Capítulo XVI

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Após render-me ao Criador, resolvi clamar pelo reino. Um reino que um dia já teve Jesus Cristo como seu Rei, mas que por algum motivo, esqueceu-se dEle há anos. Sempre que acordava, pela manhã, fazia a seguinte oração:

— Pai, venho agradecer-te pelo teu infinito amor, graça e misericórdia, dos quais eu não sou merecedora. Sei que tenho minhas falhas e peço que me perdoes. Pai, clamo a Ti em prol de todos os valentes que habitam o Reino. Senhor, tenha misericórdia de nós. Não permita que o inimigo derrube-nos. De fato, se houver uma batalha, nós não temos força para vencer, no entanto, Tu és o Senhor dos Exércitos e pode concedernos a vitória. Pai, peço que toque nos corações de todos os que vivem aqui, tanto nobres, quanto plebeus. Que eles possam lembrar de Ti, de todos os teus feitos. Reacenda a fé dentro de cada um deles. Que todos possam reconhecer que só Tu pode dar-nos a paz que excede toda a compreensão humana. Senhor, que o Reino de Valência venha voltar os olhos para Ti e que todos possam reconhecer que Tu, somente Tu és o Rei dos reis e Senhor dos senhores. Que todos possam reconhecer a tua grandeza e te adorar em espírito e em verdade, afinal, Tu és digno de todo louvor, honra e adoração, para todo sempre. Desde já, entrego-te minhas súplicas e te agradeço, em nome do Santo Jesus. Amém!

Levantei-me e fui me arrumar. Olhava-me no espelho, não era mais uma menina de quinze anos, eu tinha vinte e quatro, eu era uma mulher. Confesso que imaginava como seria meu futuro com Alec, caso conseguíssemos fugir. Nós moraríamos em uma cabana, semelhante a que ele vivia. Teríamos dois filhos, Valentina e Pedro. O mais importante: exerceríamos a nossa fé sem medo algum. Seria lindo, increvelmente lindo.

— Pensando nele... não é? — vislumbrei a figura de mamãe, através do espelho. — Você só sorri assim quando pensa nele.

— Bom dia. — sorri.

— Bom dia, minha filha. Perdão por invadir seu quarto, mas, a reunião do conselho começa daqui a alguns minutos.

Valência possuía um conselho, ou seja, ministros, condes e duques que debatiam com meu pai e falavam o que achavam que poderia solucionar nossos problemas.

— Eu já vou. Estou terminando de me arrumar.

— Filha... foi o garoto que te deu esse cordão?

Era estranho mamãe tão interessada em Alec e no meu passado amoroso. Mais estranho ainda, era ela falando comigo. O que estava acontecendo?

— Foi. — segurei o cordão, que usava todos os dias e cuidava com muito carinho.

— Luna... nove anos passaram e, não pense não vi você chorar. Não pense que sua dor não me comoveu. Eu chorava sozinha, escondida de tudo e todos. Vê-la sofrer era e ainda é um martírio. Eu sinto muito. — uma lágrima escorreu em sua face.

Era a primeira vez que ela dizia isso. Abracei-me a minha mãe e não contive as lágrimas.

— Está tudo bem. — forcei um sorriso.

— Eu só queria o melhor pra você, meu bem. Perdão.

Shi... Está tudo bem, mãe. Eu perdoei, faz tempo.

— Realmente, seu pai e eu não tivemos nada a ver com o que ocorreu.

— É passado, mãe. As coisas velhas passaram, eis que tudo se fez novo. Deus ouviu minhas orações. Eu pedia a Ele para que a senhora e eu tivêssemos um relacionamento de mãe e filha. Depois de muito anos orando, Ele ouviu-me.

— Quando quiser falar comigo sobre seu Deus e sobre... — ela pareceu pensar. — Como o garoto chamava-se?

— Alec. — sorri ao pronunciar seu nome.

