10 - A Fenda - Parte 3

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- Ruth? - Alice testa a lucidez da outra Sete que está outra vez com um olhar perdido no horizonte.
- Veio me examinar? - Ela se vira ao responder e termina pontuando com uma rápida gargalhada, quase que um soluço.
- Você está bem?
- Claro! Olha, Alice, eu não sei porque você está tão...
- Algo aconteceu com Micaela. Ela viu algo e agora está diferente. Assim como você. E ela ainda não tá bem. Você praticamente morreu!
- Alice, o que você acha que eu vi? Olha, eu não quero falar sobre esse assunto. Sim, eu estou diferente. Eu sinto que melhorei, de verdade. Então, me deixe em paz.
Alice não sente espaço para continuar a conversa que ela pretendia estabelecer.
      - Alice, como vai? - Maika aborda a brasileira assim que essa sai da cabana de Ruth.
- Oi! Acho que estou bem... Só não sei quanto à Ruth. Mas, enfim...
- Por quê? - Maika se mostra solícita.
- Ela anda meio diferente... Usando o seu poder muito intensamente e com umas expressões estranhas e também...
- Acalme-se, Alice. - Maika toca o braço da Sete artista. - Eu fico de olho nela, tudo bem?
- Isso! Por favor! Me ajude a cuidar dela. Eu ando muito preocupado com ela e com a Micaela.
- E a Lura... - Maika se vira antes de prosseguir a sua caminhada. - Tem as ajudado?
- Ah... Claro! - De forma singela.
- Tem certeza? - A auxiliar da líder se retira após deixar essa pergunta no ar. Alice fica sem entender.

***

    - Você viu um pouco da União Soviética, Putin? - Anne pergunta sentada de forma infantil na sua poltrona:  pés em cima do assento.
    - Você só sabe isso da Rússia?
    - E como você foi parar em Londres?
    -...
    - O que custa me responder? Tô entediada. - A finlandesa implora enquanto come as unhas, largada na cadeira de estofado sintético cinza claro.
    - Minha família é de origem inglesa. Meus pais foram para a Rússia por não concordarem com o capitalismo ocidental. Eles eram militantes.
    - E não é que eu consegui te fazer falar? Tá aí um tema que faz você abrir a boca: família.
Sonia responde com um sorriso amarelo que nem a força a mostrar os dentes. Uns três minutos passam até que Anne abra a boca novamente.
     - Disseram que eu tinha que vir nessa missão por causa de umas tais antenas que ficam em volta da Fenda.  Blá blá blá. - Morde uma de suas unhas. - E você? Qual foi o motivo de te trazerem?
    - Dizem que eu tenho força para defender pessoas. - A russa responde após gastar segundos com somente engolir a saliva.
    - "Defender". - Anne faz as aspas com as mãos e gira os olhos em deboche. - Acho que querem que você mate mais alguns.
    - Defender. E você precisa passar a confiar na gente. - Ruma aparece do nada indignada. - Não somos assassinos.
     - Estava ouvindo conversas? - Anne esparra as suas pernas no assento ao seu lado.
      - Não. Eu ouvi enquanto eu vinha aqui para dar alguns avisos.
      - Hm.
      - Você realmente precisa mudar a sua atitude.
      -Eu preciso confiar em vocês.
      - Sim! - Ruma se empolga.
      - Me ajudem, então. - Anne pigarreia para deixar o momento mais dramático. - Quem me mandou matar a Dulan? Me responda.
       - Eu não sei. - Ruma diz após certa pausa causada pela procura de uma explicação.
       - Pronto. Missão "Fazer de Anne Uma Discípula Fiel" falhou. Motivos: falta de explicações.
        - Você acha que se soubéssemos, não teríamos te contado?
         - Eu não sei. Só sei que eu matei uma mulher, sem possuir certo controle dos meus pensamentos e ações. Eu quero entender!
         - Eu entendo que deve se sentir muito culpada.
         - Não só culpada, mas com muito medo! - Anne explode em gestos e tom de voz elevado. - Não é só culpa.

***

- Eu sei que é a minha culpa. - Sonia diz de cabeça baixa.
- São águas passadas. A mamãe que não pensa assim. - Svetlana, irmã mais nova de Sonia, de cabelos negros e na altura do pescoço.
- Se eu pudesse fazer algo para mudar o passado, eu faria.
É então quando a mãe das duas aparece naquela sala de hospital.
   - Não sabia que tínhamos te chamado, Sonia. - A mulhe lança um olhar repreensivo à filha mais jovem.
  - Katarzyna é a minha filha. - Sonia se levanta. - Eu posso ter feito o que eu fiz e você pode tê-la tirado de mim, mas ainda é o meu sangue que corre em suas veias.
  - O que quer dizer que é o meu sangue também. - Ela se aproxima com raiva nos olhos. - Você não acha que já fez muita besteira? Eu sei que você tá fazendo de tudo pra ter mais dinheiro e tirar a menina de mim. Mas, veja bem, - Ela levanta o indicador e chega ainda mais perto com seus olhos bem fixados nos da filha. - Nada vai apagar o tanto de droga que você usou durante a gravidez. A menina hoje tem problemas por sua culpa, maldita!
Sonia deixa a melancolia entrar em seu olhar, dá alguns passos para trás e cospe para fora:
- Eu sou a sua culpa. - Ela deixa uma lágrima se acumular em seu olho direito.
- Vadia desgraçada! - A sua mãe mete-lhe um tapa na sua cara.
- Mãe! - Svetlana vem para acalmar a senhora.
- Eu sou a sua culpa! Eu sou a sua culpa! - Sonia começa a clamar visceralmente.
- Me segura, Lana, ou eu vou matar essa maldita! - Monica, a mulher com uma história cheia de submissão e omissão que não quis enxergar.
- Você deixou ele fazer o que quis comigo só porque ele era importante! Sua nojenta! Eu tenho até medo de como você está cuidando da nossa menina! - Sonia desabafa tudo isso em gritos de rasgar a garganta. O seu rosto é banhado em um choro quente.
- Ainda bem que aquele homem está morto! Morto!
- Senhoras, vocês precisam se acalmar. Isso aqui é um hospital. - Uma enfermeira pálida, baixinha e magrinha aparece.
- Eu vou tirar a Katarzyna das suas mãos. Nem que para isso eu tenha que matar. - Sonia pega a sua bolsa na cadeira em que estava sentada. - Tchau, Lana. Estava com saudades. - Acena para a irmã antes de virar as costas e partir secando o rosto molhado. A sua mãe mantém o olhar cheio de ódio.
- Se eu não te matar primeiro. - Então, desaba num pranto que estava engasgado e é acolhida pelos braços da filha mais nova. A enfermeira se retira tímida e sem saber o que fazer.

***
Um tranco na nave.
- Se coloque no nosso lugar. Não seria fácil para você confiar também. - Anne fala encarando Ruma, de braços cruzados.
- A gente chegou. - A auxiliar de Lura corta discussão e se vira para ir em direção à cabine do piloto.
- Chegamos onde? - A finlandesa descruza os braços e vai atrás da outra, batendo os pés. - Na Fenda?
- Espera. Você não pode entrar aqui. Ruma a barra e fecha a porta da cabine ao entrar. - Olhe pela janela. - Ela grita lá de dentro.
Anne trota até a janela longa e estreita na lateral do saguão onde ela estava e agora, pela qual. Sonia se encontra observando o que está lá fora.
- Uau... - Anne suspira ao ver onde chegaram.

***

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now