Capítulo XVIII

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Todos corriam de um lado a outro, procurando aperfeiçoar cada vez mais o baile que seria dado em homenagem ao misterioso Conde das Cicatrizes. Se meus pais não tinham criatividade para escolher nomes, o conde também não.

Apesar de meu pequeno incidente com os guardas de meu pai, no dia anterior, Domênico parecia estar demasiado ocupado para lidar com meus "atos heróicos", como ele costumava dizer. Porém, tinha a plena certeza de que, antes do que pudesse imaginar, as consequências chegariam, como sempre chegavam.

Já estava pronta. Analisava meu reflexo no espelho. O vestido ficou muito bonito, entretanto, a ausência de um sorriso em meu rosto era perturbadora. Eu forçava sorrisos e formulava cumprimentos para todas as pessoas que teria de encarar no baile. Mas só Deus sabia o que havia dentro de mim.
A saudade consumia meu ser, junto da culpa e do medo de nunca mais voltar a amar. Era, relativamente impossível. E, mesmo que me apaixonasse por alguém, por que ele iria querer casar comigo? Os murmurios estavam na boca do povo e dos nobres, "a princesa desonrada", "uma nobre sem honra", uma infinidade de coisas que tinha vergonha de repitir e que sentia dor ao ouvir.

Ouvi batidas na porta. Será que era meu pai? Murmurei um entre. Fiquei aliviada quando vi o reflexo de meu tio pelo espelho.

— Está estonteante, Luna. — ele sorriu.

— Obrigada. O senhor também está muito bem. — virei-me para encará-lo.

— Porém, se me permite, há algo que pode aprimorá-la.

Meu tio abriu uma pequena caixa, que não tinha notado em suas mãos. A mesma revelava um belo colar, com um diamante.

— É lindo, tio.

— Acho que combinará muito mais com o seu vestido do que este que está usando. — referiu-se ao colar que Alec me deu.

— É um presente? — indaguei perplexa. — Onde conseguiu esse colar?

— Sim, é um presente. Foi sua avó que me deu. Ela disse para eu entregar a mulher da minha vida. No entanto, eu nunca me casei. Acho que ela ficaria feliz se você ficasse com ele.

— Obrigada.

Cuidadosa, tirei o colar que Alec me deu e guardei-o em uma das minhas gavetas. Tio Edmundo ajudou-me a colocar o colar, que combinou perfeitamente, por sinal.

— Ansiosa para a chegada do conde?

— Nem um pouco. — balancei a cabeça. — Na minha perspectiva, o reino não precisa fazer uma aliança com as grandes potências. O reino precisa renovar sua aliança com Deus. Lembrar-se do seu verdadeiro Rei.

— Sua fé é tão linda quanto a de sua avó.

— Por que meu pai decretou que toda Valência deveria deixar de acreditar no Criador? Se minha avó era cristã, papai conheceu a Palavra, assim como o senhor. O que aconteceu?

— Luna... são questões complicadas e...

A resposta de titio foi interrompida pelo barulho da porta sendo aberta de forma brusca. Meu pai olhava-me furioso. Com certeza, ele havia descoberto sobre minha intromissão em suas ordens. Sinceramente, eu não me importava. Eu iria continuar fazendo o que estava ao meu alcance para pregar o Evangelho e impedir que cristãos fossem assassinados de forma cruel e desumana.

— Edmundo, saia! — ordenou meu pai.

— Meu irmão, seja prudente. — titio pôs a mão sobre seu ombro. — Não faça nada que possa levá-lo ao arrependimento. — disse antes de deixar meus aposentos.

— Fale, pai. — encarei-o com seriedade.

— Meus guardas entregaram-me seu recado.

Sabia que ele estava, como de costume, segurando-se para não explodir.

Coração ValenteOnde as histórias ganham vida. Descobre agora