UM

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A porta é aberta abruptamente. O vento ruge por trás de meu irmão, que chacoalha a cabeça como um cachorro para se livrar do excesso de água nos pelos. Pingos de chuva despencam das pontas de seu cabelo, seus fios morenos mais escuros agora que molhados. Ele bate a porta sem muito cuidado, vindo em minha direção com passadas largas. Uma crosta barrenta envolve suas botas, deixando uma trilha de sujeira por onde ele pisa.

— Não serei eu quem limparei isso — alerto de bom humor, encarando o chão encardido.

Relutante, Ryne reage a minha provocação com um sorriso torto. Mas vejo em seus olhos que seu foco não está em mim. Ele vira a cabeça em direção a janela mais próxima, seu maxilar tensionado. Não consigo evitar de acompanhar seu olhar.

Gotas gordas de chuva escorrem pelo vidro, embaçando, mas não cobrindo totalmente, a vista para o lado de fora. As folhas de nosso pequeno pinheiro ameaçam serem arrancadas pelo vento, a um triz de se desprenderem dos galhos. Antes que eu possa perguntar o que meu irmão observa, ele gira o calcanhar e se agacha, ajoelhando-se ao meu lado.

— Há quanto tempo está aqui? — seu rosto está sereno, inexpressivo.

— Quatro horas, talvez.

Enquanto aguardo uma resposta, fito a lareira cuspidora de faíscas douradas. Chamas reluzentes dançam em meio ao carvão superaquecido. O fogo funciona como um cobertor contra o frio de inverno, embrulhando meus ossos num abraço caloroso, mas não suficiente. Ainda tremo, cada centímetro de meu corpo parecendo sentir a tempestade que uiva alto do lado de fora.

Com cuidado, deslizo a miçanga preta seguinte pelo fino fio de nylon. Uma série de outras pulseiras, misturadas com colares, tornozeleiras, braceletes e anéis, repousa em minha caixa de madeira, um presente de minha falecida mãe. Linhas grossas e irregulares entalhadas à mão fazem pouco para melhorar o visual simples demais do objeto sem cor. Nada além de riscos rasos, finos e bruscos feitos por uma criança descontente com a escassa beleza daquilo que ganhara. Hoje em dia, porém, o objeto não poderia ser de maior valor para mim. Ele é uma relíquia, uma fonte de memórias.

Ryne observa meu trabalho das últimas horas, pegando delicadamente um de meus artesanatos. Seus dedos o acariciam com uma delicadeza estranha.

— Desembucha logo — digo a ele, impaciente diante de suas atitudes incomuns.

Hesitante, meu irmão mais novo leva uma mão até o bolso de sua calça, retirando de lá um folheto encharcado. As palavras nele escritas parecem milagrosamente intocadas pela água. Sem dúvida a tinta fora enfeitiçada por algum veroniano.

Antes que eu possa começar a ler o comunicado, Ryne logo adianta:

— A Purgação será hoje.

— Hoje? — o choque em minha voz é nítido. — Por quê?

— Não sei.

— Que horas?

Ele dá de ombros.

Umedeço os lábios em uma falha tentativa de hidratá-los, mas até minha língua parece seca.

Não faz sentido. A Purgação só ocorre ao final de cada estação, contudo o inverno acabara de dar as caras. Mesmo nós, financeiramente acima da média tascara, não temos uma economia pra lá de farta. Não quero nem imaginar como a notícia afetará a população mais pobre. Os veronianos, como sempre, simplesmente tomarão quaisquer bens que desejem dos habitantes de sua colônia, sem sequer cogitarem se importar com as consequências disso na vida alheia. E não somos exceção à regra.

— Quanto eles estão pedindo?

Seus lábios se contraem em uma linha reta como se estivessem prestes a dar uma notícia ruim. Ryne engole em seco, respirando fundo.

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