Capítulo XIII

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Meu coração foi rasgado. Senti uma dor insuportável ao ter que dizer aquelas mentiras para meu amor. Vê-lo com lágrimas nos olhos, sem brilho no olhar, era um martírio. Entretanto, era necessário.
A carta que deixei em seu bolso era a ponte para nossa felicidade. Nela, expliquei o porquê de ter dito todas aquelas asneiras: faria o que meu pai mandasse, ele tinha de acreditar. Disse que o amava, mais do que a mim mesma, combinei a hora e o local da fuga e pedi desculpas por tudo o que tive de falar.
Muito em breve, estaria longe de Keslieve, junto de meu amor.

Papai acreditou em minhas palavras amargas. Voltamos para o castelo, eu sequer comi. Estava ansiosa. Na manhã seguinte, Alec e eu partiríamos para uma nova vida. Tranquei-me no quarto e aguardei. Orei durante horas, até adormecer.

Nunca imaginei que viveria tamanha aventura. Descobri que, depois de Deus, o amor era isso: uma aventura. Apenas os corajosos eram capazes de aventurar-se com tal sentimento. Muitas vezes, o amor podia ser traiçoeiro e acabar com todo o resquício de sentimentos existentes em um coração pulsante. Eu estava prestes a aventurar-me e, sinceramente, estava animada para vivenciar cada instante, junto daquele que amava.

Acordei antes mesmo de amanhecer. Coloquei o vestido mais confortável e terminei de me arrumar. Antes de sair, dobrei meus joelhos e falei com meu Pai celestial.

— Deus... obrigada por mais um dia de vida, obrigada por me amar e por ter colocado Alec em meu caminho. Tenhas misericórdia de mim, sei que tenho muitas falhas e peço que me perdoes. Sê comigo ao longo da jornada que irá começar. Que Alec e eu possamos ser muito felizes juntos e que possamos constituir uma bela família um dia. Peço que tenhas misericórdia de papai. Que ele possa lembrar-se de Ti e retornar aos teus braços. Tenhas misericórdia de mamãe, Ravena, tio Edmundo e de todos aqueles que não acreditam na tua existência. Que, de alguma forma, aqueles que não te conhecem venham conhecer-te e que aqueles que esqueceram de ti, possam lembrar. Que Valência retorne às origens, que todos os habitantes do reino lembrem-se de seu verdadeiro Rei. É uma vida nova que se iniciará hoje. Que tudo corra como planejado. Que os pais de Alec fiquem bem e que, assim como nós, possam deixar Keslieve são e salvos. Entrego nossas vidas a Ti. Amém!

Sorrateira, saí de meus aposentos. Os corredores estavam vazios e silenciosos. Os guardas, que deveriam estar de prontidão, dormiam profundamente. Assim que deixei o palácio, caminhei para o local em que sempre me encontrava com Alec. Confesso que estava assustada, afinal, o bosque não era muito convidativo à noite, ainda mais, sem meu amor ao meu lado. Quieta, sentei-me em uma das pedras e aguardei. Sabia que ele não iria demorar a aparecer. Informei o local e a hora correta na carta. Logo, logo, estaríamos juntos, para sempre. Apenas nós, nosso amor e Deus

Eu estava com medo. Horas haviam passado, estava quase amanhecendo e ele não apareceu. Não conseguia entender o que estava acontecendo. Alec amava-me, certo? Ele não iria deixar-me, quando mais precisava dela. Ele apareceria e fugiríamos juntos. Casaríamos, teríamos nossos filhos e seríamos felizes. Como ele disse, nossa história de amor era semelhante a de Romeu e Julieta, entretanto, o final seria diferente.

Ouvi barulho de passos. Fiquei alerta, imediatamente. Pus-me de pé assim que vislumbrei os rostos de meus pais e tio Edmundo. Meu coração apertou no peito e estava emocionalmente frágil, a ponto de chorar.

— Luna... vamos voltar para o palácio. — titio aproximou-se.

— Não. Ele vai vir. Tio, ajude-nos, por favor. — sussurrei, deixando a fraqueza transparecer, através das lágrimas que começavam a rolar.

— Venha conosco, Luna. Estou pedindo.

— Mas, tio... O Alec vai vir.

— Filha... — papai fitou-me com certa tristeza no olhar. — Eu juro que eu não tive nada a ver com o que houve.

— O que aconteceu? — crispei os olhos. Um silêncio ensurdecedor instalou-se. — Diga! — aumentei a voz.

— Os soldados keslianos estavam fazendo buscas aos cristãos que estavam escondidos no reino. Eu sinto muito.

Eu senti uma facada no peito, Junto da imensa vontade de gritar. Eu não conseguia acreditar. Não podia acreditar! Eu sabia que Alec viria. Talvez, fosse apenas papai tentando impedir minha fuga. Alec e eu seríamos felizes em outro reino. Alec prometeu-me que tudo ficaria bem.

— Não! Isso é mentira. O senhor não quer que eu vá embora e está mentindo. O Alec vai aparecer. Ele vai aparecer. — gritei, sentindo uma dor aguda no coração.

— Luna! Alec e seus pais foram mortos. — papai gritou.

— Não! Não! Não! — balançei a cabeça em negação. — Isso é mentira. É mentira! É mentira!

Sem olhar para trás, comecei a correr, em direção à cabana de Alec. Ele estaria lá. Ele iria envolver-me em seus braços, como sempre. Papai estava mentindo.

Meu coração sangrou. Caí de joelhos diante da cena mais cruel que já havia visto. A cabana estava com a porta aberta. Porém, o que fez meu coração sangrar foi um corpo queimado. Era ele. O meu Alec, o meu amor. O anel que lhe dei estava caído ao seu lado. Seu corpo estava irreconhecível. Eu queria morrer naquele momento. Trêmula, levantei-me e corri até a cabana. Foi mais uma facada no peito. Uma espada transpassava o senhor Fred e a senhora Rose... ah, ela estava debruçada sobre a cama, morta.
Sabia que meus pais e tio Edmundo contemplavam minhas lágrimas desesperadas. Mas não importava. Nada mais importava.

— Senhora Rose... — abracei-me a seu corpo desfalecido. — Perdão... perdão. Eu sei que eu disse que iria fazer o possível para proteger o nosso Alec... me perdoa, senhora Rose. — meus soluços dominaram o local.

Soltei seu corpo e continuei ali. Prostrada, ferida, com o coração partido. A dor era inenarrável.

— Alec... — sussurrei. — Por quê? Por quê? Eu... eu te amo tanto. Tanto, meu amor.

Eu não conseguia imaginar um mundo sem ele. Alec tornou-se meu amigo, meu companheiro. Depois de Cristo, foi o maior presente que Deus concedeu-me.

— Não! — gritei.

Foi um grito abafado pelas lágrimas. Um misto de dor, de tristeza, de raiva.

— Filha... olha pra mim, por favor. — mamãe colocou meu rosto entre suas mãos. — Fica calma.

— Eu amava Alec, mãe. Amava. Arrancaram a felicidade de mim. Arrancaram parte do meu coração e parte da minha vida. Não mataram apenas Alec e sua família. Esses assassinos me mataram também.

Tamanha dor que me consumia, minha cabeça começou a girar. Antes de desmaiar, minha última visão foi o corpo daquele que tanto amei.

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"Por que te abates, ó minha alma? E te comoves, perdendo a calma? Não tenhas medo, em Deus espera. Porque bem cedo, Jesus virá."
Harpa Cristã, 193

Coração ValenteOnde as histórias ganham vida. Descobre agora