Estilo #11 - A cena de ação

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Os dois principais ingredientes em uma cena de ação são o ritmo e o risco. Se trabalhados da forma correta, eles criam uma poderosa imersão do leitor e, consequentemente, aquela sensação de frio na barriga que todo mundo gosta.


Risco

A parte simples da equação é o risco. Quais as chances de tudo dar errado? Quais as consequências de tudo dar errado? O que sobra ao personagem se tudo der errado? Em suma, o que está em jogo.

O risco não precisa ser algo dramático como a possibilidade de uma guerra nuclear. Eu recomendo, inclusive, que não seja nada exagerado. Qualquer excesso pode levar o leitor a questionar a trama. Qualquer questionamento fora de hora diminui a credibilidade da cena, às vezes do livro inteiro.

Então, construa a cena em torno de uma ameaça que seja real tanto para o personagem, quanto para o leitor. Tenha certeza que o leitor irá entender os riscos e suas consequências. Deixe ele imaginar que tudo pode dar errado para o personagem. Deixe ele achar que alguma coisa vai dar errado. Faça ele temer pelo personagem. Numa cena de ação, o medo é a emoção âncora.


Ritmo

Cada livro tem um ritmo. Cada história deve ser contada de uma forma. Alguns enredos são calmos. Outros são intensos. Algumas tramas são delicadas e exigem paciência. Outras são desesperadas e exigem atenção.

A regra das cenas de ação é acelerar o ritmo da trama momentaneamente. Sempre respeitando o ritmo original.

Imaginem uma trama lenta que, de repente e só por um instante, dispara em uma direção. A cena vai parecer alienígena à trama. Já num enredo frenético, a cena tem que acelerar tudo o que pode, sob o risco de perder força e importância.

Dito isso, a chave para criar um bom ritmo para uma cena é entender como funciona a mente sob o efeito da adrenalina. No momento que o cérebro entende que está em perigo, libera o hormônio no corpo. Quando isso acontece, ficamos mais rápidos na análise do ambiente e na reação a ele. Ficamos detalhistas com o que está relacionado com o perigo e ignoramos todo o resto.

A consequência final é que, no meio desse turbilhão, o tempo passa mais devagar. É isso que devemos emular na nossa escrita.

Se pareceu simples, não é. Você precisa imergir profundamente na cena para conseguir "ver" o que o seu personagem veria. Uma dica importante é repetir a cena até "sentir" os riscos e temer pelas consequências.

Numa abordagem mais prática, as palavras, frases e parágrafos tem que diminuir. Isso novamente é relativo à velocidade do restante da trama, mas tudo que for escrito deve refletir a urgência do momento. Nada pode ser desnecessário. Minha sugestão é escrever o que acontece na cena e depois cortar toda a palavra que puder. Troque conectivos por vírgulas. Vírgulas por pontos. Pensamentos por ação.

Leia em voz alta e repare onde uma respiração curta não consegue ser suficiente para ler uma frase. Aonde isso acontecer, quebre a frase em duas. Da mesma forma, não permita parágrafos longos.

Persiga palavras complicadas. Tudo deve ser objetivo. Se você precisou pensar para lembrar de uma palavra, troque. O seu personagem não teria esse tempo.


Abaixo um exemplo da utilização de frases, palavras e parágrafos pequenos:

O carro está capotando.

Seu corpo, jogado.

A cada giro, um lugar.

Cada giro, mais sangue.

Giro, dor.

Olha para trás.

Nada.

O filho estava sem cinto.

Não consegue vê-lo.

Nem ouvir.

Ele ainda está no carro?

Pode estar morto.

Jogado na estrada.

Morto.


Repare que, gramaticalmente, várias frases não são bem construídas. E que existe repetição, mesmo depois da instrução "corte o desnecessário".

Vale ressaltar que se deve pensar na gramática sempre, principalmente quando desrespeitá-la. Quanto à repetição, se usada da forma certa, terá o efeito diametricamente oposto ao usual. Assim, passa a fortalecer uma ideia ao invés de enfraquecê-la.


Como uma última observação, alguns filmes e livros usam a tensão criada em uma cena de ação (normalmente inicial) para criar espaço para uma reflexão que levará a história adiante. Nesses casos, a cena de ação é sacrifica em prol do restante do enredo.


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