19. Uma tempestade na escuridão

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O dia ainda estava longe de amanhecer. A noite se fazia tão escura do lado de fora, quanto do lado de dentro das casas. Todos, por toda a aldeia de Pirakuá ainda dormiam. Então começou o vento. Primeiro só um vento fraco, comum. No entanto, ele foi ficando mais e mais forte. Ainda ninguém tinha visto ou reparado, mesmo porque, não havia ninguém lá fora, na escuridão, para prestar atenção. Os galhos das árvores começaram a ficar cada vez mais agitados e no céu preto longínquo um raio brilhou indo de cima a baixo no horizonte.

Acho que ninguém viu isso também. Com exceção de uma pessoa. Pois, nos caminhos escuros da mata, atravessando as pequenas roças indígenas, passando pelos córregos, após ter atravessado o Rio Apa em uma canoa, Tumé Arandu chegava.

Tumé Arandu! O próprio. Em corpo humano, em carne e ossos. O mesmo das histórias, da mitologia, um dos primeiros habitantes da primeira Terra. Um dos privilegiados seres humanos a conviver, em solo terrestre, com os deuses criadores.

Se vocês conhecessem as histórias que eu conheço, vocês relacionariam o vento, os trovões, raios e a chuva que apontava longínqua, à presença Tumé naquele lugar. Porque o próprio Tupã o acompanhava. E a presença de Tupã era carregada de raios e trovões. Quando Tupã se movimenta no céu, o seu tembetá, raspando em seus lábios e dentes, criam os raios. Mas com olhos humanos você jamais veria isso. Somente os deuses, e um grupo seleto e pequeno de humanos, podem ver. Felizes são esses privilegiados de poderem testemunhar essa maravilha!

E ali estava ele, Tumé Arandu. Mas afinal, o que ele estava fazendo na Terra Indígena Pirakuá, rondando o lugar próximo às casas e barracos, onde todos ainda dormiam? A verdade é que Tumé Arandu está ligado às aventuras em lugares diversos e diferentes. Ele é aquele que transita entre os diferentes clãs, o Sábio. O que foi designado pelo próprio Nhande Ryke'y Tee Va'e, o Deus que é o Nosso Verdadeiro Irmão Mais velho, a transitar entre diferentes etnias, levando boas novas de salvação. No entanto, ali em Pirakuá, não se tinha lembranças da passagem dele. Não estava nas histórias, nem nas memórias, nem se falava sobre isso ao lado do fogo ou em roda de tereré. Por isso mesmo, quem o visse chegando, talvez não o reconhecesse.

De forma excepcional ele não usava suas vestes, pinturas e adornos originais. Usava uma calça comprida, tipo jeans, e uma camiseta que o tornava igual a qualquer outro. Seus cabelos eram pretos, como eram pretos também, os seus olhos. Talvez o que o fizesse um pouquinho diferente dos outros indígenas do local, era o poncho de algodão branco. Tão branco que chegava a ofuscar a visão de quem o visse durante o dia. E aquela espécie de sainha, também de algodão branco, que usava sobre suas roupas de humanos comuns. Ah, e o tembetá. Ele usava um longo e perfeito tembetá no furo de seu lábio inferior. Como o deus Tupã, que enquanto acompanhava dos patamares celestiais o seu caminho na Terra, mexia com a língua, o tembetá entre os lábios. Só que Tumé não produzia os raios e nem os trovões, como o deus.

Por falar nos raios e trovões de Tupã, lá estavam eles. Primeiro só um ou outro, esparsos, na escuridão longínqua. Depois mais frequentes, mais próximos. E por isso mesmo, ressoando de forma mais intensa a cada vez.

Nesse instante, os humanos da Aldeia Pirakuá começaram a acordar. É que a intensidade do barulho dos trovões, da luminosidade dos raios e da força dos ventos, chegava a balançar casas. Galhos secos eram quebrados, árvores arrancadas. Não tinha como não acordar.

Então, a chuva chegou.

Um raio caiu em uma árvore próxima à casa da família de Porasy, fazendo-a estremecer. A casa, é claro, porque Porasy estava dormindo emaranhada à lençóis e junto à sua irmãzinha. Todos os humanos dentro daquela casa, naquele instante, acordaram num susto. Também Porasy e as irmãs.

Porasy e o estranho mundo das histórias de seu avô indígenaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora