NOVE: ENTRE SOCOS E PONTAPÉS

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Na segunda noite, meu celular deu sinal de vida. Estava encolhida em minha cama, sofrendo das minhas dores do corpo e da alma e chorando um pouquinho quando ele começou a vibrar. Encarei a tela, vendo I.M. escrito nela, mas ignorei sua ligação. Assim que parou de tocar, suspirei e desbloqueei o aparelho, abrindo sua conversa. Haviam várias mensagens ignoradas por mim daqueles últimos dois dias.

"Como foi a empreitada?

Caçadora?

Caçadora, estou preocupado. O que aconteceu?

Você está aí?

O que houve com o site?

Estou realmente preocupado, quando possível, por favor, entre em contato".

Suspirei pesadamente e segurei o aparelho nas duas mãos para digitar uma resposta com meus polegares. Não sabia nem como lhe contar tudo o que tinha se passado desde a nossa última conversa, mesmo assim, lhe escrevi.

"Aconteceram muitas coisas, meu caro, e nenhuma delas acabou muito bem".

Por algum motivo, meu corpo achou que aquela era uma boa hora para começar a vazar pelos olhos. A lembrança do medo e da dor que senti apanhando, da briga com Bianca e Lisbela, fechou minha garganta e senti-me soluçar e ter dificuldade para respirar. Meu celular voltou a tocar cerca de trinta segundos depois e ainda estava soluçando, mas, de alguma forma, achei que ouvir a voz rouca e concisa do meu Investidor faria algum milagre ao meu humor porque atendi, apesar de estar ignorando todas as outras pessoas.

- Alô? - Murmurei, com a voz.

"Caçadora" consegui ouvir o alívio e adoração em sua voz e, mesmo com tudo dando errado, mesmo que ele fosse um completo estranho, mesmo que nossas conversas só se passassem de forma quase virtual e que eu não fizesse a menor ideia de como ele era, um sorriso se passou em meus lábios ao ouvir seu arranhado tom de voz murmurar meu nome. "Você quase me matou de preocupação".

- Eu quase me matei - proferi, sem medo de usar as palavras certas. Era verdade.

O Investidor segurou a respiração imediatamente. Um silêncio se fez presente em nossa ligação, enquanto ele pesava o uso das palavras, provavelmente decidindo se eu tinha exagerado ou não. Ouvi-o suspirar e, de alguma forma, soube que tinha decidido pela verdade nua e crua.

"Você sabe que esse serviço é perigoso, Caçadora". Disse. Só isso. Nenhuma lição de moral como as de Bianca, nenhuma proibição. De alguma forma, meu Investidor sabia o que era necessário e deveria ter uma ideia de que eu não planejava parar. "Coisas assim podem acontecer, mas você tem que tentar evitar. Se defender".

Flashs da noite que eu me arriscara vigiando os cafetões passaram pela minha mente e eu estava procurando pela maneira exata de como poderia evitar aquilo de novo. Ao falar que deveria me defender, lembrei de filmes americanos de luta... Aos poucas mulheres que vi lutando neles eram realmente muito boas e podiam dar cabo de três manés de uma vez. Quis, imediatamente, ser assim, mas só de tentar mover meu braço, doía.

- Eram três deles - murmurei. - Acharam que eu era repórter.

"Você estava disfarçada?" Ele perguntou. Havia um certo humor na sua voz.

Imaginei uma sobra de sorriso. Um lábio encurvado no escuro, fazendo piadas bobas sobre a minha empreitada. Uma dor forte me atacou, mas não havia nada físico desta vez - era em meu peito. Desejei que ele pudesse estar ali, me dando o apoio que minhas irmãs estavam me negando. O Investidor não duvidava da minha capacidade, brincava com minhas derrotas e comemorava as minhas vitória. Conversava e me ajudava com meus problemas. Era aquele tipo de companheirismo que eu procurava na minha vida.

[HIATUS] A Caçadora de CanalhasLeia esta história GRATUITAMENTE!