Capitulo Dois

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– Você ta me dizendo que ficou presa no elevador com Adam? – Ela se vira para mim. – O famoso Adam Lisboa?

            Mariana é a minha melhor amiga desde a nossa primeira faculdade. Ela era garota que sempre chamou atenção pelo seu jeito excêntrico de ser. A garota que me ensinou a não se importar com a opinião alheia e ela consegue emanar essa verdade só de você olhar para ela com seus longos cílios, pálida, cabelo negro como breu e roupas alternativas.

            – É, fiquei. Na verdade foi puro transtorno... Eu simplesmente não conseguia encará–lo. Mas isso faz tempo, algo sem importância.

            Gisele, sobe o zíper do vestido da Mariana e sorri para o pedaço de pano modelando o corpo da minha melhor amiga.

            – E o que achou dele?

            – Como assim “o que achou dele”?

            Ela revira os olhos para mim e puxa a cauda de seu vestido para se sentar ao meu lado como se tivéssemos quinze anos de idade e estivéssemos conversando sobre a nossa primeira vez. Estranho, muito estranho.

            – Como pessoa, Malu! Ele é legal?

            E ai, no meio do turbilhão mental da minha vida vem o rosto do Adam sorrindo para mim e a sua camisa de linho manchada de suor e os seus olhos que encolhem como de tal maneira quando sorrir... E eu paro. E eu me recordo daquela época. Aquela de quando ele era o melhor amigo do Lucas.

            – Você ta cansada de saber que sempre achei o Adam um patife. E eu já te disse, Mariana, aqueles personagens da tevê são apenas personagens. O Adam não é o Sr. Darcy em pessoa. Ele é repulsivo e usa essa beleza como arma para cegar as pessoas bobas como você. Ele não presta, nunca prestou.

            Mariana se levanta e faz uma careta.

            – Argh. Cê não pode julgar uma pessoa de acordo com os anos de colegial que passou com ela. Já se passaram seis anos, Malu. As pessoas mudam.

            – Tá, pode ser. – Levanto–me para que Gisele ajuste meu vestido pela última vez. – Mas não o Adam. As revistas tão ai para não me deixar mentir...

            – Você como nenhuma outra deveria saber que as revistas mentem e além... – as palavras sucumbem de repente e ela me olha incrédula.

            Começo a me irritar com toda essa historinha.

            – Qual é o seu problema? – Mariana pergunta.

            – Qual é o seu problema, Mariana. De repente não sei por que é tão importante que eu ache esse traste um cara legal.

            – Só quero que esqueça esse seu passado negro por um tempo. Que viva, que permita–se a ver o mundo de uma maneira menos preconceituosa. As pessoas mudam.

            Mudam. Todo mundo muda. Menos eu. Eu estou aqui e tem um dor dentro de mim, um buraco não cicatrizado. Ela não me conhece como eu me conheço. Mariana não sabe o que Adam significa para mim. Ele significa lembrança, e lembrança significa passado e o meu passado é algo que corrói o meu corpo de dor, como se de repente pacotes de drogas explodissem em meu estomago e eu sofro, e a dor me consome, e eu deliro.

            Deliro.

            Meus olhos ardem. E digo a mim mesma para seguir em frente. Eu grito comigo todos os dias para ser feliz. Mas eu não sou feliz. Eu sou uma capa, um mundo de vidro e ninguém pode me salvar. Estou presa numa torre onde o encanto é inquebrável e o dragão, ah, eu sou o próprio dragão. 

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