CAPITULO 40- j o u r n a l

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- Meu Deus, como eu senti a sua falta. Será que a gente pode abraçar? Será que não vamos machucar Eloá e Joaquim? - Alice perguntou após correr metade do aeroporto pra me ver.
- Eles vão ficar bem. - Sorri, a abraçando apertado. Eu me senti em casa.
- Espaço pra mim? - Amora pediu, e eu soltei Alice para abraçá-la. - Me desculpe. - Ela falou em meu ouvido. - Eu o deixei ir.
- Está tudo bem, morena. - Falei, passando a mão em seus cabelos ondulados. - Ele precisa espairecer.
- E você? - Ela falou, sorrindo e se ajoelhando em frente à minha barriga.
- Eu acho que ela não pode te ouvir ainda.
- Mas é claro que pode. Não pode, Eloá? Titia vai ser a melhor titia do mundo pra você. Você terá uma família linda. - Amora beijou minha barriga e se levantou.
- Ela nem nasceu e você já está mimando a garota!
- Vou mimar vocês duas! Eu vou ser tia, cara! Minha primeira sobrinha.
- Primeira de muitas. - Falei.
"Diário de Quando te Deixei.
Dia 16- Para Ian Castelli.
E foi ali, Ian. Foi quando eu falei a Amora que Eloá seria a primeira de muitas que eu percebi. Eu queria aquilo. Eu queria várias crianças correndo pela casa com você.
Mesmo que eu não tivesse forças nem para cuidar de mim naquele momento.
Eu precisava de você, Ian. Deus, eu preciso de você.
Eloá está com 20 semanas.
Pois é, eu sei, não me xingue! Já tem um tempo que eu cheguei ao Rio e eu sei...eu deixei de escrever. Mas sabe, Ian, as coisas estão simples por aqui, mesmo sem você.
Meus pais a aceitaram bem...minha mãe, principalmente. Me disseram que Eloá é um nome bonito. O que você acha?
Eu acho que você vai gostar.
E ah, eu me livrei daquele sentimento. Eu sei, você não me abandonou. Nem tudo que a gente abandona é porque esqueceu, as vezes é por falta de opção mesmo.
Eu me esqueci da sua voz e posso te dizer, sem pensar duas vezes, que já tentei muito. Vamos la, Lisa, se concentre, você consegue.
Não consegui. Não me lembro do seu rosto e ver fotos me incomoda, é como se você fosse uma pessoa totalmente desconhecida e ainda não decidi se isso é bom ou ruim. Eu quero te conhecer de novo, se você tiver mudado tanto. Deixa?
Deixa eu te pagar um suco."
"Diário de Quando Eloá chutou pela primeira vez e eu chorei por estar sozinha em casa.
25 semanas. Eu acho que ela também gostaria de ouvir a sua voz. Ok, eu tornei isso uma missão pessoal, mas é que a sua voz, Ian, eu lembro o quanto gostava da sua voz. Tanto que na minha barra de favoritos há o seu vídeo cantando a música que eu sei que você escreveu pra mim e me recuso, todos os dias, a tirá-lo de lá, mas não me lembro dela perto de mim, a vibração que causava, o jeito calmo que me agitava. Desconcentração. Sorrisos e risadas que eu sei que eu sinto falta, mas não consigo me lembrar de nenhum nem outro."
"Diário de Quando Te Deixei
28 semanas. Está passando rápido. Amora está sendo uma tia e tanto...será que Eloá pode ter duas madrinhas?
Eu descobri o motivo: eu me esforcei tanto pra esquecer de cada detalhe seu que hoje, mesmo querendo, lembrar é um sacrifício. Não me lembro nem do toque, mas é como se eu arrepiasse da cintura a nuca toda vez que noto que algo aconteceu, que foi real. Eu me lembro do sentimento e acho que é por isso que escolhi não me lembrar de você.
É como se eu tivesse visto um filme e me apaixonado por ele. Sabe, tipo eu sou com Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças? Fã número um de cada cena, de cada aspecto...mas quando alguém me pergunta o motivo de tamanho amor eu não sei a resposta. Você é esse filme. Nós somos esse filme."
"Diário de Quando Eloá Não Parou Quieta.
30 semanas. Eu estou com uma dor do caralho.
Porra, você não tá entendendo o quanto tá doendo. Eu estou gorda, tem sandália que nem entra no meu pé e preciso da ajuda da minha mãe pra tudo. Deus, Eloá, eu preciso que você saia logo, filha."
"Diário de Quando Te Deixei.
31 semanas.
Tem algo errado, Ian, eu posso sentir. Onde você está? Pelo amor de Deus, Ian, onde você está?"
"Diário de Quando Eu fui Internada.
33 semanas.
