Dois Gringos na Lapa

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Shaul pensa no buraco negro que se aproxima, interrompe o gole de uísque para pensar nos tentáculos da destruição que se espraiam pelo cosmos em direção à Terra, prestes a engolfá-la em breve. Esse pensamento parece arejar sua mente com uma rajada de lucidez. De repente tudo se revela tão instável, e cada vez mais próximo.

- Há muitos anos - confessa a Randall - eu conheci uma garota lá em Minas Gerais. Era uma pobre coitada que vivia com a avó caduca e três irmãos excepcionais. Mas que bonita era a Romilda! Seu pai e mãe ainda eram vivos, eram gente simples, da roça, gente trabalhadora e honesta. E eu, um estrangeiro pálido em uma terra onde cabelos ruivos são mais ou menos como antenas de marcianos...

- Não me diga que vocês se envolveram?

- Sim!

- Shaul você não me parece o tipo de homem que seduziria uma pobre camponesa e a abandonaria. Nem mesmo uma camponesa goy com antecedentes genéticos tão aparentemente desfavoráveis.

- Isso foi antes destas leis eugênicas, bem antes. Naquele tempo as pessoas se acasalavam como animais, e o Estado mantinha a sobrevida dos subprodutos.

- Você era então pouco mais que um moleque, as leis eugênicas estão em vigor no mundo todo há quase quarenta anos!

- Digamos que minha genética me beneficia, Randall. Eu sou bem mais velho do que você acha que eu sou. Mas não tenho o hábito de exibir minha carteira de identidade somente para resolver discussões de bar.

- O que houve entre vocês?

- Ora, o que poderia haver? Ela fascinada por mim, pelo estranho alienígena de cabelos vermelhos que nunca saía ao sol e que falava com um sotaque engraçado. Eu me deixei fascinar por ela, a estranha camponesa de cabelos pretos, mãos calejadas e lindo sorriso. O curioso é que hoje nem lembro mais da aparência dela.

- Ficaram pouco tempo juntos, então?

- Pouco, apenas o suficiente para eu ter que pagar pensão a um bastardinho.

Randall ficou chocado com a maneira como Shaul se referia ao próprio filho, e à mulher com quem o tivera:

-Shaul, eu não consigo ter sua frieza. Para mim toda mulher com quem transei, a menos que tenha me dado ótimos motivos, é como se fosse uma amiga. Eu respeito cada mulher com quem trepei como se fosse a minha esposa.

- Você é um bobo, Randall.

- E você um niilista.

Riram e continuaram bebendo cachaça com limão, sem preocupar-se com azia ou coma alcoólico. Não havia futuro mesmo.

- Quando ocorrerá a colisão, Shaul?

- Não sei, Randall. Ninguém sabe. O que sabemos é que ela é inevitável e que a essa altura nenhum artefato construído pelo homem conseguiria superar a velocidade de escape necessária para sair do horizonte de evento do buraco negro. É o fim, amigo.

- Como não percebemos antes?

- Randall. Você nunca entenderá. Você não é astrofísico como eu, mas um mero jornalista perseguidor de personalidades.

- Mas sou esforçado nas minhas histórias.

- Então aproveite que eu estou escancarando para o mundo esse segredo. Ninguém tinha como saber porque o buraco negro era suficientemente pequeno para ocupar uma região pequena do céu, menor que uma ponta de agulha, mesmo magnificado 100 vezes. Além disso, ele produzia uma lente gravitacional. Você sabe o que é isso, não sabe?

- Continue falando, Shaul. O que eu não souber eu pergunto depois ou então vejo na enciclopédia.

- Muito bem. A lente gravitacional o tornava invisível. Somente percebemos que havia algo errado quando as primeiras perturbações gravitacionais começaram a ocorrer, ainda na nuvem de Oort. Mas demorou quase uma década para que ele se aproximasse o suficiente para que pudesse ser detectado.

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