A viagem

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Ana tem um segredo. Ela sabe de algo que ninguém mais tem conhecimento. Por mais que algumas pessoas pensem sobre o assunto, Ana tem certeza. Ela conhece o Vale dos Sonhos.

Ana, do alto dos seus doze anos, enfrenta coisas que muitos adultos não conseguem lidar.

Era mais um dia de escola, Ana abriu os olhos e resmungou incomodada, odiava fazer a viagem de volta. Já perguntara inúmeras vezes ao prefeito do Vale dos Sonhos se não poderia ficar para sempre, ao que ele respondera que o custo era alto demais e que ele não deixaria que ela pagasse. Portanto, levantou-se se arrastando e foi tomar um banho para tentar se animar. Já de uniforme, comeu qualquer coisa enquanto via os pais em mais uma discussão e saiu de casa.

O ônibus estava muito cheio, as pessoas se empurravam e se esmagavam, mas finalmente seu ponto chegara. Não sabia se ficava feliz ou triste com isso, afinal, as horas seguintes eram as mais pesadas de seu dia. Desceu do ônibus com a cabeça baixa, já ouvindo as risadinhas e apelidos conhecidos vindos dos outros estudantes. Sentiu o rosto queimar e apertou o passo indo direto para a sala de aula. Sabia que ainda faltava mais de meia hora para a aula começar, mas queria estar o mais sozinha possível para fazer uma pequena viagem.

Chegando na sala, deitou a cabeça sobre os braços na carteiro e sorriu ao voltar para o seu lugar preferido. Quando abriu os olhos, estava andando pelas ruas feitas de marshmallow ao lado do Rio de Chocolate, Ana começou a andar em direção à sorveteria para encontrar seus amigos de sempre. O Senhor Elefante, como sempre com seu avental cor de rosa e oclinhos redondos, sorriu por trás das sombras ao vê-la se aproximar.

– Ana! Minha cliente favorita! – exclamou ele – Achei que só a veria de novo daqui algumas horas.

– Decidi fazer uma pequena viagem para alegrar minha manhã.

O Doutor Leão, um grande sábio, usava um terno azul listrado e uma gravata borboleta, sua juba era penteada para trás e trazia no rosto um ar de preocupação.

– Jovem Ana, sabe o quanto é perigoso vir durante suas horas diárias na escola! – sussurrou o felino – Pode receber uma advertência ou mesmo uma suspensão! – concluiu com medo na voz.

– Ah, deixe a menina! – exclamou a Senhora Urso, muito simpática em seu vestido florido, tricotando enquanto comia lentamente um sorvete de chocolate – Ela só quer um pouco de sorvete.

– O que vai querer, então, Ana? – perguntou o Senhor Elefante.

– Um grande sorvete de nuvens! – pediu ela com os olhos brilhantes ao que o Senhor Elefante apenas sorriu e começou a trabalhar. Colocou os sabores secretos de sorvete furta-cor, as caldas que brilhavam como estrelas e jujubas e biscoitos para acompanhar. Ana sorriu ainda mais e quando ia dar a primeira colherada algo a puxou e não mais via seus amigos ou a grande taça de sorvete.

– Olha ela dormindo de novo! – zombou um garoto que a cutucara – Não faz nada além disso?

Ana sentiu as bochechas queimarem e os olhos arderem pelas lágrimas que se recusava a derramar. Nunca contara a ninguém sobre o Vale dos Sonhos, que se revelava diferente dependendo da pessoa que o visitava. Era um lugar especial demais para ela e sabia que ninguém iria acreditar mesmo que contasse. Os pais já cogitavam levá-la a um psicólogo, se soubessem de suas viagens aí sim é que surtariam. Então, Ana apenas ignorou novamente as provocações, se escondendo em sua bolha, enquanto a professora entrava em sala e começava a falar. Depois de copiar toda a lição, sempre fora muito estudiosa, Ana foi até as últimas folhas do caderno e continuou o hábito de fazer rascunhos dos desenhos de seus amigos. Com um sorriso a brincar em seus lábios, não notou o aluno novo que observava o seu trabalho.

– Você desenha bem... – sussurrou ele.

Ana levou alguns segundos para saber que o menino falava com ela e, surpresa, agradeceu com a voz ainda mais baixa.

– Você que inventou? – continuou ele arriscando uma olhada mais profunda nos desenhos.

– Eles não são inv... – começou Ana e percebendo o que quase revelara, se corrigiu – não os inventei, são de uma história.

– É uma história que eu gostaria de ouvir.

O menino voltou o olhar para o quadro antes que Ana pudesse responder e logo a professora começou a correção dos exercícios. Ana não pensou novamente no garoto até a hora do recreio, em que se afastou como normalmente fazia, mas percebeu que pela primeira vez era seguida. Sentada em seu canto habitual, observou enquanto o menino se aproximava com o pacote de salgadinhos e uma garrafa de suco. Ele se sentou ao seu lado e ofereceu os biscoitos, ao que ela aceitou e sorriu. Entretanto, a dúvida logo lhe tirou o bom humor e perguntou:

– O que você quer de mim?

– Eu? – Ele parecia confuso – Ser seu amigo, acho.

– Por que você iria querer ser meu amigo? – Ela virou o rosto para longe e diminuiu o tom de voz – Sou estranha demais para isso...

Ele sorriu e disse:

– As pessoas assim são as mais legais! Meu nome é João e o seu?

– Sou Ana – respondeu sorrindo.

Eles passaram o recreio todo conversando sobre seus desenhos favoritos e alguns livros e quadrinhos que gostavam. Quando as aulas acabaram, descobriram que pegavam o mesmo ônibus e que moravam apenas algumas ruas longe um do outro. Chegando em casa, pela primeira vez há muito tempo, Ana estava sorrindo por outra razão além de suas viagens. Seus pais ainda estavam trabalhando, então, foi até seu quarto fazer a lição de casa e ler um pouco até a hora do jantar.

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