Capítulo 1 - Marca

Começar do início

– Pretendo tirar vocês dessa vida de escravidão, Henrik. Mas não vou permitir que execute estes dois a sangue frio.

– Então é isso – concluiu Henrik, estalando os dedos como se houvesse decifrado uma charada. – Eu sei quem você é, garoto, já ouvi as histórias. Pele negra, viola nas costas, forte senso de justiça... Em Vasgrad, o chamam de A Sombra.

– Um dos meus diversos nomes, e de longe o mais ofensivo, devo admitir. E não é uma viola, é um alaúde!

– Pois saiba, moleque, que nesse mundo não existe justiça. Aquele homem – Henrik apontou a faca para o nobre cabisbaixo – desgraçou a minha vida e a de meus amigos – e indicou a meia dúzia de homens ao fundo. – Agora, nossa justiça é acabar com a raça desse crápula.

– Isso não é justiça, é vingança. O que faço é dar uma chance às pessoas de serem livres, mas parece que falhei com vocês.

– Falhou? – Henrik abriu os braços, deixando escapar uma risada irritante. – Nunca me senti tão livre em toda a minha vida.

– Uma vez me disseram que aqueles que negam liberdade aos outros não a merecem para si próprios. E você não passa de um vigarista desprezível e digno de pena.

– Vai se arrepender disso, moleque. Reze para que eu esteja satisfeito quando acabar com aqueles dois, ou sua garganta vai sangrar. – Henrik passou a língua pelos dentes. – Quem sabe eu consiga um bom preço por sua cabeça com algum comerciante de escravos.

– Eu não sou escravo! – retrucou Marko, bufando.

– Gente como você nasce e morre escravo, nagô. Tá no seu sangue.

Nada atingia tanto Marko quanto perder o controle da situação. Henrik não tinha um pingo de honra, e homens desonrados costumavam ser imprevisíveis. Seu estômago revirou e o deixou nauseado.

Então teve uma ideia que poderia salvar sua vida – ou levá-lo à morte certa.

Quarto passo: não fraquejar – ou não deixar que percebam se o fizer.

– Você não pode me machucar – ameaçou, engolindo em seco a aflição.

– Como tem tanta certeza?

– Eu tenho A Marca do Liberto. – Um silêncio tomou conta da cena, cortado apenas pelo farfalhar das árvores, e o ar prendeu na garganta dos presentes, como se Marko os sufocasse com o pensamento. – Creio que saiba o que acontece a quem mata um Liberto.

A... A Marca? – perguntou Henrik, subitamente empalidecido. – Não minta pra mim.

– Fique à vontade para descobrir.

Henrik vacilou, sem certeza do que deveria fazer, até que Marko baixou os olhos, indicando sua própria túnica. Hesitante, o homem apertou os dedos sobre a faca de talhar e segurou Marko pelas vestes. Por um instante, o garoto achou que ele fosse perfurar sua pele, mas a lâmina cortou apenas o pedaço de pano que vestia.

As dúzias de olhos ao fundo se fixaram em Marko, como se admirassem um animal exótico e perigoso. A Marca cobria suas costas num emaranhado de cicatrizes entrelaçadas num labirinto. As feridas, que se estendiam até seu tórax, terminavam num corte transversal na altura do coração.

Seu corpo ardeu em chamas, como se milhares de lâminas percorressem cada uma das linhas profundas que desfiguravam sua pele.

– É... é verdadeira? – balbuciou Henrik, horrorizado.

– É impossível falsificar A Marca. Toque-a e verá.

Marko sabia que ele não iria tocá-la. Fosse por medo ou repulsa, ninguém nunca tinha coragem.

Réquiem para a LiberdadeLeia esta história GRATUITAMENTE!