Microconto: Natal sem luz

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É véspera de Natal, final de tarde em Nova York, eu adormeço junto com Aninha no sofá, sono puro de uma menina de três anos. Horas depois, sou acordado com uma ligação insistente. Ao atender, sem conseguir identificar quem era, escuto apenas uma voz masculina desesperada.

 – Liga a TV AGORA! – Como se contaminado pelo desespero, ligo rapidamente a televisão e escuto o noticiário.

 "A rebelião começou há poucas horas no Presídio, equipes de segurança trabalham no local, também permanecem policiais lá dentro. Um detento chamado por "Pílula"comanda a rebelião. E a segurança local acaba de nos informar que há jornalistas na ala onde ocorre um incêndio; os dois jornalistas do The City'snewspaper são: a jornalista Rose Lee e James Walker, repórter fotográfico." 

Não consigo escutar mais nada; mesmo assim, mantenho a televisão ligada enquanto, ainda em choque, pego novamente o celular e encontro ali inúmeras mensagens da Rose. 

"Entrevistando Pílula." 

"Rebelião." 

"Fale para Ana que a amo muito." 

Começo a entrar em desespero; não sei o que fazer, respondo as mensagens e não tenho retorno, ligo para redação e ninguém informa nada. Apenas berro com um dos atendentes:

 – POR QUAL MOTIVO ESCALARAM A ROSE PARA ENTREVISTAR O MAL FEITOR DO PÍLULA? ELA É MÃE, TEM MARIDO – grito sem ter mais noção do que falo, do que faço. 

                                                                                    ***

Estou dentro de um prédio lindo, três andares, corredores enormes, escadas largas. Seria uma obra de arte, se não estivesse de fato dentro de um presídio.James foi meu escolhido, por ser estilo lutador de MMA, o que me deixa segura dentro do ambiente em que me submerjo. E a pessoa a quem irei entrevistar acaba de entrar na minúscula sala, onde já me encontro. 

Dois policiais se mantêm posicionados do lado de fora, fecham a cela, eu e James estamos diante do "Pílula", um jovem senhor de 45 anos, aparentemente apresentável ao ponto de enganar corações cegos. 

– Você é uma jovem corajosa. O que você quer saber de mim? 

- O que é Natal para você? – Tento ser fria diante do monstro que entrevisto. 

– Como você acha que é? Só porque executei quinze pessoas, sendo uma especial, para mim ou só porque cortei a cabeça de outra por me dever um dólar, não quer dizer que eu seja uma pessoa tão má, não é mesmo? Tenho Deus no coração, mas também tenho prazer em ver sangue, sofrimento. Por isso repito. Você é muito corajosa. 

 As palavras dele gelam minha alma, posso ser fria ao expressar sentimento, mas maldade é inaceitável e me sinto aterrorizada com a frieza de quem o faz. Penso na minha filha, no meu futuro ex-marido, pois saímos brigados por eu estar no meu quinto plantão. Afinal, já são cinco anos de casados em nenhum Natal tivemos a oportunidade de passar juntos. 

Será que eu havia destruído meu casamento por ganância profissional? Não tenho tempo para formular minhas respostas, muito menos uma nova pergunta. A sirene toca, escuto gritaria, empurra-empurra, inclusive dos policiais. Olho para James, e Pílula no impulso de escapar, me segura e aponta uma arma. Ele é poderoso, com certeza recebeu ajuda para estar armado. E naquele breve instante nos fez ajoelhar diante dele... 

Ajoelhamos... 

Minhas vistas escurecem.  

***

(Microconto: Ficou em terceiro lugar no Prêmio Castro Alves, em Teixeira de Freitas - Bahia)

Autora: Patrícia Brito

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