SEIS: NICHOLAS

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Com o entardecer me lembro da promessa que fiz ao Derek. Ir à sua casa para comer algumas fatias de pizza, assistir à algum filme na Netflix ou simplesmente jogar videogame. Queria poder desmarcar, fugir do compromisso, dizer que precisei viajar ou sair com meus pais. Mas isso não iria funcionar, Derek me conhece tão bem que sabe quando estou mentindo. 

Depois de um bom tempo tentando me convencer à ir, acabo indo mesmo. 

Após bater duas vezes na porta, paro para esperar até que Derek abra; Sem camisa, trajando apenas um calção moletom, com os cabelos loiros bagunçados. 

— Oi. — falo com o tom de voz baixo, desviando meu olhar para o chão de madeira. 

— Oi. — Derek responde, dando espaço para que eu entre e então fechando a porta logo em seguida. 

Permaneço calado, analisando aquele lugar que conheço há bom tempo; A sala com apenas um sofá, um grande tapete no centro e uma televisão. 

— Como você está? — questiono, com os braços cruzados enquanto me aproximo do sofá. — Quero dizer.. com tudo isso que está acontecendo.

— Acho que quem merece uma resposta sou eu, Nicholas! — Derek repreende, de pé na minha frente. Seu olhar está tenso, sério. — Você disse que não via mal algum em entrarmos no desafio, eu disse que não ia concordar com o pedido do Adam para nos beijarmos e ainda assim você insistiu, ficando chateado no final. — ele continua. — O que aconteceu então? Somos amigos há anos, Nicholas, eu imaginei que uma besteira como essa não fosse abalar o que construímos durante tanto tempo, que não fosse abalar nossa promessa de estar sempre lá um para o outro, independente do problema. — Derek suspira, se sentando do meu lado no sofá. — Só por favor, me diz o que aconteceu, se você quiser parar por aqui, sem problemas, a gente para. Eu tenho uns trocados guardado para a faculdade, eu pago ao Adam. — sua voz parece fraca, mais do que calma. 

As palavras do Derek cravam-se em minha mente como se fossem disparadas de uma arma com a intenção de me atingir. Muita coisa aconteceu, coisas que eu nem posso conta-lo. Puxo o ar para conseguir me acalmar enquanto formulo uma resposta, soltando-o logo em seguida. 

— Eu fiquei com vergonha. — começo a explicar, deixando meu olhar fixo no chão de madeira. — Não com vergonha de você, mas com vergonha do que estávamos fazendo, andar de mãos dadas, nos beijar.. isso tudo acabou indo parar no site da ZaCo, as pessoas comentam sobre nós dois nos corredores, a Kim me olha com um desprezo fatal e eu soube que a Yuna sequer quer falar com você. — quando termino de falar, volto a olhar nos olhos do Derek que assente com a cabeça. 

— Nicholas, se o problema era vergonha do que estávamos fazendo, você poderia ter vindo conversar comigo, me afastar não iria resolver nenhum problema. E sobre a Yuna, é claro que eu gostaria de manter uma relação com ela mas entre uma garota que eu conheço há pouco tempo e uma amizade de anos, eu escolho você. — a mão de Derek pousa sobre meu ombro direito, apertando-o. — Se você realmente quiser acabar com isso, a gente vai até a casa do Adam e resolve tudo de uma vez. — ele diz, firme em sua decisão. 

— A gente vai continuar. Eu não deveria ter me deixado constranger por algo tão.. sem importância para nós dois, é um namoro falso, não é mesmo? — questiono, olhando em seus olhos verdes. — Não existe sentimento algum, nunca vai existir. É apenas eu e você contra o Adam e todos do colégio. Eu, você e o carro que ficará em nossas mãos por todo o fim de semana. — não sei como, mas um sorriso brota dos meus lábios no final daquelas palavras, se expandindo ainda mais quando recebo um abraço do Derek que bagunça meus cabelos quando se afasta. 

— É por isso que eu escolhi você como meu melhor amigo. — Derek diz, entre risos. 

— Na verdade fui eu quem te escolhi, ou esqueceu que quem te deu o carrinho foi eu? — pisco, mostrando a língua em seguida. 

— Tudo bem, tudo bem. - Derek cede, dando tapinhas em minhas costas. — Agora vamos ao que interessa, pizza? — ele pergunta, com o celular em mãos. 

— Pizza! — eu respondo, me jogando contra o sofá com as mãos para cima.

**

O resto da tarde passa sem que eu perceba, primeiro chega o entregador de pizza que sempre nos atendeu e depois de comermos quase todas as fatias, deixamos as sobras na geladeira. Com o sol indo embora, dando lugar para a lua que expõe seu brilho pela janela da sala, decidimos ir ao videogame. Cinco partidas de futebol, Derek ganhou três. Para não deixar o tédio nos consumir após o jogo, resolvemos pegar a lista telefônica da cidade para passar trotes, algo que não fazíamos desde nossa última viagem juntos para a casa da mãe do Derek. 

— É a sua vez. — ele diz, ainda rindo por conta do trote anterior. 

— Certo. — eu respondo, passando os dedos pelos diversos nomes da página amarelada até encontrar um que me interesse, acabo ligando para um açougue não muito longe dali. — Alô? O senhor tem pés de porco? — é o que eu pergunto, tentando segurar minha risada. 

— Temos sim, por quê? — o rapaz pergunta do outro lado da linha, talvez já conseguindo ouvir a risada escandalosa do Derek. 

— Shhh! — peço ao mesmo, batendo com meu cotovelo em seu braço. — Minha nossa! Deve ser difícil andar com eles, não? — finalmente libero minha risada que ecoa pela sala junto à do Derek. Rapidamente desligando o celular para não ouvir as reclamações do rapaz. 

— Essa foi muito boa. — Derek diz, encostando no estofado do sofá, com a respiração ofegante de tanto rir. — Precisamos fazer isso mais vezes. 

Concordo com a cabeça, tentando controlar minha risada. - Sim, nós precisamos. - respondo.

**

Dois potes de sorvete vão embora graças à mim e ao Derek, já passa das 01:45 da noite e a lua segue mais que intensa, forçando uma guerra contra as luzes dos postes que ilumina nossos corpos deitados sobre o gramado do quintal do Derek. Admirar às estrelas é algo que não fazíamos há muito tempo, um costume antigo que deixamos para trás quando nos tornamos "responsáveis". É bom tê-lo de volta. O vento frio atinge somente meu rosto graças ao meu velho e bom moletom cinza, Derek também está vestindo um, em cor preta. Não conversamos muito desde que deitamos aqui, é um lugar sagrado, para refletir. Tento contar as estrelas, nomeá-las em meus pensamentos que voltam à trazer para mim a sensação de fim. É o nosso último ano e Derek quer que eu vá para a mesma faculdade que ele para seguirmos juntos, como irmãos. 

— Ei. — falo em sussurro, ainda olhando para cima, para o céu em um azul escuro. 

— O quê? — Derek pergunta, também sem desviar o olhar. 

— Se você pudesse pedir qualquer coisa aos cosmos nesse exato momento, o que você pediria? —pergunto, mantendo meus lábios entreabertos. 

— Eu já tenho tudo o que eu poderia querer. Um bom pai, um bom amigo, uma boa casa. O que eu pediria? — Derek se vira para mim, meus olhos azuis olhando em seus olhos verdes. 

— Obrigado. — sussurro.

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