18. Eu quero minha vida de volta. (Jade)

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Eu não sabia quantas horas estava olhando para o jardim sentada na sala da casa da amiga dos nossos pais. Meus olhos estavam tão pesados e as palavras não vinham a minha cabeça, nem conseguia ter força para mexer nos meus dedos. Apenas tive a consciência que minha mãe sentou ao meu lado.

— Logo você vai ficar bem, querida. Está aqui pegando um sol? — perguntou como se fosse da minha vontade própria, quando me empurraram para cá em uma cadeira de rodas.

Senti o carinho no meu cabelo e prendê-lo para trás.

— O seu filme está fazendo sucesso e seus fãs estão com saudade de você... — Abaixou-se à minha frente. — Precisa pensar bem o que vai fazer...

— Querida, não pressione ela. Deixei um café na cozinha com biscoitos. Pode me esperar lá com seu marido? — Era a amiga da minha mãe, que falou doce e firme.

— Filhinha, vamos voltar amanhã para te visitar de novo, ok? — Beijou minhas mãos e as senti molhada. Afastou-se antes que pudesse olhar seu rosto.

Eu não sabia bem o que era amanhã. Se seria um dia depois de hoje, ou uma semana depois de hoje. Depende do quanto me faziam dormir.

A senhora Sônia sentou-se em uma poltrona perto de mim e sorriu, tocando meu braço.

— Vai ficar tudo bem. Não precisa se esforçar para falar. Em breve vamos suspender a medicação e você vai ter mais clareza nos pensamentos...

Pisquei e senti meu rosto molhar, acho que eu chorava.

Não lembro como da sala voltei a dormir e acordei com outro sol na janela. Não era o mesmo sol, a mesma hora, mas, sabe-se lá qual dia.

Só que agora eu tinha pensamentos mais claros e conseguia sozinha sentar de forma mais ágil e isso era ótimo.

— Que acha de tomarmos um chá lá fora? — Sônia chegou sorrindo e fiz que sim com a cabeça. — Trouxe um vestido que sua mãe disse que você gostava...

Balancei a cabeça para os lados. Era o vestido que eu estava no dia da morte do meu amigo naquele carro. Dei um passo atrás e derrubei uma jarra de água.

— Tudo bem, pode ficar de pijama, porque somos só nós duas...

Corri para o banheiro, ajoelhei no chão e vomitei. Acho que eu não estava preparada para ter rapidamente a consciência acelerada.

Ela segurou meu cabelo e ficou ao meu lado quando lavei o rosto. Expliquei-lhe o porquê de me afastar do vestido e senti uma expressão de desaprovação para com a desatenção da minha mãe em ter mandado justo aquele.

— Venha, vamos tomar um ar... — Trouxe-me pela mão e não sei quantos longos minutos levou até chegarmos ao jardim da fazenda onde morava. Mas, foi prazeroso ouvir os pássaros, ver as borboletas e as flores tão coloridas. — Olha o café da manhã especial que preparei para seu despertar...

— Obrigada por me acolher aqui. — Peguei a xícara. — Vou lhe pagar toda a estadia e tratamento particular que está me dando...

— Parte dele não vai pagar, porque é de coração e, nesse caso, é sem preço... — Tocou no meu rosto.

Encolhi as pernas na beira da cadeira e apoiei a xícara no joelho, respirando fundo o cheiro de terra molhada em algum local recém-regado. Depois, dei mais uma golada no chá.

— Quanto tempo estou aqui?

— Um mês quase. Mas, não se preocupe com a noção de tempo... Só viva, respire, sinta e viva.

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