Eles confirmaram minha teoria. Havia algo errado. Estou internada e preciso de você. Eu te liguei e o número deu como inexistente. Eu"
"Diário de Quando Te Deixei.
33 semanas.
Eu sei, não terminei a última página...culpe os remédios, não eu! Eu dormi. Grávidas tem hormônios do sono, será? Estou sempre com sono.
Eu e Eloá estamos internadas. Eu estou imensa e ela também.
Preciso de você."
                              *****
Como já disse, eu sou de virgem mas não faço jus ao meu signo. Então eu não fazia a mínima ideia de quando a viagem havia começado, mas eu estava em Portugal quando minha caixa de e-mail começou a lotar.
Amora Castelli deixou 200 mensagens.
Todas sobre Lisa.
Mas apenas a primeira foi necessária para me fazer entrar em um avião com destino ao Rio de Janeiro.
"Ela voltou, Ian, e ela precisa de você."
                             *****
- Ei - Eu acordei Lisa. Odiava aquele hospital, odiava aquele clima de doença e sei que Lisa também sentia tudo aquilo, mas ela mantinha um sorriso no rosto, tentando não desequilibrar. - Ele me respondeu.
- Re...re...respondeu? - Ela gaguejou e eu engoli as lágrimas.
- Sim, Daisy. Ele está no avião. Deve chegar hoje à noite. Vocês vão se ver. Eu prometo.
- Morena? Me faz um favor?
- Sim
- No meu quarto, lá em casa, tem uma gaveta cinza ao lado da cama... - Ela respirou fundo, com dificuldade, antes de continuar: - Dentro dela, tem vários papeis. Junte, grampeie e traga pra mim. Pode ser?
- Na sua casa? Onde você mora com seus pais?
Ela assentiu e fechou os lindos olhos  castanhos, dormindo.
A verdade é que eu era a única que sabia o estado de Lisa e eu estava tentando não desmoronar na frente dela, mas quando ela dormiu eu abracei meus joelhos e sentada na poltrona ao lado dela, eu chorei por longos minutos.
"É ela ou a criança" o médico me disse e eu não quis mais ouvir nada, então não sei o que causou, mas Lisa não sobreviveria se eu contasse a ela. Era a vida dela ou a de Eloá. E eu sabia, com toda a certeza: seria Eloá.
Então eu me preparei pra me despedir.
- Você vai, mas a gente fica, Lisa... a gente cuida dela. - Eu me deixei chorar, dando um beijo em sua testa. - Ian está voltando, eu vou cuidar dela como minha, Lisa...você pode ir em paz, eu te prometo. Mas se der, Daisy, se ainda existir forças em você: lute. Deus, Lisa, lute pra caralho. Grite com o que está te consumindo como você gritou comigo e com Ian milhares de vezes...lute pra ficar e vamos ser uma família. Mas se realmente precisar ir, se a dor não for suportável: vá em paz. Eloá estará salva.
Após molhar a bochecha de Lisa com minhas lágrimas, eu fui buscar Alice.
Ela entrou no carro com dificuldade, graças a barriga de 6 meses e quando olhei pro seu rosto, percebi que ela andava chorando.
- Como ela está?
- Eu não quis ouvir. - Respondi - Mas eles confirmaram...
Alice se encolheu, chorando desesperadamente.
- Eu não posso perder ela. Não agora, não...eu preciso dela.
Eu a abracei e choramos juntas.
- É ela ou Eloá, o médico me disse que é crítico...
- Ian?
- Não sabe ainda, só chega mais tarde.
- Não sabe do que, exatamente?
- Eu não sei qual e-mail ele leu...
- Por que você veio me buscar?
- Lisa quer uns papéis que estão na casa dela e você conhece aquela casa melhor do que eu. Os pais dela estão no hospital e me deram a chave, mas não encontro nada sozinha por lá.
Alice assentiu e eu dei partida no carro.
                             *****
Quando você ama alguém, você passa a sentir quando há algo de errado.
E eu soube, quando desci do avião: algo estava errado com Lisa.
E me culpei por horas por tê-la deixado sozinha.
                             ******
Alice sentou na cama e começou a chorar, encarando as folhas de papel amarelo.
- O que foi? - Perguntei.
Ela me estendeu os papéis.
- Diário de Quando Te Deixei. - Li em voz alta, me sentando ao lado de Alice.
- Nunca foi fácil pra Lisa. - Alice falou. - E eu a julguei.
- Ei, todos nós a julgamos. Alice, vai ficar...