— É... Quando quiser falar comigo sobre seu Deus e sobre Alec, estou aqui. Quero fazer o que eu nunca fiz: ser sua mãe.

Glória a Deus!

Era a prova de que Ele ouvia minhas preces. Nunca tive um bom relacionamento com mamãe. Após o episódio com Alec, as coisas só pioraram. Porém, Deus é justo e faz tudo a seu tempo. Ele a levou até meu quarto, para pedir perdão.

— Eu te amo, mãe. — abracei-a novamente.

— Eu te amo, filha. Amo muito.

Ela ajudou-me a terminar de me arrumar. Após estar pronta, dirigi-me até a sala de reuniões. Não estava com fome. Seria mais uma reunião entediante. Eu já havia dito aos nobres que Cristo era a única solução do reino, mas eles não me deram ouvidos e papai disse que eu poderia exercer minha fé, contanto que não a compartilhasse com ninguém, e só podia fazer isso por ser filha do rei.

Adentrei a sala. Todos já estavam posicionados em seus lugares.

— Perdão pelo atraso. — dirigi-me a meu pai. — Bom dia, senhores.

Alguns se deram ao trabalho de responder-me, outros não.

— Sente-se Luna. Tenho notícias otimistas.

— O senhor resolveu lembrar-se de Deus, pai? — indaguei esperançosa.

O resquício de sorriso que estava no rosto de papai desapareceu. Graças ao Senhor, mamãe adentrou a sala, chamando a atenção dos de mais. Calada, fui sentar-me, ao lado de Ravena.

— Tem vinte e quatro anos, mas ainda age como uma menina de quinze.

— Você tem vinte e sete e ainda é solteira, irmã. — sorri sem mostrar os dentes.

— A culpa não é minha. Você desonrou a família.

Os primeiros comentários de minha irmã machucaram-me. Com o tempo, aprendi a virtude da mansidão, aprendi a ignorar insultos. Eu sabia que não era desonrada, Deus sabia disso e isso bastava.

— Tenho boas notícias. Algo que pode ajudar-nos a vencermos essa guerra de vez. — papai iniciou sua fala, andando pelo tapete que enfeitava o chão.

— Conte-nos, majestade. Há tempos não tínhamos boas notícias. — um dos ministros manifestou-se.

— Na minha última ida à Inglaterra, na tentativa de conseguir uma aliança com os ingleses...

— Que foi mal sucedida. — susurrei alto demais, atraindo olhares.

— Pois bem... — ele respirou fundo. — Na festa do rei, conheci um conde. Ele é a solução dos nossos problemas.

— Como um conde pode ajudar-nos? — perguntei receosa.

Eu possuía um certo trauma de condes, eles faziam-me lembrar de Zachary.

— Ele é um conde riquíssimo. Seus bens, com certeza, ultrapassam todas as nossas riquezas unidas. Ele é amigo do rei da Inglaterra, da França e de Portugal. E, em uma breve conversa que tivemos, ele mostrou-se interessado em parte de nossos recursos minerais. Em troca, ele ajuda-nos a vencer essa guerra, promovendo uma aliança de Valência com os grandes reinos. — nunca tinha visto meu pai tão entusiasmado.

— Mas já oferecemos parte de nossas riquezas minerais para esses reinos e eles não aceitaram. — comentou um senhor de bigode, duque Granford.

— Exatamente. Porém, o conde é amigo íntimo dos reis. Ele conseguiria uma aliança, caso déssemos a ele vinte por cento de nossas riquezas minerais. É um sacrifício que temos que cometer, se não quisermos perder o nosso reino por completo. Há mais uns detalhes sobre o possível acordo, mas serão revelados depois.

— Esse conde tem nome? Porque eu fiquei curiosa. — dei de ombros.

— Ele é conhecido como o Conde das Cicatrizes.

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Lembre da minha ordem: Seja forte e corajoso! Não fique desanimado, nem tenha medo, porque eu, o Senhor, seu Deus, estarei com você em qualquer lugar para onde você for.”
Josué 1.9

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