Capítulo XVII

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Um frio percorreu minha espinha. Que tipo de pessoa intitulava-se Conde das Cicatrizes? Algo na ideia maluca de papai deixava-me inquieta.

— Quais os detalhes sobre essa aliança? — tio Edmundo perguntou.

— Pois bem... para o conde conseguir a aliança de Valência com a Inglaterra, Portugal e França, ele quer vinte por cento dos nossos minérios, consequentemente, vinte por cento de nossas terras pertenceriam a ele. — explicou-nos cautelosamente.

— Não seria benéfico perdermos essa quantia de terras, meu irmão. — tio Edmundo estava visivelmente incomodado com a situação, assim como os de mais presentes.

— Sei disso. Entretanto, há um jeito das terras pertencerem a ele e a nós. Eu propus-lhe a mão de Ravena e ele aceitou. Chegará amanhã. Assim, as terras pertencerão ao conde, à Valência e venceremos a guerra contra Zimberman.

Meu queixo caiu, assim como o de minha irmã. Pelo menos ela iria realizar o sonho de casar.

— Graças a Deus o senhor vai casar a Ravena. — murmurei.

— Não mencione o nome desse Deus. — papai trincou os dentes.

— Como acha que nosso pai casaria você, Luna? Quer dizer, como acha que o conde iria aceitar casar com você, sabendo que você é desonrada?

Levantei-me e deixei a sala. Arg! Se não fosse cristã, desejaria que esse conde fosse velho, barrigudo e baixinho. Apesar que, ficar sabendo de tudo aquilo acalmava meu coração. Soldados poderiam não mais morrer na guerra, caso tudo corresse corretamente. Provavelmete, mamãe e Ravena estavam pirando com a notícia de que o conde chegaria em um dia. Era muita informação para um dia só.

a) Mamãe havia pedido-me perdão depois de nove anos sem falar comigo, praticamente.

b) Ravena casaria com um conde misterioso, para dar a ele vinte por certo de nossas terras e para continuarmos com elas, ao mesmo tempo.

c) O conde chegaria amanhã.

Pelo menos, era grata a Deus por não ser eu a noiva. Odiaria ter que passar pelos mesmos processos novamente: escolher tecidos, guardanapos, bolos, flores. Eu estava isenta. Como sempre soube, o peso da coroa caía sobre Ravena. Quando papai partisse... espera! Quando papai partisse seria o Conde Não Sei Das Quantas que iria reinar. E se ele fosse tão ateu quanto meu pai? Definitivamente, eu estava com problemas. Valência estava com problemas. O que passou na cabeça de papai quando decidiu fazer um acordo com um conde misterioso, podre de rico e amigo íntimo dos reis dos maiores reinos?

Rumei para meus aposentos. Assim que entrei, fechei a porta atrás de mim e dobrei meus joelhos diante da cama.

— Senhor Jesus, sei que Tu és perfeito e que nenhum dos teus planos pode ser frustrado. O futuro do reino é incerto, aos olhos humanos. Porém, sei que Tu estás cuidando de nós, por amor àqueles que não rejeitaram o teu nome, mesmo diante da perseguição. Como sempre digo: entrego todos os valentes em tuas mãos. Pai, que meu pai possa lembrar de Ti, dos teus feitos. Senhor, muitos dos que habitam esse castelo e esse reino conheceram-Te. Por favor, faça-os lembrar, faça-os voltar às origens. Segura a minha mão, por favor. Desde já, agradeço. Amém!

Ouvi batidas na porta.

— Entre. — disse pondo-me de pé.

Mamãe adentrou meus aposentos com uma feição preocupada em seu rosto. Aquilo tudo era novidade. Geralmente, Janina Clairmont de Valência não se preocupava comigo, ao menos, era o que deixava transparecer.

— Desculpe por Ravena. Sua irmã é geniosa, assim como você era há nove anos atrás.

— Parei de importar-me com seus comentários há muito tempo. — dei de ombros.

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