no fim percebemos que tudo não passava de uma ilusão. Que a vida é uma ilusão.

E no fim dessa estrada, na última curva, tão insólita quanto nossa noção do que é real, nos resta o salto, no abismo escuro e calmo da morte, para o qual somos empurrados desde o nascimento. Uma linha reta de tempo, na qual não podemos retornar. Uma queda livre sem fim, a eternidade em suspensão.

Essa é a verdade. A verdade também é uma ilusão de ótica. No momento da morte, a primeira coisa a morrer é a mentira. A alma está nua de vícios, e o tempo para. O relógio chega à hora final. A crença se torna apenas uma perspectiva cega.

***

Olhava para o caixão, com aquela sensação mórbida de que era apenas um pesadelo. E que Allice acordaria, sairia de sua câmara de morte com cheiro mórbido e úmido de flores e material de limpeza. E chamaria meu nome.

Tentava aquietar os sentidos atordoados pela bebida, uma ânsia angustiada se revolvia em meu peito, a vertigem, a visão trêmula, e aquele vazio, a sombra etéreo da morte a espreita.

Allice sempre fora uma espectadora, enquanto Julia e eu sofríamos de maneira egoísta nossas pequenas mortes.

Enquanto eu olhava todas aquelas pessoas em volta do caixão, o padre destrinchava palavras que não traziam conforto algum, eu percebia que eu me tornara um espectador. Como Allice. Eu assistia a minha vida desmoronar.

***

Tento lembrar-me de cada momento com Allice. E cavo o mais fundo em minha memória o que eu dissera para ela, na última vez que conversamos. Há seis meses, o que não foi dito?

Jamais perdoei Julia por me afastar de Allice. Por incluir minha filha em seu show de horrores. Ela queria punir-me. Era o que de fato ela queria. O que sempre fazia. Durante todos aqueles anos. Culpar-me por tudo, para de alguma forma tornar suportável sua vida miserável. E paguei o preço. No fim das contas nós pagamos um preço alto demais, e agora sepultávamos as consequências.

***

Julia, parecia ainda menor do que eu de fato lembrava, mantendo a atenção sobre Allice. Minhas lembranças de quando nos casamos há doze anos eram como fotografias recortadas, e o tempo contraíra-se ali: nossa vida havia era uma montanha-russa, e nos últimos anos era uma doentia roleta russa.

Tornamo-nos estranhos quando a névoa torporosa do que era amor se desfez. Aquele brilho fosco que me cegou, quando éramos jovens, havia se dissipado e as máscaras caíram, todas, uma a uma, revelando-nos como de fato éramos.

As lembranças foram ficando pelo caminho. Sempre pesam, em algum momento, na bagagem. E o muro invisível que sempre surgia entre nós sazonalmente, após discussões acaloradas, nos períodos frios de silêncio sepulcral que ela lançava sobre mim, estava lá. Começara a ser construído muitos anos antes de Allice nascer. Começou a construir seu alicerce, tijolo por tijolo, naquele dia ensolarado oito anos antes. Com seu alicerce mais firme que nunca, camadas espessas de rancor, raiva e mágoa. Sua presença era subjetiva, não era um corpo próximo, mas uma alma distante, que não importava o que fizesse, jamais conseguiria alcançá-la. Em nossa última tentativa naufragada de manter aquele casamento, ela já estava longe demais para que pudesse alcançar. Como Josh... Como Allice...

O olhar corrosivo de Julia, em meio àquela névoa que surgia lentamente com o passar dos anos, como um câncer lentamente se espalhando. Estava ali, algo vivo, apesar daquela palidez morta de seus olhos.

Aquele mesmo olhar que ela me lançou, quando saí da água. Há oito anos. Quando saí da água sem Josh em meus braços. Aquele olhar insólito e frio. Acusador, enraivecido. Sentia-me oco, novamente diante da vastidão da morte, como se olhasse para aquele lago novamente, com suas águas escuras e frias, inundando agora tudo em volta do caixão. Calmo e mortal, um silêncio aterrador sob a superfície lisa e escura.

"Estava tão perto. Por Deus! Como não percebi que Josh estava se afastando? Ia em direção ao píer. Corria, brincava a madeira acinzentada, envelhecida rangendo. E então...".

Não o ouvi gritar. Poderia jurar. Mas do que adiantaria? A culpa era corrosiva, e estava corroendo até a última camada de humanidade que havia em mim.

E agora, deixei Allice morrer. Afastei-me, como um covarde! Então o vazio se instaurou novamente. O cheiro estéril. O gosto amargo e alcalino.

E então surgia novamente aquele sonho, mas não era Josh a quem tentava salvar, cavando o abismo, naquelas águas, enquanto afundava. Havia outro corpo, e lá estava Allice, seu corpo afundando rapidamente, braços se debatendo buscando algo para agarrar-se, o ar sendo consumido imediatamente, a água negra sugando seu corpo. E não importava o quanto nadasse, parecia não sair do lugar, ela ficava cada segundo mais distante...

***


O AbismoLeia esta história GRATUITAMENTE!