CAPITULO 26- o v e r

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Foram necessários 5 meses para que a felicidade se escorregasse pelas minhas mãos sem que eu tivesse qualquer controle sobre ela.
5 meses ao lado de Lisa, 5 meses ao lado de Ian, 5 meses ao lado de Gabriel, 5 meses sendo apenas a Amora que voltou a vida.
Mas eu vou contar do começo.
- Você consegue acreditar que esses meninos não organizaram as coisas dessa caixa ainda? - Lisa me perguntou, sentada no sofá com os pés na mesinha de centro.
Lisa ainda morava na casa dela, mas passava tanto tempo no nosso apartamento na Gávea que eu já estava me acostumando a morar com ela. Quando eu voltei com Ian pro Rio de Janeiro, o apartamento de 2 quartos de Gabriel acabou ficando pequeno, fazendo com que Ian e Lisa se juntassem ele para pagar o aluguel de um apartamento de três quartos na Gávea. Não era muito, era bem pequeno, mas ainda assim era nosso. Eu tinha um quarto só meu, Gabriel tinha um só dele e Ian dividia o dele com Lisa. Nós havíamos nos tornado uma família.
- Eu não duvido nada que Ian vai chegar do trabalho e fingir que não sabe da existência dessas caixas. - Falei. Sim, meu irmão estava trabalhando num hotel (e não! Não era um dos nossos, ele quis trabalhar honestamente -mesmo sem precisar, já que recebia o lucro das ações dos hotéis- sem ser considerado maior que os outros funcionários por ser um Castelli) e ficava o dia todo fora, mas isso não impedia Lisa de passar o dia inteiro na nossa casa. E eu não reclamava, adorava a companhia dela.
- Falando em trabalho, Gabriel... - Lisa começou. Ela andava tentando, sem sucesso, fazer com que Gabriel arranjasse um emprego pra "ocupar a cabeça", já que o coitado ainda definhava por causa de Diana, sua ex noiva de vários anos atras. Deus, quando eles terminaram eu tinha acabado de dormir.
- Desiste. - Ele falou, organizando alguns copos na cozinha.
- Mas, Gabriel...
- Qual é, cunhada, você sabe muito bem o que é não precisar trabalhar pra nada. Nós somos farinha do mesmo saco, senhorita Wengrov.
- Mas eu faço faculdade! - Ela se defendeu.
- E eu já terminei a minha!
- Mas não exerce.
- Lisa, vai se fuder.
Nós apenas rimos, aquele diálogo já era absolutamente normal. Quando a porta abriu, eu vi o rosto de Lisa se iluminar. 5 meses que eles estavam juntos sem briga, 3 meses que Agnes brigou comigo porque eu disse que preferia Lisa como cunhada, me recusando a fazer com que os dois terminassem, 4 meses que Ian entrava no apartamento e Lisa sorria. Todos os dias.
- Trouxe pão. - Ele falou, trancando a porta.
Lisa se levantou, pegando o pão da mão dela e dando um beijo em seu rosto.
- Ei, você tá uma gracinha hoje. - Ele falou.
- Eu sou uma gracinha sempre.
- Qual é, somos todos umas gracinhas, parem com essa merda. - Gabriel reclamou.
Há um tempo atras, comecei a entender que meu coma, meus anos de sono, foram pro meu bem. Quando eu dormi, eu não tinha uma família, quando acordei, eu estava com as pessoas feitas pra mim.
Mas eu sentia falta de alguém.
Eu sentia falta de um amor como o de Lisa e Ian, sentia falta de beijar, abraçar, cuidar. Eles eram tão bonitos juntos que me faziam encontrar beleza em tudo. Mas ninguém, ainda, havia encontrado beleza em mim.
- Amora! - Ian gritou, me acordando dos pensamentos.
- Oi?
- Vem comer!
Os fins de tarde eram sempre os mesmos, mas as sensações eram sempre melhores que no dia anterior. Nós nos sentávamos, os quatro, e comíamos qualquer coisa preparada por Lisa ou trazida por Ian depois do trabalho.
- Eu posso fazer uma pergunta pra vocês? - Falei
- Até duas - Gabriel respondeu, entre uma mordida e outra.
- Vocês não acham que eu deveria, sei lá, começar a estudar ou até arranjar um emprego?
Ian levantou o rosto rapidamente.
- Não.
- Ian... - Lisa começou.
- Qual é, ela só está em casa tem 5 meses.
- Exatamente, Ian! - Contestei - 5 meses! Não é como se um carro fosse passar em cima de mim se eu saísse na rua sozinha! Eu preciso ser independente.
- Eu acho uma boa ideia. - Gabriel falou
- Estou com Gabriel.
