Capítulo Um

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Levanto a cabeça e vejo a professora de Finanças Corporativas caminhando pelos corredores da sala, entre as cadeiras, entregando cópias de "Princípios de Finanças Corporativas", sobre o qual devemos entregar uma resenha até o início da semana que vem. Estou sentada na sala 3A, na qual graduandos do curso de Ciências Econômicas cursam o oitavo e último semestre de aula.

Abaixo a cabeça de novo. Não sei como vou fazer para entregar essa resenha com todas as outras que já estão pendentes, as provas finais chegando e o trabalho na correria que está.

- Julia! - chama Marina, minha melhor amiga e colega de faculdade. Eu me assusto e levanto a cabeça rapidamente.

- Nossa, que susto! O que foi?

- Vamos, a professora já nos liberou e ainda quero dar um pulo no banheiro. Então, está de pé nossa noitada no sábado?

Recolho meus materiais e, como de costume, deixo cair um dos livros com minhas mãos de gelatina. Sigo Marina em direção ao banheiro e fico pensando se não é melhor ficar em casa dessa vez, focada nos trabalhos acumulados, ou se deixo para depois e mantenho a promessa de comemorarmos seu aniversário numa balada.

- Ai, Marina, não sei... sei que te prometi que iria, mas com mais esse trabalho de Finanças Corporativas, está ficando difícil. E se deixarmos a noitada para outro dia e formos a um barzinho? Assim a gente não chega tarde em casa e consegue fazer todas essas resenhas.

- Ah, não, Julia, dessa vez vou comemorar decentemente! Ano passado já tive que desmarcar por causa daquele trabalho de Macroeconomia. Dessa vez, não! Festa sim! - diz Marina, entusiasmada. E não tenho como negar.

- Tá bom - respondo, um tanto contrariada.

Marina é aquele tipo de pessoa com quem se pode contar para qualquer coisa: desde o trabalho da faculdade até algum problema pessoal sério. Embora seja baixinha, ninguém deixa de notar sua presença, não importa o lugar. Ela tem cabelos pretos, crespos e curtos, estilo blackpower, imponentes e maravilhosos. O tipo de mulata que deixa qualquer homem babando por seu corpo escultural: seios fartos e quadris com formas voluptuosas. Com a pele da cor do pecado, Marina não tem problema nenhum em chamar a atenção de quem quer que seja. E, para completar, é uma eterna romântica. Por isso, já perdi as contas das vezes em que se lamentou de ter o coração partido por homens cafajestes.

Chegando ao banheiro, lembro que comi algumas castanhas-do-pará no intervalo e dou uma checada em meus dentes, para ver se tudo está em ordem. Aproveito e dou uma olhada geral no visual. Não tenho muito do que me queixar: cabelos loiros escuros, um pouco abaixo dos ombros; olhos castanhos esverdeados em um rosto de traços delicados, porém marcantes; as bochechas, sempre acentuadas, ladeiam lábios bem definidos e um pouco carnudos; meu nariz compõe a face proporcionalmente. Por causa de minha origem polonesa e alemã, sou alta, com 1,75m. Tenho minhas curvinhas, e ficaria feliz em perder alguns quilos, como qualquer mulher. Meus seios e quadris não chegam nem perto dos de Marina, mas têm sua presença.

Sorrio para o espelho e vejo um pedaço de castanha bem nos dentes da frente, para variar. Tento tirar com o indicador, enquanto Marina dá descarga na cabine onde está. Saindo de lá, pergunta, apressada:

- E o Carlos? Vocês têm se falado?

- Não. Acho que ele será mais um na lista dos relacionamentos-relâmpago.

- O que aconteceu, Ju? Ele parecia um cara tão gente boa. Vendo vocês dois naquele barzinho, achei que o lance ia evoluir...- diz Marina.

- Mas evoluiu. Eu me diverti bastante com ele naquela noite. Sexo razoável - respondo, ainda tentando tirar a castanha dos dentes.

Vênus sobre a conchaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora