[01] Comer pedrinhas pode ser prejudicial à saúde

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Claro que eu amava meu cachorro, mas ele era completamente louco.

Django não passava de um chiuaua com apenas três meses de idade e estava naquela fase de comer tudo que havia de mais emporcalhado pelo caminho.

Ou ao menos eu esperava que fosse só uma fase. Mas como eu iria saber?

Django era meu primeiro cachorro e aqueles eram meus primeiros dias com ele. Eu me esforçava para entendê-lo da melhor maneira possível, mas meu conhecimento se limitava a ficar em desespero com a quantidade de porcaria que ele comia e fazia enquanto não estava dormindo.

Aquilo me deixava exausta.

Imagina só, Olivia Liveretti exausta pelos cantos. Essa era uma informação que jamais poderia vazar. Por isso sempre que saia, mesmo que fosse para levar Django na rua, escondia minhas olheiras com um montão de maquiagem.

Mas fazia questão de dar às camadas de reboco um aspecto bem suave.

Naquela tarde não foi diferente, eu checava meu reflexo na câmera frontal do meu celular com uma mão e segurava a guia de Django com a outra quando ele parou num determinado ponto do caminho para fazer suas gracinhas.

A gracinha do momento era comer pedrinhas.

Se eu estivesse com o humor melhor, teria rido da situação.

Mas não foi isso que eu fiz, o que eu fiz foi:

– Seu filhote de araque! Só vai aprender que nem tudo é comestível quando algo te fizer mal. Aí você vai ver o que é bom pra tosse! E então eu quero ver! Vai correr pro meu lado chorando? Eu vou rir da sua cara há-há-há, bem assim! – reclamei em alto e bom som.

O problema era que alguém além de Django escutou.

E teve a audácia de me confrontar.

– Você não acha que tá com um rancor muito grande para direcionar a uma criatura tão pequena?

Eu quis argumentar que o rancor não era direcionado a Django e sim a vida. Naquela época eu não acreditava em diálogo com cães. Eu só queria uma boa desculpa para falar sozinha.

E gostaria de preservar meu direito de ter um diálogo solitário, por isso perguntei:

– Cara, quem é você? – coroei a pergunta com as duas mãos na cintura, coisa que eu tinha plena consciência de que era um gesto pra lá de petulante.

Usava de tempos em tempos quando queria intimidar alguém inconveniente.

– Jonas Caruso, ou simplesmente alguém preocupado com o bem-estar dos animais – ele se apresentou.

Minhas mãos se agarraram nas gordurinhas do meu quadril com força total. Era o que eu costumava fazer pra controlar minha raiva.

– Humph – saiu involuntariamente, mais do meu nariz do que da minha boca.

O que aquele cara sabia sobre o bem-estar do meu animal? Por um acaso ele tinha alguma noção do quanto eu tinha gastado com veterinário nas últimas três semanas? Ou o tormento que tinha sido educar Django para fazer cocô só na rua?

Não, eu apostava minha conta do Instagram com 100mil seguidores que ele não fazia ideia.

Então por que ele estava cruzando os braços sobre o peito estufado naquela pose heróica?

E por que diabos Django estava forçando a guia na direção dele? Estava validando aquele tipo de atitude? Onde foi parar aquele papo de fidelidade canina?! Eu fiquei estupefata. Tanto que nem percebi quando ele se soltou da guia que anteriormente se encontrava na minha mão.

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