– Dois caras foram encontrados mortos no banheiro masculino.

Dante virou-se na direção da voz e se deparou om um par de olhos castanhos, emoldurados por um cabelo na altura dos ombros e repleto de cachos suaves.

– E quem é você? – O detetive arqueou as sobrancelhas.

– Stela Kingma, sua nova parceira. – Ela lhe estendeu a mão.

– Não achei que substituiriam Afonso tão rápido.

– Bem, vai continuar me olhando assim ou vamos resolver o caso? – Stela gesticulou, apontando para a entrada da boate.

Dante a seguiu de perto até o interior do ambiente abafado, logo que que o mormaço subiu com uma lufada de ar quente, o detetive subiu as mangas da camisa social, entretanto não foi o suficiente para se livrar de todo o calor. Os humanos pareciam gostar de fazer seu próprio inferno bem aqui.

O cheiro do álcool era forte o bastante para deixar os menos acostumados com uma forte dor de cabeça. Dante pegou uma garrafa de cerveja que por pouco não chutou e colocou sobre o balcão. De tudo que havia feito nos últimos cinquenta anos pelos quais andou pela terra, ser um policial era o que mais gostava de fazer. Bem, continuava a punir os caras maus no fim das contas.

– Ei, cara, vai ficar aí olhando para o nada ou vai vir aqui? – Stela gritou do banheiro.

Dante balançou a cabeça e caminhou até o banheiro.

Uma perita caminhava de um lado para outro tirando fotos, placas com números demarcavam as evidências encontradas pelo chão e nas pias. Contundo o detetive não viu nada interessante, não passava das roupas das vítimas e algumas camisinhas usadas. Típico.

– O que temos aqui? – Dante se aproximou de uma das estreitas cabines.

– O que aconteceu com esses caras?

Stela tinha os olhos arregalados, a boca semiaberta. O espanto era tanto que seu coração palpitava no peito. Nunca tinha visto algo como aquilo antes. Eles estavam secos, enrugados como múmias, o que era muito estranho pois o segurança dissera os ter visto estrar na boate naquela mesma noite, vivos, não havia temo suficiente para tal tipo de decomposição.

Dante não exibiu no rosto a mesma expressão de esperto de sua nova parceira. Já vira um cadáver semelhante àquele antes e mais recente do que gostaria. Maldito demônio estupido. Precisava pará-lo antes que fosse tarde demais.

– Já viu isso antes? – Stela virou-se para ele.

– Sim, no nosso último caso em aberto.

– Então nós temos o nosso próprio assassino em série?! – Os olhos da detetive brilharam de empolgação com a ideia. Afinal estava cansada de trabalhar com latrocino no distrito de onde fora transferida. Seu próprio psicopata. Um largo sorriso se formou em seus lábios.

Dante sabia que precisava resolver aquilo e rápido, entretanto não poderia atrair os policiais humanos para tal bagunça. Aquele caso teria que resolver sozinho, com suas próprias armas. Os humanos não faziam de com que estavam lidando e cabia a ele manter as coisas daquela forma.

– Onde está indo? – Stela gritou, correndo atrás dele assim que o viu deixar o banheiro.

Mas ele não respondeu, deixando a voz dela se perder em meio a ecos que ressoaram pelo ambiente acusticamente vedado.

– Quem é o responsável aqui? – Dante se aproximou de um policial militar que recolhia o depoimento de duas garotas. Contudo, esse estava mais entretido no decote do minúsculo vestido de cetim que usavam do que verdadeiramente nas palavras que saiam de suas bocas.

– Sou eu. – Um homem que estava escorado em uma das viaturas, vestido com um fino terno preto, aproximou do detetive. – Pedro Maia, em que posso ajudá-lo? Ainda não acredito que minha boate estreou com um homicídio.

Claramente nervoso, o dono da boate, girava no dedo a aliança dourada de casamento, numa tola tentativa de não tremer. Desejou ter sua mulher ali por perto. Porque ela foi viajar bem naquele dia? Talvez a presença dela ali o impedisse de surtar.

– Bom Pedro, quero acesso as câmeras de segurança da boate, os interiores e exteriores, vou procurar por qualquer um suspeito nelas.

– Claro, detetive, siga-me, vou levá-lo até a sala de segurança.

Pedro saiu andando um tanto desorientado e teve que parar no meio do caminho para se lembrar onde era mesmo a tal sala. Estava extremamente preocupado com a reputação da boate. Caso as pessoas e a mídia não se esquecessem logo daquele incidente, todo o alto investimento feito ali seria perdido, assim como um castelo de areia, dissolvendo-se ao primeiro vento forte vindo do mar. Estaria arruinado.

– Aqui.

Abriu a porta após digitar uma senha em seu painel eletrônico que ficava na fechadura, permitindo assim que o detetive entrasse.

– Vai encontrar tudo aí, as câmeras estão funcionando desde o dia em que foram instaladas durante a faze de acabamentos, tem centenas de horas de horas. Espero que sirvam para pegar esse cara.

Ou essa, Dante guardou aquele pensamento apenas para ele ao puxar uma cadeira de rodinhas que ficava de frente para um computador, ligado a um painel com vários pequenos monitores, cada um exibindo a visão das dez, talvez doze câmeras instaladas pela boate.

Concentrando-se apenas nas câmeras externas, o detetive torceu para ver algo mais claro do que o interior da boate com luz baixa e repleto de gente, amontoando-se como formigas. Apoiou o cotovelo sobre a mesa e segurou o queixo, quando se deu conta de que talvez aquilo pudesse demorar.

– Então aqui está você. – Stela pareceu na sala de braços cruzados e testa franzida. – Qual a parte de parceiros você não entendeu?

Dante simplesmente a ignorou, não virando nem mesmo a cabeça para o lado para encará-la. Seus olhos estavam fixos nas imagens que se moviam sem som a sua frente. Adolescentes sendo proibidos de entrarem com suas identidades falsas, homens suspeitos, talvez traficantes de drogas ou apenas casados que não queriam ser vistos, até que... a imagem de duas mulheres furando a fila e entrado facilmente o fez pressionar um botão para congelar a imagem. Uma delas olhou para a câmera, uma morena e o detetive reconheceu de imediato seus olhos, aqueles olhos. Tão familiares que não passariam despercebidos por ele.

– Veja se encontra algo. – Ele se levantou e indicou a Stela seu lugar. – Acabei de me lembrar que esqueci de avisar a minha mulher que deixei nosso filho com a minha mãe. Ela deve estar surtando. Se encontrar alguma coisa, qualquer coisa, por favor me ligue.

– O que? Vai realmente me deixar aqui?... – A voz dela se perdeu à medida que o detetive saiu às pressas.

Por alguns segundos Stela encarou a porta sem entender exatamente o que havia acontecido. Imaginou que talvez ele estivesse sentido pela morte trágica do antigo parceiro, e a presença dela ali de alguma forma o insultasse. Entretanto, pela forma como ele saiu, seus instintos a fizeram pensar que havia algo de errado ali.


Do Inferno À Luxuria (Desejos Sombrios 2) - DegustaçãoLeia esta história GRATUITAMENTE!