Hora de Descer

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          As colisões eram como a explosão de um canhão, os socos faziam Eastar deslizar metros antes de se recompor, ele cambaleava e sentia o gosto ácido e carregado de seu sangue azul na boca. Sabia que estava com o lábio cortado e provavelmente seu nariz devia estar quebrado - nenhuma novidade até aí, mas ele se recusava a aceitar a derrota.

          — Vamos, garoto, chega, sua mãe vai brigar comigo se você chegar desmaiado de novo. — Seu pai gritou para ele.

          — De jeito... nenhum! Ai... — Ele voltou o nariz para o lugar. — Eu disse... hmm, que seria hoje... e vai ser hoje!

          — HUAHAHUAHHUUA! — A gargalhada de Aros era estrondosa. — Muito bem, então! Já disse que levará mais um milhão de anos antes que você me acerte... e olha que estou sendo generoso, mas tudo bem... — Ele estendeu os braços, convidando o filho a avançar. — Venha! Vamos lá!

          Eastar partiu, deslizando pelo espaço com seus longos cabelos negros sendo atirados para trás, ele seguia muito rápido, rápido até mesmo para os olhos de Aros.

          Diferente do pai, vestido em cota de malha, calça e bota de poeira estelar, o garoto achava que leveza e velocidade eram tudo, então ele mesmo havia feito um simples macacão cinzento de poeira.

          Avançou acreditando nessa velocidade, foi com o punho direito erguido, decidido a acertar o velho naquela boca sorridente que ele tanto exibia. O jovem estelar brilhava intensamente, uma luz azulada e quente que continha toda sua vontade naquele ataque.

          O pai ficou com uma expressão séria, aquela velocidade estava além do que ele esperava, de repente, seu filho já estava próximo demais, quase não dando tempo para que o comandante aparasse o soco com sua mão esquerda.

          Recuperando o controle, ele subiu seu punho direito com uma força extraordinária em direção ao queixo do filho, mas este conseguiu ver o movimento do pai, se inclinou para trás, e o soco passou bem à frente do seu rosto.

          O estelar, que tinha agora sua barba ficando grisalha, se permitiu um pequeno sorriso, ele sabia muito bem o que o filho faria antes que seu corpo delatasse o movimento. Uma luta para ele era uma dança, e não se tratava de ser mais forte que seu adversário, se tratava de conhecer a sincronia dele. Entendendo sua dança, você anteciparia seus movimentos. Eastar aprenderia isso um dia, o comandante faria com que ele aprendesse.

          O jovem continuou girando e, na velocidade de um piscar de olhos, acertou o joelho no rosto do pai.

          O comandante foi jogado metros para trás, quando conseguiu se sustentar de novo, estava cambaleando e com a visão turva.

          Ele ficou um tempo sem acreditar naquilo, ele sabia o que viria, conhecia seu filho, e a sincronia dele, apesar de maravilhosa de se ver, ainda era previsível. Mas aquela velocidade não fazia sentido, foi um impulso anormal que não lhe deu tempo de desviar a cabeça. Ele olhou para o filho escondendo o espanto em seu rosto.

          — Você... caramba, garoto. — Ele sacudiu a cabeça e segurou a boca com uma das mãos. — Não acredito ainda... au..., mas parece que você finalmente conseguiu.

          — Está vendo! Está vendo! Eeeeu consegui! Espera só até a mamãe saber disso. Rapidinho vou ser tão forte quanto você, velho!

          — Nem nos seus sonhos. — Mas de fato ele não sabia, a força daquela joelhada o havia surpreendido tanto quanto a velocidade do filho, ele imaginou se o garoto teria herdado sua força além da velocidade da mãe. — Oh! Isso seria perigoso.

A Crônica de EastarOnde as histórias ganham vida. Descobre agora