Um pequeno conto Nemtsi

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      — Mantenham as tochas acesas — ordenou Gregor assim que a noite começou a cair. — Vocês, permaneçam no centro — pediu dirigindo-se às duas crianças do grupo que avançava pela trilha que serpenteava a parte baixa da floresta.

      Século XIII, uma região escarpada de Valáquia, sudoeste da atual Romênia. A cheia inesperada do rio bloqueou a passagem da tropa e atrasou o retorno à aldeia Nemtsi onde viviam.

      Eudóxia, uma garota magra e morena, trajando roupas de lã com desenhos coloridos típicos da região, estava no final de seus 14 anos e seu primo, Karol, que a acompanhava, dezesseis. Ambos ainda considerados crianças para os Nemtsi.

      — Se tivéssemos Guerreiros em nossa aldeia estaríamos mais seguros — sussurrou ela para o primo que, alto e magro, se inclinou sobre o cavalo para lhe responder à altura sem incomodar seu pai.

      — Não faria diferença... Todos morreram na outra cidade. Não diga asneiras.

      — Estou prometida a um homem bem treinado que os enfrentaria.

      — Até onde sei, você se prometeu a ele... E ele não teve outra escolha, a não ser aceitar — riu baixinho do fato dela, aos doze anos, ter afirmado que se casaria com um visitante. — Depois ele seguiu para a guerra pelas terras santas deles, talvez nem volte...

      — Era o destino dele ir lutar. Ele voltará quando eu estiver na idade certa, nos casaremos e irei morar com ele em uma grande cidade.

      Karol começou a rir no meio da frase da prima, mas ela ainda prosseguiu:

      — E teremos servos e...

      Seu primo riu ainda mais alto, o que desagradou o pai que interrompeu aquela conversa com um poderoso "Silêncio". Em seguida, Gregor desceu do cavalo e ordenou que fosse providenciada uma fogueira. Todos desceram dos animais e Eudóxia, depois de soltar a saia de lã que ficou presa no estribo, se aproximou seriamente do primo sorridente e completou com uma firme certeza:

      —Ele pode vê-los...

      O sorriso irônico se desmanchou do rosto do rapaz.

      — Todos podemos vê-los — afirmou sério. — Até onde se sabe... Mas eles vivem nas sombras, se escondem nas florestas e podem nos surpreender.

      — Mas ele pode sentir quando estão chegando, não podem feri-lo, e ele pode ver os espíritos e...

      — Está bem... Está bem... Mas ele não está aqui agora, está?

      — Por que paramos? — argumentou olhando em torno.

      — Não chegaremos à aldeia hoje. O fogo nos trará proteção esta noite — respondeu Gregor com o olhar correndo a escuridão da floresta que os cercavam. — Ficaremos acordados.

      Eudóxia se calou. Seus olhos, agora assustados, procuraram os do primo:

      — Todos morreram na outra cidade, a nossa está muito perto, se vierem para cá..., o que faremos?

      — Lutaremos como pudermos; temem o fogo — respondeu karol. — Dizem que eles nos querem porque não pertencemos a este mundo — moveu o rosto para o lado observando, também, a floresta  —,  porque nosso povo se prendeu a promessas que não podem ser desfeitas... Eles podem ver nossas almas comprometidas. Nós estaríamos livres se voltássemos para nossas terras originais subindo as montanhas, mas ninguém nunca mais achou o caminho... Não sabemos mais onde este lugar fica — voltou a observá-la. — Eles são como a neblina, espadas os atravessam, mas seu toque pode nos levar para o mundo deles.

      — Você me assusta... E isso tudo não pode ser verdade. Meu noivo sabe enfrentá-los e disse que eles não existem mais em outras terras, só aqui e que estão desaparecendo...!

      — Logo receberemos ajuda. Por ora, a aldeia está segura e vamos garantir que cheguemos a ela  — afirmou Gregor enquanto se afastava.

