Jhonny tem que morrer!

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A luz da lanterna me atingiu como um soco no meio dos olhos, fazendo pequenas estrelas surgirem na minha frente e me deixando momentaneamente cego. Não que estivesse vendo muita coisa antes, claro. Depois de passar pelo menos uma hora trancado num porta-malas fedido de um FORD velho, a visão não fica lá das melhores. Eu tentei manter o senso de direção, contando as distâncias e mentalizando as curvas. Mas só deu certo nos primeiros minutos. Mesmo se não tivesse acabado de levar a maior surra da minha vida, eu sabia que não adiantaria de nada. Por isso, quando o porta-malas abriu, e fui puxado para fora, só dava pra dizer que estávamos em algum lugar entre "vai-saber" e "não-faço-ideia". Seja lá onde quer que estivéssemos, o fedor do lugar me atingiu muito antes do que a visão pudesse focar em qualquer coisa.

- Chegamos. - Minha visão ainda não estava ajudando, mas deu pra reconhecer bem a voz. Bruno. "Big B", para os íntimos. Quando se dava uma olhada no brutamontes de quase dois metros, não era difícil entender o "Big". - Espero que tenha aproveitado bem a vigem.

- Vai ser a última da sua vida. - A voz anasalada também era inconfundível: Vinny. Eu sempre suspeitei que era uma abreviação para Vinícius, mas nunca perguntei por medo de soar uma pergunta idiota e irritar o sujeito.

Quando minha visão finalmente foi voltando, e o mundo ao meu redor voltou a ter forma, eu vi onde estávamos.

- Caras... - Sussurrei, ouvindo o chiado estranho que saia do meu nariz quebrado enquanto falava. - Vocês se superaram... Um pântano?

- O lugar ideal para cobras feito você, seu desgraçado. - Vinny disse abrindo aquele sorriso que mais parecia uma cicatriz.

- Essa foi boa. - Tentei me forçar a sorrir, mas o inchaço no lado esquerdo do rosto doeu e desisti. O sarcasmo ali não valeria a pena.

Eles me colocaram de joelhos, e senti uma dor percorrer meu corpo e subir pelos meus ombros quando minhas mãos, amarradas às costas, foram puxadas para o chão. Tudo girou um pouco e eu tive um acesso de tosse que me fez gorfar uma mistura nojenta de sangue, alguma coisa preta e... Meu almoço meio digerido?

- Mano... - Big B ficou de cócoras na minha frente. - 'cê tá só a capa, hein?

- Não é nada que uma aspirina não resolva, Big... - Falei tentando recuperar o fôlego.

Vinny levantou a camisa e puxou a arma que carregava na frente da cintura. Sempre falei com ele que ele perderia o pau se aquela merda disparasse, mas ele nunca me deu ouvidos.

- Eu tenho a sua aspirina bem aqui! - Vinny puxou meu cabelo e colocou a arma na minha boca. Depois deu uma risadinha de hiena. - E então? Qual é o gostinho?

- Femofoxtofafufetadafuairfã - Tentei falar com a arma entre os dentes.

Ele tirou a arma da minha boca e me deu uma coronhada violenta na têmpora, o que me fez cambalear e tudo apagou por um segundo. Lutei para ficar novamente de joelhos. Com os braços amarrados e todo quebrado, isso é quase impossível. Foi Big B quem me segurou e me ajudou. Ele foi quase cuidadoso, como se não quisesse me machucar mais. Ele sempre foi um cara gente boa, no fim das contas.

- Você vai morrer, filho da puta! - Vinny apontou a arma para o meio dos meus olhos. - Vai morrer e vai ser agora.

- Não tenho direito a um último pedido? - Murmurei.

- Não! - Vinny vociferou.

Depois ele respirou fundo e me olhou por um instante. Tirou a arma da minha cara e, finalmente, suspirou.

- O que é que 'cê quer?

- Eu preciso mijar.

- Vai se foder! - Ele gritou.

- Qual é, Vinny, você não vai mesmo deixar um parceiro morrer com vontade de ir ao banheiro, não é? - Forcei a melhor cara de pena que minha cara inchada, meu olho roxo e meu nariz quebrado permitia. - Onde está a ética da profissão?

- Ah, mas que caralho! - Ele bufou me dando as costas. - Tá, vai!

Big B me ajudou a levantar e eu fiquei parado olhando para os dois.

- Tá esperando o quê, porra?- Vinny bufou.

Eu olhei para a braguilha.

- Desamarra as mãos dele, Big B.

- Não adianta. - Eu respondi de imediato. - Ele quebrou meus dedos.

- Então o que você espera que a gente faça?

- Bom... - Dei de ombros, ignorando a dor por um momento. - Um de vocês vai precisar tirar ele pra fora, segurar e esperar eu terminar o serviço. - Vinny ficou me olhando sem reação enquanto eu ia falando pausadamente como se fosse a coisa mais natural do mundo. - E, claro, se for você, Vinny, vai ter que conter seus impulsos de colocar ele na boca.

O soco que ele me deu pegou, em cheio, no estômago. Eu cai de joelhos sentindo todo meu mundo ficar mais escuro e sendo encoberto pela neblina da inconsciência. Tossi violentamente enquanto tentava desesperadamente recuperar a respiração. Senti lágrimas escorrendo pelos meus olhos e, mesmo sem poder vê-las, sabia que elas estavam vermelhas de sangue.

Antes mesmo de eu me recuperar, mais uma vez, senti o aço frio da arma de Vinny na minha cabeça.

- Chega de perder tempo. - Ele rosnou entre os dentes.

- A gente não queria fazer isso, mano. - Big B ficou, mais uma vez, de cócoras ao meu lado. Ele colocou um cigarro na minha boca e o acendeu. Eu vi que ele estava usando o isqueiro que eu tinha dado pra ele no último natal, e isso, por alguma razão, me soou lisonjeiro. - Mas foram ordens do chefe. 'Cê sabe como é?

- Estamos juntos nisso há muito tempo, Big B. - Sussurrei. - Eu sei como as coisas funcionam. Não se preocupa, parceiro.

- Não é nada pessoal, Jhonny Boy. - Vinny falou, enquanto apontava a arma pra mim.

- Nunca é, Vinny.

Ele me olhou no fundo dos olhos e eu captei por um momento seu receio. Eu conhecia aquele desgraçado há anos, era o máximo de carinho que ele era capaz de demonstrar. Eu suponho que, se você vai morrer, melhor que seja pelas mãos dos seus amigos. Pelo menos eles estão querendo que você vá para um lugar melhor, não?

Ele puxou o gatilho.

Ouvi um barulho.

Veio o escuro.

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