CAPITULO 36- l i s a b e l a

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"Diário de Quando te Deixei
Dia 02- 05:45. Para Ian Castelli.
São quase 6 da manhã. Eu deveria te culpar, sabia? Foi culpa sua, eu estava nervosa quando comi aquela pizza inteira de margueritas com pepperoni.
A culpa é toda sua por eu estar sentada no chão do banheiro com a cara na privada jogando fora toda a pizza. Deus, Ian, você estragou até minha pizza."
"Você precisa levantar, tem aula daqui a pouco" eu repetia em pensamento. Óbvio que não funcionou. Apenas mais alguns pedaços de pizza jogados fora.
Eu nunca quis tanto que você se transformasse num pedaço de pizza.
*****
- Então, aquela garota ligou hoje. - Gabriel falou e eu vi o rosto de Ian se fechar num pedido silencioso de "cala a boca, Gabriel".
- Que garota? - Perguntei
- A menina do bar.
- Mas eu era a única menina no bar com vocês ontem
- Não com Ian - Gabriel deu risada.
- Que? - Perguntei, me virando pra Ian, que engasgou com a carne.
- Eu não sei de nada.
- Desde quando você esconde alguma coisa de mim?
- Qual é, Amora...
- Qual é o cacete! Que menina?
- Sei lá, uma tal de Samanta, ou Samika, não lembro mais.
A minha cara era um grande ponto de interrogação.
- De que merda você está falando?
- Meu Deus, Amora, você não era tão lerda assim antes de dormir. - Gabriel soltou. - Ian saiu com uma garota depois do bar ontem, depois de você ir embora com o Sorrisinho e o babaca acabou passando o meu número pra garota ao invés do dele.
- Estratégias... - Ian piscou, levando o copo de suco pra boca.
- Você é doente? - Fiz ele engasgar.
- Porra, Amora! Que merda é essa? - Ele perguntou, encarando o prato com arroz feijão carne e suco de goiaba.
- Eu é que te pergunto! Tá pegando varias por que?
- Você não é minha namorada! Nem a minha mãe! Eu sou de maior e faço o que quiser.
- Deus, Ian...se isso tudo for pra esquecer Lisa...
- Eu já falei pra você não citar o nome dessa menina nessa casa. - Ian falou, se levantando com raiva.
- Essa menina? - Eu fui atras - Essa menina é a menina que você ama! Só isso!
- E ela me ama por acaso, porra? Cadê ela aqui?
- Só pra te avisar, Ian, que você tá apagando fogo com fogo. Você mesmo vai explodir uma hora e não vai aguentar a dor que isso vai te trazer. Enfie esse seu pinto no buraco que quiser, Ian, eu não me meto mais.
Eu saí da sala furiosa. Ian estava parecendo um adolescente de 15 anos que terminou com a primeira namoradinha.
*****
Na escola de intercâmbio, sentada esperando o sinal da próxima aula, eu comecei a me lembrar de quando Ian Castelli não existia na minha vida. Todas as coisas que eu e Alice fazíamos...toda a liberdade que eu tinha.
Porém, todos os pesadelos. Todos as lágrimas que Ian pegou pra ele, todos os traumas que ele tentou retirar de mim...
- Brasileira? - Um sotaque diferente me trouxe de volta à Terra.
- O que me entregou?
- Não és branca.
- Sou o que?
- Cor diferente. - Ele sorriu e eu percebi que estava forçando um português bom.
- Gostei do cabelo. - Eu sorri. Ele era careca.
- Não posso eu dizer o mesmo.
- Não pode você ficar calado? - Dei risada. Ele me acompanhou.
- Zach Caleb. - Ele me estendeu a mão branca.
- Lisa Wengrov.
- Você tem pintinhas.
- São sardas. - Eu coloquei a mão no rosto, as indicando.
- Não! Não as tampe! São belas.
Eu sorri, envergonhada.
- Qual sua sala?
- Próxima aula tenho Economics Interactions.
- Eu também! Você é de que pais?
- Dinamarca.
