019 - Encontros dos desencontros

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É de sabedoria geral que não se deve classificar uma situação pelo que ela não foi. Mas se ao menos Mary tivesse olhado para o lado durante os sacolejos do ônibus...

Ou se Thed estivesse um pouco menos concentrado nas curvas da direção...

Ou se Margot não dormisse tão tranquilamente no banco de trás.

Nada daquilo teria seguido pelo caminho que seguiu.

Mas o que não tinha acontecido pouco importava, o que realmente chamava a atenção era que esse quase-encontro desencontrado aconteceu. E tinha potencial para mudar o curso das ações.

Mas não mudou. Tudo permaneceu na mesma. Enquanto Mary sacolejava descendo a serra dentro de um ônibus sucateado, Theodore e Margot subiam a mesma elevação à procura dela.

Em algum ponto com certeza os dois veículos se cruzaram, mas era difícil dizer com exatidão quando, já que nenhum dos três participantes do evento estava ciente de que ele acontecia.

O importante era que um pouco antes de Mary alcançar o pé da serra, Thed e Margot cruzavam os portões dourados que delimitavam a propriedade do Colégio Santa Tereza. Thed andava a passos largos, cheio de pressa e Margot levava suas perninhas ao limite na tentativa de acompanhar o pai.

– Vai mais devagar, papai! – a criança reclamou quando seus passinhos pararam de dar conta do ritmo da caminhada.

Thed bem que tentou, mas achou melhor pegar a criança no colo e seguir o caminho pelos corredores que, até a semana anterior, fizeram parte da sua rotina diária.

Thed bem que tentou muitas coisas.

Quase nada deu certo.

Não era à toa que ele estava de volta, cruzando a porta da sala que costumava fazer os trabalhos de contabilidade, só para se certificar que Mary não estava lá.

Ela não estava mesmo.

E no momento em que o fato foi certificado, Thed sentiu um vazio enorme. A sala estava vazia. Pura. Só tinha mesas e cadeiras de aparência lúgubre.

Engraçado como elas pareciam tão convidativas e lustrosas durante os dias que ele e Mary trabalharam ali. Estranho como as coisas mudavam de uma hora para a outra. Ele estava passando por grandes mudanças nos últimos dias, mal dava para digeri-las direito. Ou precisar quando começou aquela mudança toda.

Talvez com o beijo, ele ponderou.

Não que ele estivesse com tempo de sobra para ponderações. Aliás, muito pelo contrário, Margot se remexeu no seu colo, num claro sinal de impaciência.

– Papai, por que você está parado que nem uma estátua? – a menina indagou.

– Eu e a Noviça Mary costumávamos trabalhar aqui, lembra? – Thed explicou a filha sem conseguir evitar o tom de saudosismo na sua voz.

– Claro que lembro – a filha confirmou ao correr os olhos pela sala. – Mas ela não está mais aqui.

– É, não está – o pai concordou.

Era impressão dele ou sua filha estava tão desapontada quanto ele diante dessa constatação?

Independente de qual fosse a resposta, o sumiço de Mary só tinha uma solução. E foi Margot quem a vocalizou:

– Vamos procurá-la, papai. Ela tem que estar em algum lugar por aqui.

– Tem mesmo – pai concordou ao retomar sua caminhada.

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