DEZ: PONTOS ESQUISITOS

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As rotinas de treino se perduraram em formatos tão intensos que chegavam a ser quase abusivos, principalmente para o meu corpo que se recuperava de uma grande porrada ainda de minha última empreitada nas noites. Se eu achava que estava dolorida antes? Agora meu corpo doía em lugares que eu nem sabiam que eram capazes de doer.

Eu tinha três professores: o de defesa pessoal e muay thai era o Estefano, um gay super afetado com problemas de controle de topete, mas apesar de ninguém poder encostar em seu cabelo (o que era meio impossível em uma luta), era um ótimo professor e muito competente; a de boxe e judô era a Antônia, que se olhada duas vezes, você não diria que ela conseguiria te deixar desacordado só com um soco, pois era baixinha e magrinha, mas a força dela era de assustar; e o Marcelo era meu personal trainer, que trabalhava meu condicionamento físico e minha resistência.

Estava tão esgotada que a maior parte do tempo que tinha livre... Eu dormia. E, assim, uma semana inteira se passou sem que eu me movimentasse para conversar com Bianca sobre nossa discussão. Já havíamos passado mais tempo sem nos falar, principalmente na adolescência, porém duas semanas ainda era muita coisa sem poder conversar com ela. Também comecei a prestar atenção no que Lisbela havia me falado, agora que me obrigava a estar presente em outros aposentos da casa que não fossem meu quarto: Bia estava me evitando descaradamente e estava mais magra e mais pálida.

Não sabia como iria fazer para que Bianca voltasse a ceder em minha presença, então, apesar dos olhares ameaçadores de Lisbela, fui empurrando o momento com a barriga até que pudesse ter uma chance melhor.

Fui agraciada pela sorte na sexta-feira em que completei uma semana de treino. Com a instrução de Marcelo, estava me obrigando a ir e voltar dos dois ambientes de treino a pé e, por distração de cansaço, acabei pegando o caminho mais familiar, apesar de mais longo, passando em frente à escola de inglês onde Diego e Bianca davam aula. Não sabia se era horário deles, mas pela criançada na rua, estava em horário de saída. Passei meus olhos pela calçada e identifiquei Diego parado em frente à cafeteria que eu fizera tocaia quando o investigara para ela. Ele pareceu me perceber também e acenou, animado, em minha direção. Arrisquei um sorriso e me aproximei.

- Quanto tempo! - abracei Diego e ele também parecia alegre em me ver. Apesar de estar suada, não pareceu se importar.

- Pois é! - Riu. - Como você tá? Bianca comentou que você andou doente...

- Ah, eu tô melhor - sorri pra ele, esperando que Bianca não tivesse dito demais. - Só estou morta de cansaço!

- Tô vendo - ele brincou, cutucando minha blusa de malhar. - Sem dor, sem ganho, né?

Revirei os olhos para a expressão porque eu a detestava. Funcionava na academia, mas fora dela... De qualquer maneira, levei na brincadeira.

- Estou ficando mais forte pro caso de precisar quebrar sua cara ou você já esqueceu? - zoei com a cara dele, que gargalhou. Bianca saiu da cafeteria com dois cafés e arregalou os olhos ao me ver ali, mas não me abalei. - Inclusive tô fazendo umas lutas. Cuidado comigo, viu?

Diego riu ainda mais alto. Bianca lhe entregou um dos cafés e pareceu meio fora de lugar. Encarei-a e Diego pareceu engolir o riso, sentindo a tensão. Provavelmente sabia de nossa briga, embora não soubesse o motivo.

- Podemos conversar? - Perguntei à Bianca.

Ele não esperou ela ser capaz de responder em seu choque. Beijou de leve sua boca.

- Te ligo mais tarde, está bem?

Se afastou antes que Bianca pudesse proferir qualquer palavra e eu seria grata ao Diego por isso. Ou ele apenas estava com medo de levar uma surra depois dos meus novos dotes de ataque. Mas eu seria eternamente grata a Diego por aquele pequeno gesto de sensibilidade.

[HIATUS] A Caçadora de CanalhasLeia esta história GRATUITAMENTE!