QUINZE: DEREK

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Quando a luz do sol que atravessa a janela encontra o meu rosto, acabo quase me jogando no chão em uma tentativa frustrada de me levantar. 

Minha cabeça dói, meus lábios doem e minhas costas queimam com os arranhões. 
Reconheço rapidamente o quarto em que estou, e não é o meu. É do Nicholas. Grande, espaçoso. Quando finalmente recobro parte do meu sentido, lembro o que aconteceu na noite passada, na festa, no carro, no chuveiro, eu e o Nicholas. 

— Puta merda. — exclamo, passando meus cabelos loiros e bagunçados para trás. Não estou usando minhas roupas, é fácil saber disso já que visto uma camisa de mangas normais com o símbolo do bazinga e um shorts moletom na cor cinza, pelo visto, a cueca também não é minha.
Com uma passada rápida no banheiro, lavo meu rosto e uso o enxaguante bucal. No espelho procuro por uma imagem boa, mas tudo o que vejo é uma pessoa morta tanto de sono quanto de cansaço, meus lábios estão com uma roda roxa no canto direito, nada gritante.

Quando desço as escadas não encontro o tio Richard em seus aposentos reais, em sua poltrona na sala com um jornal nas mãos. É assim que ele fica na maioria das vezes. Em seu lugar encontro o Nicholas esparramado, também com cara de morto. 

— Bom dia! — ele diz enquanto desço as escadas, tem um sorriso discreto no rosto, me pergunto qual é o motivo dele. 

— Bom dia. — respondo após passar pelo último degrau. Caminho pela sala até chegar no sofá onde também me jogo esparramado. Era ótimo ter esse tipo de intimidade, eu era de casa. — Onde está o tio Richard? a tia Zalia? — pergunto após bocejar. 

— Foram ao supermercado, de lá o meu pai vai para o escritório e a minha mãe no médico, está se sentindo enjoada. — ele responde, jogando o controle na minha direção, ou melhor, na minha cabeça. 

— AI! — reclamo enquanto Nicholas ri, mostrando meu dedo do meio logo em seguida.

— Está com fome? Estava esperando você acordar para tomarmos café juntos. — Nicholas pergunta e após eu concordar com a cabeça me chama para a cozinha.

Duas tigelas de cereal com leite é o suficiente para nós dois. Nicholas se senta ao meu lado na banqueta, está sem camisa, vestindo apenas um calção de tecido fino com estampas do Batman. 

— Nicholas? — falo relutante, já sabendo que entraria em um assunto ruim. — Precisamos conversar sobre ontem à noite, não acha? 

O cereal parece travar em sua garganta, isso porque seu rosto fica completamente vermelho e ele força uma tosse logo depois. 

— Ontem à noite? Ah, a festa foi.. honestamente.. um lixo. 

— Você sabe o que eu quero dizer, o que aconteceu entre nós dois durante o banho. — retruco, deixando minha colher de lado para olha-lo nos olhos. 

— Não tem nada para conversar, Derek. A gente estava bêbado, o efeito da maconha estava forte, eu estava fora de mim por sei lá, vários motivos e a gente acabou tomando banho juntos, rolou uns beijos, umas passadas de mão e somente isso, nada mais do que isso. — Nicholas falha na voz, constrangido. 

— Nicholas, a gente se beijou. — as vezes manter a paciência é algo difícil. 

— A gente já não tinha se beijado antes? 

— Não daquela forma. 

— Que forma, Derek? 

— Com vontade, com desejo, com gosto. Com.. com pegada, apertões.. com um clima excitante. — disparo, envergonhado das minhas próprias palavras. — Isso não é nenhum pouco aceitável. Somos amigos, estamos em um desafio para fingirmos um namoro, não torna-lo real. — tenho que pensar muito bem em que palavras usar, ainda mais quando se trata do Nicholas. — Olha, eu sou o seu melhor amigo há anos, você sabe que nossa relação vai além da amizade, sabe que eu faria de tudo por você, sabe que nossa relação é similar a de irmãos. — falho em minha voz e percebo o quão nervoso ele está. — Eu sempre percebi seus olhares para mim, um olhar diferente, sempre ouvi e suportei piadas dos outros caras dizendo que você era bi e que tinha uma queda por mim, tudo isso porque eu realmente gosto de você, você é o meu melhor amigo, a única pessoa que sabe exatamente tudo da minha vida. — suspiro. — Mas se você acha que podemos ser mais do que isso ou se você acha que pode se aproveitar de mim em situações como à que eu estava ontem, sinto muito, mas não pode, não dá. Eu respeito a sua preferência, respeito você, mas não existe nenhuma possibilidade de nós dois ficarmos juntos, o que aconteceu ontem foi pelo acaso, eu sou hétero.

Queria poder apagar todas as palavras e não enviar, mas infelizmente isso não é uma mensagem e infelizmente o Nicholas entendeu tudo o que eu quis dizer. Do jeito dele mas entendeu.

— Acredito que nesse horário seu pai já tenha ido trabalhar, você já pode ir. — sua voz é cortante, baixa. Ele recolhe sua tigela de cereal pela metade e se levanta da banqueta, indo em direção à pia. Em nenhum momento olha para mim, e eu sei o quanto isso é ruim. 

— Olha, Nich.. — tento falar mas ele me corta. 

— Apenas saí, Derek. Minha mãe colocou suas roupas para lavar, eu te devolvo amanhã no colégio. 

— Nicholas.. 

— Eu já mandei você sair, vou precisar te expulsar à força? 

— Não. — respondo, tendo um frio corroendo meu corpo por dentro, destroçando meu coração e fazendo meu estômago se embolar. — Deixa que eu saio. 

Depois do Ritual (Romance Gay)Leia esta história GRATUITAMENTE!