No fim, Ian era o único relutante a ideia.
- Ian... - Eu pedi. Não que eu precisasse de sua permissão, mas ele era o mais perto que eu tinha de um pai no momento, mesmo não sendo de fato o mais velho.
- Você quer trabalhar onde? - Ele perguntou, dando o braço a torcer e me fazendo sorrir.
- Eu não faço a mínima ideia! - Falei, animada - Mas você não acha incrível sair entregando currículos por aí? Falando para as pessoas que preciso trabalhar, e caraca, imagina que legal é trabalhar?
- Amora, querida, você é a única pessoa que se anima falando sobre empregos - Lisa disse - mas, se quer saber, posso conseguir um emprego em um dos aeroportos pra você, mas não deve ser muito animador.
- Eu aceito qualquer coisa!
- Não, quer saber? Alice está precisando de ajuda na galeria, o que você acha?
Alice Fantini, melhor amiga de Lisa, fazia faculdade de direito mas tinha aberto uma galeria de arte há poucos meses, pra ganhar uma graninha. Eu gostava de Alice, então a ideia não me pareceu tão ruim.
- Acho ótimo.
- Vou conversar com ela então. Ian?
- Que é? - Ele falou, mastigando, fazendo Lisa revirar os olhos.
- Diga a Amora que está tudo bem.
- Está tudo bem, Amora, você pode trabalhar com Alice.
Eu soltei gritinhos e bati palmas, levantando da cadeira para dar vários beijinhos molhados no rosto de Ian.
- Você é o amor da minha vida! - Falei
- Tá tá tá, princesa, tá.
- Seu celular tá tocando, Amora. - Lisa falou e eu corri pra pegar. Ninguém me ligava além de Agnes, e não nos falávamos a meses, então fiquei curiosa.
Não reconheci o número.
- Alô?
- Ai meu Deus... - Ela gritou, nervosa e parecendo soluçar. - É ela! Augusto, é nossa filha! Amora está viva!
Enquanto eu estava em coma, eu ouvi minha mãe falar comigo algumas vezes. Não consigo me lembrar o que, mas me lembro do timbre da sua voz, das lágrimas frias caindo sobre minhas mãos. Mas agora, no telefone, ela parecia mais real.
- Amora? Onde você está? Amora, papai está com tanta saudade, eu quero te ver, filha, você está acordada, meu Deus isso é um sonho.
Quando Ian percebeu que comecei a chorar descontroladamente, largou o copo no chão e correu até mim, tirando o celular da minha mão.
- Quem é, Amora? - Ele me perguntava, nervoso. - Quem é?
Mas eu apenas me sentei na cama e chorei. Por cinco meses, foi fácil fingir que meus pais não existiam, foi fácil me iludir com a família perfeita, mas ouvir a voz deles me apertou o peito e me deu algo bem parecido com saudade.
- É a mamãe, Ian.
- Você deve estar louca de ligar pra Amora depois de tanto tempo. - Ian disse ao telefone, enquanto Lisa se sentou ao meu lado e encostou minha cabeça em seu ombro, me dizendo pra ficar calma. Quando minha mãe respondeu, Ian continuou. - Cinco meses, porra! Cinco meses, Felicia! Você não a...como é? Não, Felicia, você não é bem vinda.
Quando Ian desligou o celular, ele se ajoelhou na minha frente, segurando minhas mãos e juntando nossos olhos gêmeos.
- Como ela descobriu? - Gabriel perguntou, encostado na porta do meu quarto branco e roxo.
- Ela foi ao hospital visitar Amora e ela não estava lá.
- Ela quer me ver? - Perguntei e ele fez que sim.
- Mas apenas se você quiser, princesa, nós não precisamos...ela não vai nos achar.
- Eles me mataram, Ian...por dinheiro, para amenizar escândalos, eu não tenho mais amigos, eu não tenho mais aquela vida, eu não... - Voltei a chorar, a historia era absurda, mas foi o que aconteceu.
- Eu sei, pequena, nós sabemos. Mas eles não vão te atingir agora, eu te prometo.
- Nós vamos fazer qualquer coisa, Amora. - Lisa me disse - Você não está sozinha.
No fundo do meu coração, eu sabia que não devia vê-los, eu sabia que aquilo doeria, mas eu precisei. Era um peso sob minhas costas, e eu precisava tirá-lo para voltar a viver completamente.
E então Lisa reservou quatro passagens para o primeiro voo para São Paulo no próximo dia. Nós iríamos todos juntos, como já havíamos nos prometido, e não nos largaríamos por nada nesse mundo.

LISA [COMPLETO - EM REVISÃO]Leia esta história GRATUITAMENTE!