A História de Major Tom

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A cada minuto que passava respirava com mais dificuldade. Olhou assustado ao redor. Estava completamente só. Mal conseguia se mexer. A respiração estava ainda mais difícil. Será que isso era morrer? Não era bom. Lágrimas rolaram pela sua face. Nunca pensou que estaria sozinho neste momento e tinha plena consciência de que a morte era certa.

Quem sentiria sua falta? Será que o mundo se lembraria da existência de Thomas Hampton? Tom para os mais íntimos, Major Tom para o Johnny e o menino que nunca deveria ter nascido para Eddie Hampton. Isso não tinha a menor importância.

Será que existia mesmo um lugar melhor? Será que Deus o mandaria para o inferno por duvidar de sua existência cada vez que Eddie o machucava? Ou será que ele seria perdoado por agradecer a Deus por ter sobrevivido a cada surra? Será que merecia algum crédito por nunca ter deixado de acreditar no seu sonho de ir para o espaço? Em sua mente, blasfemava por estar morrendo sozinho, mas ao mesmo tempo era grato por ter conseguido realizar seu maior sonho. Na verdade, alegrava-o saber que aconteceria ali no lugar que sempre sonhou em estar. Já que a morte vem um dia para todo mundo mesmo que fosse então ali, no espaço. Longe da maldade, ambição e imperfeição dos humanos.

As coisas confundiam-se em sua mente, não sabia mais se era Thomas Hampton, ou ser era apenas o menino Tom.

A menos que estivesse delirando, constatou que era verdade que na hora da morte a vida passa como um filme em nossa mente. Agora ele era apenas o Tom, o garotinho tímido e assustado do interior. Eddie não podia machucá-lo agora, nem a ele e nem a sua mãe, mas mesmo assim ele tinha medo.

Não havia só medo e tristeza, também havia felicidade e beleza. A mãe estava cantando Memphis in June para ele, em outro instante ele estava correndo pelos campos com o Johnny.

Já era noite, estava sozinho contemplando o céu, uma das coisas das quais mais gostava de fazer. Imaginava-se flutuando naquela imensidão, sentia-se completo.

Agora estava tão alto que podia tocar as estrelas. Isso era bom. A lua não parecia tão bonita vista de tão perto. Agora todos os poemas sobre ela já não faziam mais sentido. Como ela poderia ser um símbolo dos amantes? Riu. Será que ninguém mais conseguia ver? Já não respirava mais com dificuldade. Na verdade, não sabia como conseguia estar respirando sem o tubo de oxigênio. Seria possível adaptar-se dessa maneira ao ambiente? Sentia-se conectado ao lugar como se seu corpo se fundisse a ele. Nem em seu sonho mais louco imaginaria algo do tipo.

Ouviu uma voz bem fraca e distante o chamando. Não era possível entender o que dizia. Estava cada vez mais perto. Agora estava inteligível. Ela dizia: "Acorde Tom".

Numa noite estrelada em nove de março de mil novecentos e cinquenta e dois, Thomas Hampton, filho de Edward e Martha Hampton, despertou para a vida. Martha ficou extasiada com o pequeno milagre que acabara de realizar, seu filho era a coisa mais bonita que ela tinha visto, sentimento que não fora compartilhado por Eddie, "mas pelo menos era um menino" ele pensou.

Thomas nasceu na cidade de Jackson no estado do Tennessee. Seu pai tinha uma fazenda na qual cultivava algodão. Sua mãe era uma leitora ávida, seu nome inclusive foi escolhido por ela, que o batizou com o nome de Thomas devido ao seu livro favorito na infância "As Aventuras de Tom Sawyer" de Mark Twain. E assim como o personagem, todos o chamavam apenas de Tom. Talvez esse fosse o livro favorito do Eddie também porque ele sempre o chamava de Thomas quando batia nele. Tom era um menino comportado, embora tivesse seus momentos de travessura como todo garoto da sua idade, mas mesmo assim de todos, ele era o que mais apanhava do pai. Costumava imaginar que se o outro Tom, o Sawyer, fosse filho do Eddie, ele levaria surras memoráveis. Tom apanhava pelo simples fato de estar feliz, mas na maioria das vezes ele achava que apanhava apenas por existir. A mãe sempre cantava para ele depois para confortá-lo, ela tinha uma voz muito bonita, ele ainda podia ouvi-la cantando: "Memphis in June. A shade veranda under Sunday blue sky. Memphis in June. And my cousin Miranda she's making a blueberry pie." Essa música era do filme Johnny Angel, o Hoagy Carmichael quem cantava. A maioria das mães gostava do George Raft, mas Martha era diferente, ela preferia o Hoagy Carmichael. Ele pensava que a mãe tinha suas excentricidades, talvez por isso tivesse se casado com o Eddie.

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