......... Prólogo ...........

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Como sempre aos domingos, o litoral da cidade estava agitado de pessoas em busca de lazer; turistas e crianças em um vai e vem ininterrupto.
Kaliny, sentada no banquinho da pequena praça observava os pedestres​. Ora; uma criança lambendo seu pirulito. Ora; um casal de velhinhos. Ora; um jovem casal de mãos dadas.
Absorta nestes pensamentos concluiu que era muito relaxante observar ao seu redor, bisbilhotar a diversidade das pessoas sem ser percebida. Quando pequena estivera muito presa as rigorosidades de seus pais alcoólatras. Agora queria aproveitar bem a ociosidade do tempo que dispunha e a sua liberdade adquirida. Morava com uma família em Londres. Família que a acolhera naquele dia gélido.
Agora começava a divagar seus pensamentos de volta a um passado ainda recente em sua memória.
Haviam-na encontrado naquele dia enrolada em um cobertor velho e puído. Em posição fetal, debaixo das ruínas daquele quiosque abandonado. Os primeiros dias de convivência naquela mansão exageradamente luxuosa não fora fácil. Estava tão acostumada a simplicidade que beirava a miséria; que não conseguira se adaptar de imediato à nova realidade.
As lembranças daquele dia vinham como flashes.
Chorava sob o cobertor quando mãos fortes a fizeram levantar. Assustada Kaliny havia olhado para um Senhor de meia-idade que logo a tranquilizou com um sorriso. Sentindo de imediato uma energia boa que emanava dele, ela devolveu o sorriso.
O Senhor a havia olhado com muita ternura e perguntara:
__ O que está fazendo aqui?
Kaliny com voz triste então contou toda a sua trágica história.

"__Venho de uma cidadezinha do interior onde morei desde que nasci, saí de casa porque não aguentava mais a situação que vivia por lá Senhor."

Relatou também como os pais a exploraram coagindo-a,  trabalhar até tarde da noite e a cuidar dos irmãos menores.
__ Não estou arrependida Senhor, eu não conseguiria mais viver lá. __ havia finalizado enquanto uma lágrima escorria por sua bochecha rósea pelo efeito do frio.
__ O que me preocupa Senhor, são meus irmãos que ainda estão lá. Eu os amo muito. __ acrescentou ela em meio a um soluço mal contido.
O homem havia repetido a expressão de ternura e pousando as mãos em seus ombros a interrogou:
__ Você não tem uma casa; um parente onde possa ficar?
__ Não, não tenho Senhor.
__ Mas seus pais não ficaram preocupados? Não saíram a lhe procurar?
Kaliny limpava os olhos com as costas das mãos.
__ Provavelmente não Senhor, eles foram avisados que eu estaria aqui e dois meses já se passaram desde que eu saí de lá.
__ Oh meu Deus! Você parece não ter mesmo ninguém que a possa acolher. __ argumentou o homem que agora mudara a sua expressão de ternura para uma preocupada. Kaliny notou que ele mordeu o lábio por entre a barba grisalha e se manteve pensativo por uns minutos.

Ela quis acrescentar:
__ Eu teria Senhor, se ele também não tivesse enfrentando dificuldades para se manter aqui em Londres. Trata-se do meu irmão Harley.

Aquele Senhor a havia abraçado forte e simplesmente a puxado para perto incentivando-a  seguir caminhando com ele. E Kaliny só o acompanhara sem medo, deixando para trás o cobertor velho e sujo, juntamente com o assombroso quiosque inativo. A proposta que o Senhor a fizera naquele dia havia sido inserida nas regras de que ela ajudaria em alguns serviços leves da casa e em troca teria um lugar seguro para dormir, tranquilidade e custos sanados por ele para estudar; além disso não precisaria se preocupar com escassez de alimentação.
No fim daquela tarde, já início de noite, quando ela já se instalara num dos quartos de hóspedes da mansão, ele havia se apresentado como Barney Campbell e ela do alto de seus recém-completados quatorze anos apenas resmungara seu primeiro nome.

O Prêmio do SofrimentoRead this story for FREE!