      Havia um silêncio mórbido que pairava sobre a floresta. Nem a brisa fria provocava algum movimento e tudo jazia em uma paz inquietante. Os homens se moviam preparando a fogueira que serviria de proteção. Eudóxia observava a todos com os braços cruzados em torno de seu corpo, apreensiva com esta estadia inesperada.

      Infelizmente, eles não estariam livres esta noite. Aos poucos alguns zunidos se fizeram ouvir e os homens ficaram alertas. Viravam-se em torno de si para identificar os sons que chegavam. Após os primeiros segundos, quando a mente tenta reconhecer o problema, com agilidade correram para suas tochas, lançaram mão de suas espadas e tentaram se proteger da ameaça. Os espectros que buscaram as almas da aldeia vizinha se aprumaram, então, para interromper aquela viagem.

      Ao invés de se agruparem e juntarem seu fogo, dispersaram-se e sozinhos não se mantiveram próximos o suficiente da luz. Puderam ainda vislumbrar as formas espectrais que os cercaram e incidiam sobre eles. Espadas eram agitadas em uma velocidade que humanos comuns não eram capazes de acompanhar e mesmo assim o fio da lâmina atravessava os seres etéreos; por fim, ouviram seus próprios gritos quando suas almas comprometidas eram tocadas e o gelo penetrava sua carne.

      Eudóxia correu para perto da fogueira que fora acesa. De costas para ela, observava o entorno virando a cabeça no sentido de cada urro que ouvia. Começou a gritar em resposta e, com os braços esticados para frente e as mãos espalmadas, foi tomada pela aflição e pelo desespero. Viu seu primo, mais ao lado, que, apesar de menos rápido que os adultos, movia-se freneticamente afastando-se dos espectros enquanto manejava a espada com ambas as mãos atingindo o ar. Ele não segurava uma tocha e não estava o suficientemente próximo ao fogo, parecia um louco golpeando o nada.

      De repente ela os viu. Flutuavam no ar em movimentos circulares e cercavam Karol. Inacreditavelmente não o tocavam; circulavam e incidiam em sua direção, pareciam fazer escárnio de sua vítima. Eudóxia gritava em desespero, ainda agitando seus braços como que para afastar qualquer coisa que se aproximasse. Então, chegaram perto dela; sorrateiros, silenciosos, sussurrando sons incompreensíveis, mas pareciam recear o fogo. Um deles se aproximou dela, subiu próximo a seu corpo e parou diante de seu rosto. Ela se imobilizou e calou-se. Respiração em suspense. Ele a observou de perto, parecia vê-la, mas não era capaz de tocá-la. Era como se ele tentasse cheirá-la, sentir sua essência; de súbito desistiu dela e, com a mesma agilidade que os Nemtsi tinham, se afastou.

      Eudóxia, com os olhos arregalados, respirou. Permaneceu imóvel por instantes, depois virou a cabeça para os lados e, cambaleante, absolutamente aterrorizada, se aproximou do primo que estava caído no chão.

      — Karol... — soltou um grunhido. — Karol... — repetiu como uma gralha fraca.

      — Foram embora? — perguntou, também com os olhos arregalados — Papai...?

      Ela balançou a cabeça em uma negação rápida e soltou outro grunhido fino. Ele se ergueu rápido e, se arrastando e tropeçando, correu para próximo de seu pai. Estavam todos mortos. Sem sangue derramado, sem lesões aparentes; apenas a vida havia sido ceifada de seus corpos de aspecto histérico. Ela permaneceu ajoelhada onde estava e argumentou:

      — Não levam crianças... Como os adultos, eles não podem nos sentir... Somos invisíveis para eles..., e livres.

      Karol voltou o rosto para trás e com lágrimas nos olhos observou o semblante inexpressivo de sua prima.

      Retornaram para a aldeia ainda no escuro da noite. Pegaram tochas e os cavalos e partiram em busca de auxílio para o ocorrido. Nunca mais em suas vidas foram visitados pelos espíritos da floresta.

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