Capítulo 1

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Corria desesperada enquanto as lágrimas me acompanhavam. Não me importava estar sobre a mira de diversos olhares. Naquele momento apesar das minhas emoções estarem completamente descontroladas, havia uma certeza; precisava correr o mais rápido que pudesse ou não saberia o que aconteceria comigo.

Não estava sendo perseguida por nenhum criminoso, homem ou segurança. Muito menos policiais. Desde que conheci Alisson, aprendi a ser um pouco mais coerente, embora os últimos seis meses fossem completamente o oposto da minha tentativa de ser alguém melhor. Afinal, apesar de todos os meus esforços, continuava sendo a Amanda; impetuosa, sincera e intensa. E isso somado ao estado em que meu coração ficou quando Éder começou a se aproximar de mim, apenas piorou as coisas. E depois de erro em cima de erro, não aguentei ficar no Brasil, ainda mais sabendo que novamente eu era culpada de tudo aquilo. Como pude cair na cilada do meu coração? Bem que há um trecho na Bíblia que fala que o coração é enganoso e traiçoeiro. Acho que aprendi a lição, tarde demais.

— Último aviso para o embarque internacional. Portão de embarque D9.

Conhecia muito bem aquele aeroporto, virei a direita, esquerda e novamente a esquerda e lá estava ele; portão D9. Sorri internamente, mas não diminui os passos e foi nesse instante que acabei trombando em alguém.

— Mas que droga! – bufei.

— Desculpe... ­ ­ ­

Conhecia aquela voz. Como gostaria de sumir naquele instante. Mil vezes droga! E porque no meio de tantas pessoas precisava esbarrar justamente nele? Antes que pudesse me reerguer do chão precisei respirar fundo. Depois de tudo não sabia como agir. Sim, eu a Amanda com seus segredos não sabendo como agir. As vezes a vida nos ensina que nem sempre temos a resposta na ponta da língua.

— Amanda? Você está bem? - aquela voz ainda conseguia ficar preocupada comigo.

Levantei calmamente enquanto meu coração estava o oposto. Fitei o rosto tão conhecido e que ainda apresentava tristeza. Eu era a culpada de tudo. Minha alma gostava de me condenar por todos os erros.

— Oi Alisson! Estou bem, obrigada. Desculpe, não te vi, mas preciso ir. Meu voo já está partindo - fitei-o sem graça e fiz a única coisa que podia naquele momento; novamente correr ao encontro do portão D9, dessa vez direto para o avião.

Aconteceram tantas coisas nos últimos meses que pareço um vulcão prestes a entrar em erupção. Na realidade tudo foi em questão de semanas, mas parecia uma vida inteira no meio de uma guerra, mas uma guerra intensa com meus próprios sentimentos. Já estava no avião tentando respirar fundo. Olhei para a pequena janela e fechei os olhos, lembrando como toda aquela bagunça começou.

Era uma sexta-feira quando descobri que o namorado da minha prima havia a agredido novamente, mas daquela vez o caso foi grave. Ela e o bebe corriam sérios riscos de não sobreviverem. O parto foi feito imediatamente. Estava desolada, porém precisava ser forte pela minha prima e por aquela criança indefesa. A partir daqueles dias cuidei dela como se fosse o meu próprio filho. Após a mãe ter recebido alta, duas semanas depois me mudei para o seu apartamento. O namorado simplesmente desapareceu ao saber que a polícia estava atrás do seu paradeiro. No entanto, o que jamais esperava era a ajuda repentina de Éder que se comoveu com o acontecimento. E justamente naquela semana Alisson foi fazer uma viagem pela ONG. Parecia um complô para que eu e Éder ficássemos juntos e revivêssemos a dor e a saudade do filho que um dia perdemos. Talvez precisasse daquele momento tanto quanto ele, mas era uma ilusão tentar reviver algo que já se perdera, porém, quando percebi estávamos emocionalmente envolvidos pelo nosso passado. Passamos uma semana inteira juntos, cuidava do bebe e ele fazia tudo o que precisasse para que a minha prima ficasse tranquila. Por aqueles dias fomos os pais que nunca seríamos. Tentamos ressuscitar o nosso bebe por meio daquele anjinho, mas as coisas estavam indo longe demais.

Um mês havia se passado e Éder continuava aparecendo no apartamento. Alisson estava ficando irritado com a situação. Era evidente tudo o que estava acontecendo, minha prima me alertou, mas teimosa ao extremo como sou, achei exagero da sua parte. Até que em um fim de tarde, enquanto terminava de fazer a bebe dormir, Éder apareceu novamente e percebi algo diferente em seus olhar. Não sei como, mas um clima rolou e quando percebi estávamos nos beijando. Alisson apareceu bem naquela hora.

Bom, o resto você já deve ter imaginado. Se passaram dois meses sem que ele me olhasse na cara, assim como sua irmã que tentava entender por que eu, que sou completamente apaixonada pelo Alisson, agi assim. O resultado de tudo isso? Fugi de todo mundo, do Éder, da minha prima, do bebe e principalmente daquele homem que nunca quis magoar. E agora estou aqui, de volta para a minha amada terra porque simplesmente não sei mais o que fazer comigo. Estou falando sério, preciso de um tratamento. Por que fui fazer essa burrada? Sou completamente apaixonada pelo Alisson, mas porque quis reviver o ex-projeto de família com Éder? Poxa, de novo essa história? Quando deixarei de ser tão complicada? Bufei, coloquei os fones de ouvidos e dormi o resto da viagem.

Acordei no exato momento em que o avião aterrissou. Sabia que a viagem era longa. Assim que descei as escadas, coloquei um chapéu, e um óculo de sol, e liguei para a primeira pessoa que veio na minha mente. Precisava andar disfarçada e que alguém viesse imediatamente me buscar. Só torcia que minha Dinha atendesse rapidamente e estivesse com o resto do dia livre. Sei que deveria ligar para a minha mãe primeiramente, mas não sei, algo dizia que precisava conversar com ela.

O sorriso surgiu rapidamente ao escutar a voz do outro lado, doce e forte. Não pude contar o que estava acontecendo por telefone, apenas disse que precisava dela urgentemente, caso de vida ou morte. Bem, ela conhecia o meu temperamento o suficiente para saber que ainda estava viva, apesar da confusão do meu coração. Em tempo recorde minha linda Dinha estava lá, sozinha como havíamos combinado. Abracei-a fortemente demonstrando toda a saudade e a necessidade daquele carinho. Ela sorriu, compreensiva como sempre e fomos para um lugar especial, só nosso. Uma praia deserta e completamente restrita, apenas nós tínhamos acesso.

E foi ali, que sem demora abri o meu coração ansiosa para que ela me desse a resposta de todas as minhas questões mal resolvidas e finalmente a receita para consertar tudo. Entretanto, ela não falou nada por alguns minutos, apenas me fitou com carinho, encostou as costas em uma árvore que havia em nosso cantinho e fitou o mar. Fechou os olhos como se relembrasse um momento muito especial em sua vida. A partir dali suas palavras se tornaram diferentes, e uma história surgiu de seus lábios... Apenas o começo da minha, mas era principalmente o começo do seu legado em um mundo completamente diferente.

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O começo de um LegadoLeia esta história GRATUITAMENTE!