Oito

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"Quando a verdade se revela mentira

E todos os contentamentos dentro de você morrem

Você não deseja ter alguém para amar?"

Somebody to Love – Jefferson Airplane


"Quem é Julia Collins? Verdadeiramente? Quais segredos obscuros ela esconde sob esses lindos olhos azuis?"

A questão era que queria cavar, mais e mais, abrir a ferida mais e mais, era isso que importava.

Estou sobre ela, movendo-me agora com mais força, não quero machucá-la, quero extrair a verdade a força. O silêncio daquele quarto é insuportável, quero apenas as palavras vomitadas de sua garganta, sobre uma bandeja, mas mantenho os pensamentos a uma distância segura, não sou tão burro, não quero dizer que já sei de tudo. Mas tudo o quê, não é? Continuo sendo prudente.

Há vários percalços, estamos cercados de armadilhas, de autoproteção, sei que é o principal motivo de nossa guerra fria e pessoal, não estampar jornais.

Ela pensa que consegue ainda me manter na escuridão, atrás da cortina enquanto ela encena seu espetáculo de mulher exemplar, que sempre foi amorosa, boa mãe, vivendo um inferno com o marido absorto, tangente e agressivo.

Estou agora inflamado, enraivecido. Em que parte de nosso caminho de autodestruição, a deusa do sexo se tornou uma megera que se ofende pelo simples fato de ter a mim como marido e para ela, é melhor que eu saia de cena, a destruir seus sonhos febris? De pôr obstáculos em sua vida miserável, que almejou há oito anos.

Sem perceber, retorno de meus devaneios com as mãos sobre seu pescoço, e aperto os dedos encontrando a extensão de centímetros de músculos e veias.

Posso sentir o latejar de sua pulsação sob meus dedos suados que deslizam sua pele úmida.

Os olhos de Julia têm um brilho enegrecido difuso sob a luz do abajur. Há uma sombra de sorriso em seu rosto, que se desfaz rapidamente, mas que me inflama ainda mais. Meu corpo está eletrificado.

Fatalmente, amor e ódio são da mesma espécie. De igual poder de devoção. Para amar ou odiar é preciso dedicar-se a alguém. E eu havia dedicado doze anos à Julia.

Pressiono um pouco mais. Vejo a expressão de agonia surgindo em seu rosto, enquanto o ar é apenas uma necessidade doentia e pulsante. Mas ela não faz nenhuma menção de lutar, suas mãos agarravam loucamente os lençóis. Sem perceber meus dedos afrouxaram-se em volta de seu pescoço. Estou ainda mais enraivecido. Ela aperta minhas nádegas com força, cravando suas unhas na carne, ela me puxa para dentro de si.

Finjo que gozo. Viro-me para o lado, não quero ver aqueles olhos. Ela fica imóvel. Nada além do resfolegar úmido e do silêncio subterrâneo entre nós. Beijo-a no rosto e vou ao banheiro.

Eu sabia de seu caso, com um advogado engomadinho de Wall Street. Cem mil por ano, fora o bônus de natal de mais setenta mil? Era isso que ela queria. Sugar-me até a morte financeira e pular para outro, como um gafanhoto após comer a cabeça do parceiro fodido, literalmente. Mas a maldita pergunta do que ela estava querendo com aquilo. Ainda me era uma incógnita nebulosa.

Estou mais enraivecido, frustrado, não tenho mais controle da situação. Sempre fui racional, sempre me diziam que eu era o mais centrado. Sempre com um passo à frente de tudo. Um plano B. Mas agora estou eu, nutrindo ainda mais magoa severa, embaixo do chuveiro, frustrado comigo e com aquela situação que se arrastava a passos lerdos por oito anos. A vida é uma maldita montanha-russa. Em uma noite você está fodendo com todas as suas chances. Em outra, está fodido.

Ainda com meu camarada em riste, deixo a água fria deslizar sobre meu corpo fervente. Masturbo-me até sentir o sangue correr freneticamente pelo músculo. Penso em qualquer mulher, menos nela. A assistente jovem de Jonas, meu editor, com sua blusa de carmim decotada e insinuante que lhe ajudaria a galgar algumas posições na carreira editorial, mesmo que tenha que sujeitar a usufruir de maneira banal de seus superpoderes femininos.

Naquele momento também vem o rosto juvenil de Mandy, a vizinha de dezoito anos que passeia com o cachorro todas as manhãs, com um collant rente ao corpo perfeito, com aquela pele brilhante e viçosa de jovem. Alguns minutos mais no chuveiro com meus pensamentos. E ela bate à porta. Pede para entrar. Trocamos de posição e ela vem para o nosso confessionário invisível. Que em outras casas do clube seleto da high society de EagleWalk chamam de toalete. E ela irá planejar uma nova maneira de me torturar. De me fazer sentir o pior homem da face da terra. A vida é uma maldita piada não é? E de absurdo mau gosto.

Não a vejo voltar para a cama, e entro em uma nuvem escura e densa, que precede os pesadelos recorrentes. E lá estou eu, olhando para o lago.

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