- Não vai ficar tudo bem! - Ela aumentou o tom de voz - Meu filho não conhecerá a minha melhor amiga! E ela sabia que algo estava errado! Meu Deus, a dor que deve ter sido conviver com isso, saber que...saber que você vai morrer pra sua filha sobreviver. Lê isso, Amora, imagina Lisa, nessas últimas semanas, escrevendo essas coisas! Ela sabia! Ela sabia... -Alice deitou a cabeça no meu ombro e soluçou por mais alguns minutos e eu me juntei a ela. Nenhuma de nós estava preparada para perder Lisa. E eu não queria nem pensar na dor de Ian.
Quando meu telefone tocou, eu não acreditei.
- Ian? - Perguntei.
- Onde ela está?
- Onde você está?
- Aeroporto.
- Hospital Samaritano.
Ele desligou sem falar nada.
- Precisamos ir - Falei para Alice.
Ela assentiu e nós saímos do quarto de Lisa.

Quarenta minutos.
Porra, como quarenta minutos passam devagar.
Quando chegamos, Lisa não estava sozinha: seus pais, Gabriel, Tay e Higor a olhavam, ela estava acordada.
- Você...
- Sim, Daisy, eu trouxe.
- Junte com as que estão nessa gavetinha aqui... - Ela se referia à gaveta ao lado da cama do hospital.
Assenti, as juntando.
E então ele chegou.
                              ******

Nenhuma.
Nenhuma.
Nenhuma dor é pior do que ver a pessoa que você ama na cama de um hospital.
Nenhuma dor é pior do que a possibilidade de perdê-la.
E nenhuma dor é pior do que a certeza de que você vai perdê-la.
Lisa estava mais gordinha, e meus olhos encheram de lágrimas quando notei o tamanho da sua barriga. Grávida. E eu não precisei nem ponderar, sabia que o filho era meu.
Quando Amora, a última a sair do quarto, apertou meu ombro direito, eu soube: ela estava me dizendo para me despedir.
- Você veio. - Lisa falou, acalmando meu coração. Porra, como eu sentia falta da voz dela.
- Você voltou. - Falei, me sentando na poltrona ao seu lado. Ela começou a chorar. - Ei ei...não... não chore, ok? - Falei, pegando em sua mão. Ela apertou a minha. - Eu estou aqui. Eu nunca mais vou embora, Lisa, eu nunca mais...porra! Eu não quero saber o que aconteceu, eu não quero que você fale nada, eu só quero que você entenda que eu estou aqui e que eu te amo, e que eu não vou embora. Eu nunca mais vou te perder de vista.
- Me desculpa...
- Está tudo bem, ok? Estamos juntos, Lisa, e quando você sair daqui, eu vou te pagar um suco decente. - Tentei sorrir.
- Ian, eu não vou sair daqui.
Ela já havia aceitado. Mas não, eu não aceitaria.
- Sou eu ou ela, Ian... - Ela falou, com dificuldade. - Sou eu ou Eloá.
- Eloá... é um nome lindo.
- Ela é sua agora. - Lisa fechou os olhos, sorrindo de leve.
- Ei...Lisa! Ela é nossa, Lisa. - Eu me sentei na cama, dando beijos em sua testa. - Ela é nossa. E nós vamos criá-la juntos. Ela vai ter seus olhos e meus cabelos, sua força e meu sorriso, sua alegria e minha determinação. Ela é nossa, Lisa.
- Fale de mim pra ela, ok? Não me deixe morrer nela, Ian.
- Não vou te deixar morrer de jeito nenhum. Você não vai a lugar algum, tá entendendo? - Eu já estava chorando. - Eu não vou deixar.
- Você precisa. Você tem uma companhia para realizar seus sonhos agora. - Ela me deu um sorriso lindo.
- Vocês duas serão minhas companhias. Vocês duas são o meu sonho. Eu não preciso de mais nada, Lisa, lute...eu estou aqui. Eu não vou mais sair de perto de vocês.
- A primeira gaveta, Ian... - Ela falou, tentando respirar.
E então eu abri a primeira gaveta, que revelou vários papéis juntos num clipe. Deviam haver no mínimo 30 folhas escritas frente e verso.
- Leia todos. Eles me deram um remédio pra amenizar a dor e eu preciso dormir...mas leia todos. Vou estar aqui quando você terminar de ler, vou acordar só pra te ver pela última vez, vou acordar só pra ver Eloá pela primeira vez. Eu prometo, Ian, eu vou acordar, só preste atenção neles, ok?
Eu assenti, chorando.
- Não chora, meu amor... Eu ainda estou... -Ela começou, mas o sono veio antes que pudesse terminar a frase. Dei um beijo em sua bochecha e me sentei novamente na poltrona, começando a ler.
"Diário de Quando te Deixei.
Dia 26. Para Ian Castelli..."

LISA [COMPLETO - EM REVISÃO]Leia esta história GRATUITAMENTE!