Capítulo XII

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Sempre achei o amor que existia entre Romeu e Julieta tão bonito. Porém, quando senti na pele o que eles sentiram, não foi tão belo assim. Depois que meu pai deu seu veredicto, todos saíram do quarto. Tio Edmundo, foi o único que me deu um abraço. Nem mamãe. Eu estava debulhada em lágrimas, pedindo o auxílio do céu. O coração batia depressa, meu pensamento variava entre minhas súplicas e Alec. Como gostaria de um abraço seu naquele momento. Meu cérebro estava a mil, tentando encontrar a melhor maneira para pôr meu plano em prática. Sim, eu tinha um plano. Não sabia quanto por cento de chance havia de funcionar, no entanto, se eu não tentasse, nunca descobriria e estaria fadada à infelicidade.

As horas passavam devagar, para minha tristeza. As lágrimas já haviam cessado, ficaram apenas os soluços de tanto chorar. Com as mãos trêmulas, peguei tudo o que precisava para escrever uma carta. Tentei ser rápida e formular as palavras da melhor forma possível, tentei não chorar sobre o papel. Apenas tentei. Eu estava com medo. Tinha medo de perder Alec, de que algo ruim acontecesse com ele ou com seus pais. Sinceramente, minha própria vida já não era mais tão importante. Se eu morresse por amor ao Evangelho, teria uma morte feliz e digna. Se Alec morresse por minha culpa, sentiria no peito uma dor profunda, que até poderia não me matar de forma literal, mas doeria mais do que qualquer ferida.

— Luna? — Ravena adentrou meus aposentos. — Podemos conversar?

— Diga.

— Vamos conversar no jardim.

— Não quero sair.

— Por favor.

— Mais do que nunca, acredito na existência de Deus, afinal, você aprendeu a dizer por favor. — desdenhei.

— Só estava tentando ser gentil. Sei que está sofrendo. Nunca se ajoelharia diante de papai, imploraria... esse garoto deve ser muito especial pra você.

— Ele é. — sorri ao lembrar de meu Alec.

— Vamos conversar lá fora. Venha.

Minha irmã puxou-me até o jardim. Assentamo-nos em um dos bancos e observamos as belas tulipas.

— Por que decidiu conversar agora? Você disse que eu deveria morrer. — encarei-a.

— Eu excedi-me. Perdão. Porém, suas atitudes foram incoerentes e egoítas. Não pensou no bem de Valência?

— Você nunca se apaixonou Ravena. Quando isso acontecer, você entenderá. Não cabe a mim julgá-la.

— Como é? — crispou os olhos.

— Como é o quê?

— Como é estar apaixonada?

— É... — sorri. — É estar disposto a morrer pela pessoa, é amá-la com todas as forças e tê-la como um presente, enviado por Deus.

— Não fale desse Deus. Ele arruinou sua vida, irmã.

— Muito pelo contrário. Só passei a viver, a partir do momento que O conheci. Deus deu um sentido para a minha vida.

— Você enlouqueceu, Luna! — ela balançou a cabeça em negação.

— Talvez... mas diferente de você, eu estou vivendo. Sei que tudo pode dar errado. No entanto, eu sei que Deus está cuidando de mim. Sei que seus planos são perfeitos. Cabe a mim confiar nEle e no que Ele pode fazer.

— Se nosso pai escuta isso... não quero nem pensar no que ele pode fazer com você.

— Não tenho medo da morte, se for o caso. — eu estava séria.

Minhas palavras nunca foram tão firmes. Se necessário, eu morreria por amor ao Evangelho. Não seria capaz de negar um Deus que tanto me amou. Um Deus tão lindo.

— E do que a morte tira de você? Isso não te assusta?

— Em parte... só tem um detalhe: Jesus venceu a morte. Portanto, se a morte tirar alguma coisa de mim, é com a permissão de Deus.

Discutimos durante horas. Ravena não parecia mais ter argumentos para tentar contestar a existência do Criador. Eu exercitei minha fé a cada resposta. O Espírito Santo concedia-me as palavras certas. Era meu guia.
Já estava quase escurecendo, quando papai e tio Edmundo aproximaram-se.

— Já está na hora. — meu pai estava sério. — Vamos.

Meu coração apertou no peito e engoli em seco.

— Só tenho que pegar uma coisa.

— Você não sai daqui, mocinha. Edmundo, pega pra você.

— Tio, tem uma carta sobre minha mesa. Quero que a traga pra mim. Por favor.

— Certo.

Alguns minutos depois, meu tio voltou, com a carta em mãos. Ele entregou-me o papel. Apenas papai e eu seguimos pelo mesmo caminho que fiz durante várias semanas.

— Vai dizer a ele que não mais o quer e que ele não significa nada pra você.

— Não me peça isso...

— Então, ele e sua família serão mortos. Ou achou que eu nunca descobriria sobre a família do incompetente?

Senti as lágrimas começarem a rolar. Apenas assenti. Assim que chegamos ao local combinado. Sob a luz do luar, avistei meu amor. À medida que me aproximava, era como se um punhal atravessasse meu peito.

— Minha Lua...

Estava prestes a abraçá-lo, quando papai impediu. Lancei-lhe um olhar significativo. Creio que Deus tocou no coração de meu pai, fazendo-o afastar-se.

Abracei Alec e chorei em seu ombro. Aspirei seu cheiro e senti o calor de seu corpo.
Coloquei a carta em seu bolso, junto do anel que havia ganhado quando completei quinze anos. Ele percebeu.

— Você está bem? — seus olhos encontraram os meus.

— Graças a Deus. E você? Como seus pais estão? Eles devem me odiar.

— Não diga besteiras. Estamos orando. Tudo ficará bem. Farei o que for preciso para ficarmos juntos.

— Não fará. — engoli o choro e abafei a dor.

— O que está dizendo?

— Somos incompatíveis, Alec! Você é um plebeu e eu sou uma princesa. Nosso breve romance foi interessante... mas você não pode me dar o que eu quero.

Cada palavra dita, matava-me interiormente. O olhar de meu amor tornou-se confuso. Não havia mais brilho, havia dor.

— Luna... eu te amo. Você pediu-me em casamento.

— Vou casar-me com o conde. — engoli em seco. — E eu não te amo. — não tive coragem de encará-lo.

— Diz que não me ama, olhando pra mim. — ele segurou minha mão.

Um choque percorreu meu corpo. Inevitavelmente, encarei-o. Seu olhar era convidativo, tudo nele era convidativo.

— Eu não te amo. — lágrimas rolaram de meus olhos.

— Estão ameaçando a mim? — sussurrou.

— Não. Eu escolhi alguém melhor do que você, alguém digno de mim. — juntei todos os meus cacos para encará-lo.

Mas minha emoção era traiçoeira, por mais que eu tentasse reprimir as lágrimas, elas insistiam em banhar meu rosto.

— Mais bela que a lua. — ele sussurrou, com lágrimas nos olhos, assim como eu. Então, desprendi-me de seu toque e parti, com a certeza de que meu amor permaneceria vivo, mesmo que para isso, eu tivesse de morrer.

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“Considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança. […] Feliz é o homem que persevera na provação, porque depois de aprovado receberá a coroa da vida, que Deus prometeu aos que o amam.”
Tiago 1: 2-3, 12

Coração ValenteOnde as histórias ganham vida. Descobre agora