17. Tenho quase tudo, mas, não a tenho. (Mike)

330 52 0

Jade insistiu que a oportunidade do filme me tornaria famoso e mudaria minha vida por conta da fama. Não mudei como pessoa, mas, sim, um rodamoinho se fez ao meu redor, reordenando minhas prioridades e abrindo possibilidades, como comprar uma casa para minha avó.

Foi emocionante ver as lágrimas em seus olhos quando se achou na casinha com jardim florido que comprei para nós em um bairro menos perigoso do que onde morávamos. É nossa mesmo? Foi o que mais me perguntou sem parar. Eu estava orgulhoso de mim, mesmo que os olhares de desprezo de Jade me fizessem eu me sentir um pouco culpado. Mas, eu dizia para mim que trabalhei duro para decorar os textos, acordar cedo para provar figurino e fazer maquiagem e cabelo. Então, eu tinha direito de trazer conforto para minha avó.

Ter sido chamado para o papel foi sim uma consequência de estar ao lado de Jade. Há jornalistas que insinuam que apesar de eu ter pagado papel de corno enquanto ela ficava com o falecido ator, eu tinha tirado um bom lucro da nossa relação. Mas, acho que a vida é mais complexa do que uma manchete de jornal.

Agora vejo o quão egoísta e mimada Jade é, sempre dificultando meu trabalho no set e sendo um pouco arrogante e superior, pois, não queria me ver mais famoso que ela, como se eu não tivesse direito. No entanto, há espaço para todos que tem talento e correm atrás. O problema era pessoal, não queria que eu, Mike, ficasse conhecido no mesmo filme em que brilhava.

É inegável seu talento, mas, no lado pessoal me magoava. Certo, eu também menti para ela dizendo que era gay para que não nos aproximássemos e confundi tudo. Mas, será que não havia perdão em seu coração rancoroso?

Uma hora já não podíamos mais sustentar a relação de ator e assessor, porque não havia tempo e ela mesma pediu que nos separássemos assim também, aumentando ainda mais nossa distância. Só nos encontrávamos na hora de passar os textos e eu sentia muita falta de visitá-la em sua casa e podermos conversar para dividir tudo.

Já me perguntei se eu largaria tudo para começar de novo e estar ao seu lado. Só que, neste caso, como eu saberia que se comportaria e me trataria assim?

Então, às vésperas da noite de lançamento do filme, vieram à tona diversas gravações amadoras em que eu dançava no clube das mulheres. Foi um rebuliço na imprensa, na TV, em noticiário de fofoca e, logo, no bairro. Nada disso me preocupou mais do que minha avó. Meu coração bateu descompassado quando sentamos para conversar.

— Era isso que fazia toda noite quando chegava tarde? — perguntou e só me limitei a confirmar com a cabeça. — Você ainda trabalha lá?

— Não mais... Por conta das gravações, precisei deixar...

— Se não fosse o filme continuaria?

— Desculpe, por não ter lhe contado, achei que não aprovaria e ficaria com vergonha de mim...

— Não vou aprovar tudo na sua vida, mas, sei que se esforçou para comprar essa casa para mim e deu todo seu dinheiro para isso. Só que não quero que sacrifique mais a sua felicidade.

— Eu não estou.

— Então, cadê aquela moça que trouxe aqui?

— Jade?

— Você parecia gostar dela...

— É, brigamos e não estamos juntos...

— Mas, você quer voltar?

— É complicado. Vamos ver... — Beijei-lhe a testa e fui para o meu quarto novo.

Deitei na cama um pouco chateado por ver minha avó com vergonha do que eu fazia. Um dia isso aconteceria. Olhei a roupa de grife que eu ganhei para usar na festa de lançamento pendurada e não senti vontade de me expor.

O Gênio do AmorLeia esta história GRATUITAMENTE!