- Uau! Meu filme preferido se chama Copenhagen.
- Copenhagen é uma cidade bela.
- Se diz "bonita". "Bela" é estranho. - Eu ensinei, dando risada. - Estranho e antigo.
- Eu sou estranho e antigo, bela.
- Qual é! Eu tenho menos de 25, e você?
- Sou 9 anos a mais que 25.
- Jura? - Eu realmente me surpreendi. Zach aparentava ter minha idade. Ele era bonito, a pele clara e os olhos verdes entregavam sua nacionalidade, e ele devia ser uns 20cm mais alto que eu.
- Palavra de escoteiro. - Ele levantou o dedo indicador junto com o do meio. Dei risada.
O sinal tocou e Zach foi minha dupla na aula de Integrações Econômicas. Sua presença era leve. Exatamente o que eu precisava.
- Sua casa onde fica?
- Depois da ponte.
- Sabe andar? - Ele indicou a bicicleta pública de Denver.
- Sei. - Sorri.
- Posso te levar pra casa? - Ele sorriu.
- Mas se eu quem vou pedalar, como é você que me levará pra casa?
- Ótimo argumento, bela, vou reformular...posso te acompanhar até em casa?
- Pode.
Nós subimos nas bicicletas e pegamos a ponte. O céu de Denver estava uma mistura de cores quentes que penetraram minha alma, me acalmando.
Após vários minutos, estávamos na frente do meu apartamento.
- Fico aqui. - Falei, estacionando a bicicleta e sorrindo. - Obrigada pela companhia, Zach Caleb.
- Tive o prazer, Lisa bela.
Eu sorri, abrindo a porta pra entrar em casa.
- Lisa? - Ele chamou. E o sotaque fez meu nome parecer "Lissa".
- Diga.
- Haverá uma festa amanhã no cais. Posso te levar? Eu passo pra te buscar as 20h.
- Pode. Como devo me vestir?
- Vista o que quiser.
- Chique ou não?
E então ele subiu na bicicleta, indo embora.
- ZACH! - Gritei. Ele deu risadas e olhou pra trás.
- Vista o que quiser, bela!
Quando entrei em casa, eu estava sorrindo. Então ignorei todos os pensamentos sobre Ian, me prometendo tentar criar uma nova vida.
*****
- Eu sinto falta dela todos os dias. - Falei, me sentando na cama de Amora, ela me encarou com os grandes olhos gêmeos do meu. - E eu sei que combater fogo com fogo não é uma ideia boa, mas eu preciso tirá-la da cabeça, princesa, nem que seja por alguns minutos.
- Volte ao trabalho, Ian, arranje alguém que realmente te interesse! Não uma Samika ou Samira qualquer, não é assim que funciona...
- Eu a vejo até em você. Ela te ensinou tanta coisa que vocês são ate parecidas.
- Eu a admiro muito, Ian, e sei que ela te amava... E eu não sei onde ela está, mas sei que estamos com ela. Sei que a veremos de novo.
Eu assenti, mesmo que não concordasse com Amora.
- Não sei se quero vê-la de novo.
- Não? - Ela se assustou.
- Ah, ela não tem esse direito, sabe? De ir e vir, entrar e sair da minha vida como se fosse um jogo, uma brincadeira. Eu a amo, e parte de mim vai amá-la pra sempre, mas estou pronto, Amora...pronto pra amá-la de longe, pronto pra não encarar aqueles olhos castanhos de novo. Eu estou pronto pra aceitar que eu já tinha uma vida antes de Lisa Wengrov.
*****
Quando Ian entrou chorando no meu quarto, eu considerei contar a ele onde Lisa estava, porque eu sabia até o endereço, já que Alice havia me contado. Mas quando percebi que meu irmão estava se esforçando, eu decidi ficar quieta...eu precisava de Ian de volta. E de Ian feliz. Está tudo bem ser jovem e se apaixonar, contanto que esse amor não te destrua. Contanto que esse amor não seja tóxico.

LISA [COMPLETO - EM REVISÃO]Leia esta história GRATUITAMENTE!