CAPÍTULO 1 - LONGE DE CASA

52 4 10



CAPÍTULO 1 – Ep.01



Biiiiiiiiiiiiiiiiiii!!! ─ Um carro buzina enquanto passa apressado, Antônio corre para não ser atropelado.

─ Povo maldito. ─ Antônio fala com raiva, enquanto tenta limpar a sujeira em sua calça, vinda de uma poça d'água na qual o carro passou. Esse foi o começo de mais um dia de trabalho para Antônio, mais um dia em sua rotina sufocante.

Após atravessar a cidade suja e barulhenta, Antônio chega ao seu destino, vai para o banheiro trocar de roupa e começa os seus afazeres.

─ Ei, Antônio! Largue essa vassoura e vá ajudar os outros a descarregar a mercadoria. O caminhão já chegou. ─ O encarregado dá as ordens.

Antônio é o faz tudo na loja em que trabalha. É eletricista, faxineiro, carregador, entregador, office-boy, enfim, todo tipo de trabalho que aparece ele faz. Seu verdadeiro nome é Kûara1, um nome que lhe foi dado por seu avô, mas desde que abandonou o seu povo, ele decidiu escolher um nome comum entre o povo da cidade grande e, como se sentia somente mais um rosto no meio da multidão, quando lhe perguntaram pela primeira vez qual era o seu nome, ele se lembrou do nome que leu no crachá do motorista do ônibus que o deixou na selva de pedra.

─ Meu nome é Antônio. ─ O homem repete baixo para si mesmo enquanto guarda a vassoura em um canto e segue rumo ao caminhão que descarregava a mercadoria no fundo da loja.

Andando até o caminhão, Antônio se lembra de uma conversa com seu pai.


─ Não faz sentido algum o que você está me dizendo! O que lhe falta aqui? ─ disse o Cacique.

─ Não sei. Mas meu coração me diz que preciso conhecer o mundo. A vida na aldeia já não é a mesma. Parece que nossos ancestrais nos abandonaram, tudo aqui parece uma encenação, um grande teatro... é tudo muito artificial agora, pai.

─ Você enlouqueceu, Kûara? Essa ainda é a terra dos nossos ancestrais, é claro que eles não nos abandonaram...

─ Quando ainda era criança, eu conseguia sentir a presença deles, mas agora a aldeia parece morta, parece sem Espírito. ─ O cacique andou enfurecido de um lado para o outro enquanto olhava, de forma dura, para o filho. Então parou em frente ao rapaz.

─ Mesmo que essa loucura toda que você está dizendo fizesse algum sentido, ir se humilhar nas terras dos brancos não te levará a reencontrar nossos ancestrais... Se tornar um escravo em subempregos e morar em casas sem dignidade alguma não fará você se sentir melhor. ─ O cacique disse, de forma firme. Kûara ficou sem resposta. ─ Eu desisto. ─ O cacique saiu da casa e seguiu para o rio, para tentar se acalmar enquanto pescava.


─ Ei, Antônio! Você não tem super poderes. Pode carregar só uma caixa por vez. ─ Um dos carregadores comenta ao ver Antônio levando peso em excesso sobre o ombro, ele queria terminar logo aquele serviço. O encarregado o observa de longe.

─ Olhe só! ─ Um dos gerentes diz, ao se aproximar.

─ O que é, Geraldo? ─ pergunta o encarregado.

─ Esse Antônio...

─ O que tem ele?

─ Não sei. Mas ele não é como os outros.

─ Claro que não... Antônio é um índio!

Índio?

─ Sim. Nasceu em tribo e tudo mais. Alguém comentou que ele é filho de um cacique.

─ Cacique?

─ É... ─ O gerente faz uma expressão de desprezo. ─ Mas pra mim índio é tudo igual. Se fosse algo importante ser filho de cacique, ele não teria vindo trabalhar de peão na cidade, né... ─ O gerente sai, após dar um leve tapa no ombro do encarregado, que continua analisando Antônio.


--------------------

¹Kûara: Sol (tupi antigo).

Kûara - O Filho do SolLeia esta história GRATUITAMENTE!