Capítulo 21 - Ivy

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A noite estava escura e em breve cairia uma chuva torrencial, revirei os olhos pensando na maluca dos raios, será que era tão difícil fazer chuva sem barulho? Cheguei a pouco no templo de Ravi, e como de costume estava maravilhoso, os aldeões sempre deixavam oferendas e velas para o Soberano da Coragem, mesmo naquele ano repleto de violência, o templo estava no mais perfeito estado. Irritada com tamanha perfeição me aproximei da grande estátua de Ravi e pendurei a fita dos meus cabelos na espada, me afastei para dar uma boa olhada. Lembro de quando era pequena e ele havia ficado furioso por eu ter enfeitado suas espadas.

-Admito que ele teve que ter paciência comigo. –Falo, minha voz ecoando nas paredes. Estico meus dedos para traçar a linha do maxilar do Ravi estatua, os Gardianos eram bons artesões, contudo não conseguiram captar essência do Soberano da coragem.

Sorrindo me peguei pensando nele, nos ombros largos, seu peito musculoso, cabelos espetados naquele belo tom de grafite, nos incríveis olhos azuis, na boca contra a minha, meu coração se aqueceu. No exato momento que entrei naquele salão e o vi, depois de cem anos fora, soube que estava perdida, ele apenas sussurrou meu nome e me apertou tão forte contra si que era como se fossemos um só ser. E naquele momento realmente pensei que fossemos.

Poderia o amor dominar um coração tão rápido? Céus, via isso acontecer frequentemente com Frantiesca, afinal andava sempre com a semi soberana do amor, mas nunca sequer pensei na possibilidade de acontecer comigo tão rapidamente, apesar de ter minha cota de paixonites, a paixão nunca foi algo forte. Infelizmente a soberana que cuida deste sentimento é Terna, e é tímida demais para deixar ele ser emocionante como o amor que sinto agora.

Carinhosamente voltei a passar a mão pelo rosto da estátua de Ravi. Precisava me manter afastada dele, para colocar a cabeça no lugar e descobrir o que eu sentia por ele, mas meu corpo teimoso, desejava seu toque, seus beijos e caricias, meu coração ansiava por estar sempre ao lado daquele que um dia disse, que jamais se casaria comigo, o que não deixa de ser engraçado, já que ele agora anseia que esse casamento ocorra logo.

O amor é uma coisa louca, não podemos dominar, não podemos escolher e sequer podemos resistir, só podemos sentir, e por todas as divindades, no fundo do meu peito, eu sabia que já o amava.

Meu suspiro feliz foi extinguido pela presença perversa.

- Sozinha minha bela Soberana? – Assustada fitei a porta do templo e me deparei com Dorpax, lentamente e sem tirar os olhos do inimigo desci da estátua puxando uma das flechas da aljava, fitei os olhos de Dorpax e não reconheci o que vi, mas meu corpo se arrepiou.

- O que faz aqui? Este lugar é proibido para você. – Disse fria. –Devo rechaça-lo com minhas armas?

Seus lábios foram um arco cruel. O fogo roxo que existe dentro dele aparece no fundo de sua garganta mas ele o detém, faz isto apenas para expor seu poder.

- Sim, tem toda razão, este templo não me é permitido, contudo cá estou. O que fará a respeito? Sugiro que venha para fora. –Ele faz uma pausa e passa a língua sobre o seu lábio superior, como fez quando eu era pequena. –Acredite ou não, estou ansioso por este confronto.

Como um semi soberano das trevas, Dorpax não poderia entrar em um templo de um Soberano da luz. Meu coração falhou uma batida quando vi algumas crianças humanas reunidas lá fora. Ele percebe ao mesmo tempo que eu e seus olhos brilham em uma clareira roxa doentia.

– Veja só, chegou outras opções a minha mesa. –Diz ele se movendo na direção delas. Meu peito explode com a raiva que sinto.

- Deixe-as ir. Ou perecerá sobre a fúria de sua soberana. – Arreganho meus dentes. Minha respiração torna-se pesada e minha mão segura uma flecha com força. – Vão para casa. – Digo carinhosamente para as crianças e elas desatam a correr.

Quando Dorpax faz um movimento para ir atrás delas, atiro a primeira flecha que encontra seu alvo no pescoço daquele ser imenso e antes que ele possa sequer piscar, cravo o punhal que carrego em sua barriga, com toda a fúria de uma soberana, me afasto e encaro enquanto ele urra de dor e arranca a flecha do pescoço, coloco outra flecha no arco e atiro mirando seus olhos, o sangue vermelho jorra daquele ferimento e Dorpax sorri alucinado.

No exato momento em que preparo uma nova flecha sou atingida pelo fogo roxo, o fogo queima minha coxa e naquele instante de distração, Dorpax se aproxima e me pega meu pescoço, apertando com força. Com uma das mãos ele aperta meu pescoço e com a outra em chamas soca minha barriga, uma, duas, três vezes, sinto que tento gritar e me afastar e ele sorrindo me atira contra uma arvore que se quebra.

Os raios e a chuva começam enquanto tempo me arrastar para longe dele, sou imediatamente chutada e rolo no chão sujando minhas vestes de terra, ele se aproxima e usando uma das flechas que arranca de si crava em minha barriga, eu grito enquanto ele sorri de forma cruel, como se estivesse se divertindo.

Meu corpo sabe o que fazer, depois de anos de treinamento, é quase automático pegar meu punhal e cravar em seu braço fazendo com que ele me solte, puxo a flecha da minha barriga e enquanto Dorpax retira o punhal, um raio corta a noite e com uma nova flecha atinjo seu outro olho.

As chamas descontroladas dele queimam tudo ao nosso redor, com exceção do templo de Ravi, percebo que preciso ir até lá para me proteger, vou me arrastando nas chamas, meu corpo inteiro queimando com aquele esforço, usando o pilar como apoio me levanto e com uma última flecha que atinge o coração, Dorpax desaba no chão desacordado, ele não deve demorar muito para voltar a prisão das trevas, sorrio com o pensamento.

Usando o que resta da minha força, entro no templo e me apoio em uma das paredes, meu corpo inteiro queima, dói e sangra, minha respiração falha e meu coração bate forte contra o peito, furiosa, volto para o Supremo Reino.

Caminho pelos corredores elegantes irritada, sei pela cara de alguns semi soberanos que encontro que não estou em bom estado, mas eles não me pressionam com perguntas, visto que pareço extremamente aborrecida, o que realmente é o caso. Vou até a sala de bebidas e surpreendo Terna, Ravi e Doriam, todos me encaram confusos, me concentro na soberana que fui até lá procurar.

- Estava na guerra? – Pergunta Terna apontado para mim. Fito meu reflexo no espelho e realmente estou bagunçada, minha pele está vermelha se recuperando das queimaduras e cicatrizando, meu vestido está parcialmente queimado deixando muito do meu corpo a mostra, mas ainda assim decente, ou um pouco decente.

- Maldição Terna. Por todas as divindades. – Reviro os olhos irritada. – Como deixou Dorpax escapar novamente? – Sua função é proteger os humanos e você deixa agonia a solta em Gardia? Eu que tenho que ir até lá, enfrenta-lo e fazê-lo voltar.... E você Doriam, acaso não o sentenciou a cinquenta anos na prisão, como ele fugiu?

- Você enfrentou Dorpax? – Doriam interrompe minha fala. – E venceu?

- Evidente que sim, como sempre, já que estou aqui em bom estado e ele ainda não voltou a consciência. – Suspiro. – Mas você deveria estar lá e impedi-lo...

Aponto para Terna.

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