XXIII

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Eu adormeci nas minhas próprias lágrimas 

Eu grito para o mundo, para todos  E eu construo um barco para flutuar
Eu estou flutuando para longe

Não me lembro a última vez que abri meus olhos para ver o mundo tão bonito 

E eu construí uma gaiola para me esconder  Estou escondendo, estou tentando lutar a noite
(Aurora - Warriors)

***

Consigo ouvir os batimentos do meu coração. Consigo ouvir, os batimentos do coração dele. Consigo ouvir o barulho das lâminas se chocando. Consigo ouvir o barulho de nossas respirações aceleradas. Mas fora isso, não ouço mais nada.

Às vezes reclamamos do quão barulhento o mundo é, mas não percebemos que sem esses ruídos, que às vezes são tão comuns no nosso dia-a-dia, e que por muitas vezes ignoramos, não teríamos nada. Somente um grande e perturbador silêncio, ou melhor, um silêncio gritante.

Meus braços cederam um pouco com a pressão que ele exercia sobre mim e vendo que eu não ia aguentar muito, lhe dei um chute no estômago fazendo-o recuar. Dei uns passos pra trás, a respiração acelerada, mas sem ter tempo para me recuperar devidamente já que ele partiu pra cima de mim de novo, só que com mais fúria que antes.

Virando a adaga nas minhas mãos revidei com todas as minhas forças seus golpes.

_Gostei da cicatriz, bonitão. O que acha de ganhar outra?

Ele riu com escárnio – Com essa coisa pequena você não vai conseguir nem me arranhar.

Levantei uma sobrancelha – Ah é? E com isso?

Na mesma hora retirei o bastão que estava preso em minha cocha e o rodei em mãos ao mesmo tempo que apertava seus botões para transformá-lo na foice.

_Ela é afiada dos dois lados – bati ela uma vez no chão e do lado oposto que fica a lâmina encurvada da foice, outra lâmina apareceu, lembrando muito uma lança.

Drevak tombou a cabeça pro lado enquanto a avaliava e por fim deu de ombros – É... talvez com isso você consiga.

Ele não esperou para me atacar novamente com sua espada, mas dessa vez consegui bloquear os seus movimentos com mais facilidade já que estava com uma arma que tenho o costume de usar. Dessa vez, não posso comparar essa luta a uma dança já que é bem mais agressivo e preciso em seus golpes, além de não ser nada fácil adivinhar seus próprios movimentos, fora que ele está com a intenção bem clara: me matar.

Ou talvez, só talvez, me deixar machucada o suficiente para não lutar mais. Agora a questão é: por quê?

Pequenas faíscas saíam a cada contado de nossas armas, o som de metal contra metal repercutindo cada vez com mais intensidade, e apesar de não ser uma "dança", isso parecia música em meus ouvidos.

Me afastei um pouco dele, respirando fundo, fechando os olhos e me concentrando. Escutei seus passos ao se aproximar rapidamente, e então, girando o meu corpo para dar mais força a foice cortei o ar em sua direção, jogando uma forte rajada contra ele, fazendo-o cair e rolar no chão sem conseguir se firmar direito.

Olhei para o meu reflexo na lâmina, vendo meus olhos brilharem azuis gelo, indicando que eu dobrei o ar. Fui atraída pelo reflexo do ser sentado no peitoril do prédio, bem perto da gente, sua máscara e capuz me impossibilitando de ver o seu rosto, mas seus olhos bicolores brilhavam com curiosidade enquanto me fitava, e de novo, senti que eles eram estranhamente familiares.

Guerreiros do AmanhecerWhere stories live. Discover now