Capítulo 09 - Renascimento

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   O meu luto foi longo e amargo.

   Almejei destruir o mundo dos homens, com a ponta de minha lança, e enviar suas almas para o Reino dos Mortos, mas para a sorte de todos, meu coração estava fraco, e eu já não era mais o mesmo.

   Treinei durante anos, e meu corpo era forte e resistente, mas como se fortalece a alma? Como aparar um golpe que não atinge escudo ou elmo?

   Os Persas haviam atingido minha coragem, e eu já não podia odiar, pois em mim só havia tristeza e desânimo.

   Em frente a meus olhos, misturado às lágrimas vergonhosas, ainda pairava o sorriso de meu amor. Sua doce voz ainda chegava a meus ouvidos, e eu ouvia ela me chamar na névoa. Ali eu também podia ouvir meu filho, Dásos, o Nascido na Floresta, e seu choro infantil pingava por sobre as folhas, tal qual o orvalho da manhã.

   Me deitei na grama, entregando meu espírito para a natureza, e ali eu descansei minha força. As trepadeiras tocaram as pontas de meus dedos, eu pude sentir, e as folhas caíram sobre meu corpo faminto. Emagreci, e a sede se abateu sobre mim, de tal forma que minha língua se tornou árida como o deserto.

   Os dias se passaram, e eu aprendi a não mais respirar. Havia me transformado no urso que meu amor, Lanthasménos, sempre vira em mim, e, pelo capricho dos Deuses, hibernei durante muito tempo.

   Neste período de minha vida eu não tive sonhos, nem ao menos pesadelos. Estava vazio de mim, vazio de vida, e repleto de um enorme sentimento de perda que arranhava as paredes da minha mente.

   Então a natureza atendeu o meu chamado, e enviou a morte que eu tanto almejava. Ela surgiu em uma noite quente, de céu limpo e vento calmo, e tinha muitas formas e cores. Uma matilha de cães selvagens chegava até minha morada, guiados pelo cheiro de morte das mulheres que serviam Lanthasménos. E ao meu redor eles se moveram, como um redemoinho de dentes e garras, rosnando e latindo.

   Havia um deles, de pelagem amarelada, sem um dos olhos, que liderava a matilha, e ele olhou dentro de meu coração.

   Dominado pela loucura, pela fome ou pela sede, pude jurar pelos Deuses que ouvi ele chamar meu nome. Eu ainda permaneci no solo, cansado e apoiado em um de meus cotovelos, era como se a tristeza que havia em mim tivesse o peso de toda Grécia.

   A fera amarela caiu sobre mim, com dentes e garras, desejando devorar a minha carne. E os outros cães menores o acompanharam, correndo e latindo, pisando na grama e nas folhas, com garras expostas.

   Mas eu era um Espartano, e sabia, apesar da mente conturbada pela melancolia, que eles devorariam o corpo de meu filho assim que eu caísse morto.

   Isso eu não podia permitir!

   Abri meus olhos, encarei o monstro, e por um momento ele vacilou. Uma força nasceu em mim, vinda do mais profundo de minha memória, e cerrei meus punhos, recusando-me a morrer. Me ergui, puxando minha capa de Urso, e respirei vida, como há muito não fazia. Eu apanhei a besta no ar, quando ele saltou sobre mim, e com minhas mãos nuas procurei sua garganta. Mas a morte é esperta, e ele se desvencilhou de meu abraço.

   Os seus soldados caninos, que vieram ao ataque logo após o líder, chegaram até mim, mordendo e arranhando os músculos de minhas pernas.

   Urrei como fazia nos treinamentos da Katályma, quando era golpeado pelo açoite, e os chutei para longe. Eles eram muitos, tantos quanto as sombras da noite, mas a lua ainda iluminava a batalha, clareando minha visão.

Paráxeni - A Ruína dos Persas. (Por Marco Febrini.)Leia esta história GRATUITAMENTE!