OITO: TERCEIRA GUERRA MUNDIAL

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O dia já havia raiado quando eu acordei e estava definitivamente abafado e muito calor. Estava calor de um jeito insuportável. Rangi os dentes e reclamei da rigidez do meu corpo ao me mover e demorei alguns segundos para me recordar do que havia acontecido e mais ainda para perceber que eu ainda me encontrava em meu carro. Pior: eu me encontrava trancada em meu próprio veículo com as janelas fechadas e a luz do Sol de quase meio-dia esquentando.

Eles haviam me arrastado para o carro e me trancado ali. Talvez para tentar uma morte acidental – como eles achavam que eu era jornalista, um assassinato chamaria a atenção e faria com que a polícia os perseguisse por meses a fio. Ou, então, ficaram com medo do que não compreendiam e, por conta disso, me deixaram lá. Talvez na esperança que eu me auto-carbonizasse.

Bom, não aconteceu.

Com dificuldade, me pus sentada e tentei abrir a porta do carro na parte traseira aonde estava, sem sucesso. Forcei-me a tentar todas as portas, ligar o carro, mas a chave não estava em lugar algum. Demorei um tempo para me recordar da medida de segurança do carro e encontrar o botão certo – como ele era adaptado para Lisbela, ele estava no painel. E, nesse momento, já havia chamado a atenção de uma jovem moça na rua.

Apesar de bem vestida, eu sabia claramente que ela era uma prostituta. Talvez uma das mais caras, mas seus olhos traziam o peso do sofrimento e o corpo já passara por modificações para parecer mais apetitoso para os seus clientes, com certeza. Ela segurou a porta e me ofereceu a mão quando eu arrisquei sair, arfando o ar com força, tentando preencher meu pulmão com algo novo e limpo, embora o ar da cidade não fosse exatamente a coisa mais limpa que eu iria conseguir.

- Está tudo bem? – Ela me perguntou, preocupada.

Encarei-a. Ela tinha uma bolsa pendurada em seu ombro e claramente estava de saída. Não deveria morar no prostíbulo e estaria indo para casa descansar como qualquer trabalhador, mas me vira ali, sacudindo o carro por dentro, tentando sair e parara para me prestar socorro.

Não estava tudo bem, mas como eu informava isso para uma estranha que trabalhava para os caras que haviam me metido a porrada? Não sabia o que dizer e o meu silêncio disse tudo.

- Você é a jornalista da madrugada, não é? - Perguntou. – Ouvi uma história sobre isso durante a noite. Está tudo bem? Eles fizeram alguma coisa com você... Quero dizer, além de terem trancado você no carro...

Eu tinha muitas reclamações para fazer. Podia reclamar da minha barriga, que provavelmente estava roxa, podia reclamar do galo que latejava na minha cabeça, podia reclamar de ter quase sufocado até a morte... Não conseguia nem quantificar quantas coisas minhas estavam em colapso de dor porque minha cabeça estava doendo demais para que eu pudesse pensar com certa clareza, então era bem óbvio que eu me foquei na coisa menos importante que eu podia:

- Eu acho que eles levaram a chave do meu carro e eu não posso voltar pra casa agora.

Ela sorriu simpaticamente. Desceu sua bolsinha do ombro para as mãos e acenou para que eu me movesse.

- Tudo bem, chega para o lado – não entendi muito bem o pedido, mas escorreguei para o lado do carona sem muito o que reclamar. Qualquer coisa que ela fizesse seria melhor do que ficar ali parada tendo um ataque dos nervos e morrendo de dores. – Você deu a sorte de encontrar alguém que sabe fazer uma bela ligação direta em um carro.

O pior era que ela sabia mesmo. Em cinco minutos, meu carro estava rugindo e ela ainda me ensinou como ligar e desligar até que eu pudesse ter novas chaves, o que eu esperava conseguir rapidamente ligando para o chaveiro assim que conseguisse chegar em casa. Em contrapartida à sua simpatia, ofereci-lhe uma carona para sua casa – era totalmente o oposto da minha, mas eu menti, dizendo que iria para perto apenas por poder lhe devolver o favor. Não custava nada levar a moça em casa depois que ela parara o seu caminho apenas para tentar me ajudar.

[HIATUS] A Caçadora de CanalhasLeia esta história GRATUITAMENTE!